Estrangeiro coloca R$ 5,5 bilhões na Bolsa brasileira na primeira semana após a eleição de Lula
Investidor local mantém pessimismo e, na contramão, sacou os mesmos R$ 5,5 bilhões da B3; visão, contudo é de que Lula precisará dar sinalizações em relação à economia para continuidade de fluxo
Ignorando o fato de que a Faria Lima segue frustrada com a eleição do petista Luiz Inácio Lula da Silva, o investidor estrangeiro mostrou otimismo e colocou R$ 5,5 bilhões na Bolsa brasileira até a última segunda-feira (07), conforme dados compilados da B3. A leitura positiva, que é muito sustentada pela visão de que o Brasil poderá retomar seu protagonista global na área ambiental, vem esbarrando na incerteza sobre a equipe econômica do novo governo e sobre como será tratada a questão fiscal, algo que nos últimos anos vem assombrando o mercado financeiro, alertam especialistas.
No mercado local, sem a reeleição de Jair Bolsonaro, o mercado financeiro respondeu vendendo ativos. Assim, na contramão dos gringos, os investidores institucionais, grupo onde estão os fundos de investimento, retiraram R$ 5,5 bilhões da Bolsa, no mesmo período. Já as pessoas físicas seguiram o mesmo caminho e sacaram R$ 36 milhões no intervalo, que teve um dia a menos de pregão, por conta do feriado de Finados. No acumulado de 2022, o capital externo está positivo em R$ 87,8 bilhões.
Desde a confirmação da eleição de Lula, na noite de domingo, 30 de outubro, bancos estrangeiros têm enviado a clientes mensagens sobre a situação no Brasil, após uma eleição bastante acirrada. "Fluxo forte e entrada de recursos no Brasil nos primeiros dias após a eleição. Grandes fundos internacionais estão comprando participação em Bolsa, em grandes volumes", segundo uma dessas notas. A mesma mensagem incluía a curiosidade de que os investidores locais estavam "mais céticos em relação aos estrangeiros", o que poderia fazer com que essa corrida se ajustasse em um período curto de tempo.
Para o economista da gestora WHG, Danilo Passos, já se sabia, antes mesmo do desfecho da eleição, que Lula era o preferido dos estrangeiros. "Existia uma receptividade maior ao nome do Lula pela experiência passada do governo e com dois focos que o estrangeiro valoriza, uma a questão institucional, por ser menos combativo, o que é visto com bons olhos, e pela temática ambiental", diz. Essa leitura foi demonstrada pelo forte aporte na Bolsa brasileira já nos primeiros dias após confirmado o resultado das eleições.
No entanto, Passos diz que a continuidade desse fluxo de capital pode depender do posicionamento do novo governo em relação à economia. Um ponto fundamental é se haverá um nome no Ministério da Fazenda que se tornará uma espécie de fiador da política econômica do novo governo. "Por mais que o estrangeiro tenha gostado da vitória do Lula, esses investidores precisam de sinais de como será para frente".
Responsável pelos ativos no Brasil do fundo holandês Robeco, Daniela da Costa-Bulthuis diz que na Europa o Brasil tem a recomendação "overweight", ou seja, expectativa de desempenho acima da média do mercado. "Hoje a grande fragilidade do Brasil é o fiscal", afirma o gestora do fundo que possui 200 bilhões de euros investidos em todo o mundo.
Ela diz que o olhar é de otimismo em relação ao Brasil, especialmente na questão do meio ambiente, que afastou muitos investidores estrangeiros do Brasil ao longo da gestão Bolsonaro. Apesar disso, outro ponto de atenção, que ainda tem relação com a temática "ESG", sigla para as áreas ambiental, social e de governança. O principal ponto, segundo ela, é manter a Lei das Estatais, que criou regras para as companhias públicas, impedindo, por exemplo, indicações políticas nessas companhias.
Holofote nas estatais
O analista de ações da Órama, Phil Soares, avalia que o investidor local está mais pessimista porque conhece mais detalhes das gestões petistas. Por isso, as duas maiores estatais federais, Petrobras e Banco do Brasil, que já passaram por ingerência em gestões anteriores, estão sendo pressionadas, refletindo em perda de valor de mercado. No caso da Petrobras, a perda foi de cerca de R$ 50 bilhões na semana da vitória de Lula.
A cautela do mercado financeiro, segundo ele, vem sendo sustentada pelas primeiras sinalizações do governo eleito, dentre eles a declaração de que os dividendos da Petrobras precisam ser reduzidos companhia para serem transformados em investimentos. "Nomes para comandar pode ser uma boa sinalização, mas será preciso mais. Precisará uma sinalização de que os escolhidos terão capacidade de execução", diz.
No entanto, o índice Bolsa estatais, desenvolvido pelo Teva Indices, pouco se movimentou na semana passada (+0,11%), conforme levantamento enviado ao Estadão. Isso por conta da diversificação do índice, comenta o chefe de e pesquisa quantitativa da Teva Indices, João Paulo Fernandes. Pela metodologia da casa, o teto para a participação de uma empresa no índice é de 20%, o que limita a pressão negativa exercida pela petroleira na semana passada.
No acumulado do ano, até a última sexta-feira, o índice se valorizou 34,7%, porcentual semelhante ao mesmo período em 2018, ano de eleição de Jair Bolsonaro, quando se valorizou 32,7%, segundo o estudo. Em todo ano eleitoral, aponta Fernandes, o volume de negociação das ações de estatais dá um salto, com investidores ajustando suas carteiras de investimento.