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Eleições na Espanha: 4 pontos para entender por que o pais vai às urnas pela 4ª vez em 4 anos

Em 10 de novembro, a Espanha completa a marca de quatro eleições em quatro anos. A crise na Catalunha e os efeitos da recessão de 2008 estão entre as explicações para essa situação.

8 nov 2019
15h26
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A política espanhola está paralisada e ninguém parece ter a solução para desbloqueá-la. A próxima eleição na Espanha, em 10 de novembro, é a quarta desde dezembro de 2015.

Os principais candidatos das próximas eleições gerais: da esquerda para a direita, Pablo Casado (PP), Pedro Sánchez (PSOE), Santiago Abascal (Vox), Pablo Iglesias (Podemos) e Albert Rivera (Ciudadanos)
Os principais candidatos das próximas eleições gerais: da esquerda para a direita, Pablo Casado (PP), Pedro Sánchez (PSOE), Santiago Abascal (Vox), Pablo Iglesias (Podemos) e Albert Rivera (Ciudadanos)
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

O país está fragmentado. Além da tradicional oposição entre esquerda e direita, há divisões nos grupo e isso está minando as chances de consenso.

Depois de vencer por maioria insuficiente para formar um governo nas eleições de 2015, o conservador Partido Popular (PP) de Mariano Rajoy só conseguiu governar depois de novas eleições em 2016.

Isso foi possível devido ao apoio do partido de centro-direita Ciudadanos e à abstenção de grande parte do Partido Socialista Obrero Español (PSOE).

No entanto, a aventura do Partido Popular durou dois anos. Em maio de 2018, o secretário-geral do PSOE, Pedro Sánchez, ganhou uma moção de censura contra Rajoy e tomou seu lugar como presidente do governo — como os espanhóis se referem ao cargo de primeiro-ministro.

O candidato do partido socialista, Pedro Sánchez, não recebeu apoio suficiente para formar um governo estável
O candidato do partido socialista, Pedro Sánchez, não recebeu apoio suficiente para formar um governo estável
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

No entanto, Sánchez governou com pouco apoio e, depois de sua proposta de orçamento não contar com o apoio do Congresso, ele convocou eleições novamente. A eleição, realizada em abril de 2019, deixou o PSOE como vencedor sem uma maioria absoluta e um Parlamento muito dividido.

Conquistar maioria parlamentar foi impossível mais uma vez.

Para as próximas votações, as pesquisas prevêem um resultado semelhante ao de abril e, se a pouca vontade política de firmar acordos não mudar, a dificuldade persistirá.

Especialistas concordam que, para desbloquear o nó institucional, devem ser resolvidas situações como as do nacionalismo catalão, as "cicatrizes" da grande recessão econômica de 2008 e a reconciliação entre grupos políticos do mesmo espectro ideológico.

A BBC explica, em quatro pontos, por que a Espanha não está conseguindo alcançar governos estáveis que promovam as políticas exigidas pelo país.

1. Crise econômica

A recessão de 2008 prejudicou a economia global e deixou feridas profundas na Espanha. Alguns dados econômicos melhoraram: hoje o PIB da Espanha cresce a uma taxa de 2,52%, diferente do ano dramático de 2009, quando o crescimento anual foi negativo em 3,57%, segundo dados do Banco Mundial.

No entanto, ainda persistem problemas estruturais, como a taxa de desemprego. Antes da crise, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, havia pouco menos de 2 milhões de desempregados no país. No fim de 2012, esse número chegava a pouco mais de 6 milhões.

A taxa de desemprego na Espanha é um dos problemas estruturais que persistem no país.
A taxa de desemprego na Espanha é um dos problemas estruturais que persistem no país.
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Apesar da melhoria da economia e da criação de empregos, ainda não foi possível atingir os níveis de antes da crise de 2008.

"A crise econômica deu origem a uma política que rompeu com o sistema tradicional, em que dois partidos, o PP (hoje liderado por Pablo Casado) e o PSOE, se alternavam no poder", disse à BBC News Mundo Pablo Simón, doutor em Ciência Política pela Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona.

O doutor em Ciência Política pela Universidade Harvard José Fernández-Albertos também disse que "ainda há eleitores que atribuem a culpa pela crise e os problemas estruturais do país à má administração de populares e socialistas".

O castigo do eleitorado pelas consequências da crise atingiu fortemente o PSOE.

A crise econômica aconteceu durante o governo socialista de Zapatero, causando um colapso eleitoral em 2008
A crise econômica aconteceu durante o governo socialista de Zapatero, causando um colapso eleitoral em 2008
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

O socialista José Luis Rodríguez Zapatero estava em seu segundo mandato quando se instalou a recessão de 2008. Nas eleições gerais de 2011, o candidato socialista Alfredo Pérez Rubalcaba sofreu os efeitos do desastre: o PSOE perdeu 4,3 milhões de votos e 59 deputados. E o seu rival de direita, Mariano Rajoy, alcançou um resultado histórico ao obter 186 cadeiras no Parlamento.

No entanto, aquele seria o último governo com uma clara maioria no Parlamento espanhol, composto por 350 cadeiras e onde 176 são necessárias para governar.

O descontentamento com a precariedade econômica se traduziu nas ruas com o movimento conhecido como 15-M, que protestava contra as medidas de austeridade econômica impostas para amenizar os efeitos da crise.

Desse movimento, surgiu o partido Podemos, liderado pelo professor universitário Pablo Iglesias e que se posicinou à esquerda, mas insatisfeito com os socialistas.

Pablo Iglesias emergiu como o líder político do movimento contra as medidas de austeridade 15-M, que originou o partido Podemos
Pablo Iglesias emergiu como o líder político do movimento contra as medidas de austeridade 15-M, que originou o partido Podemos
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Assim, começou uma nova era na Espanha e a principal causa da estagnação institucional: fragmentação política e pluripartidarismo.

"A polarização política é algo que geralmente surge após desastres econômicos. É a consequência da perda de condições de vida que a população acreditava que estavam garantidas", analisa a doutora em história contemporânea Nere Basabe.

2. Fragmentação política

"Passamos do sistema bipartidário para uma crescente fragmentação política entre esquerda e direita e também dentro desses mesmos blocos", argumenta Simón. "Os partidos se afastaram uns dos outros e a maioria no Parlamento ficou mais difícil de articular, levando a governos cada vez mais fracos."

O colapso do bipartidarismo que começou com o Podemos continuou com o surgimento, em 2015, do Ciudadanos, em nível nacional — um partido liberal e de centro-direita fundado na Catalunha em 2006.

Mas as rupturas não terminam aí. O partido de extrema-direita Vox conquistou 24 cadeiras em abril passado e agora, para as eleições de novembro, foi adicionada a candidatura do Más País, uma plataforma que se separou do Podemos por divergências políticas.

Para alguns especialistas, o partido de extrema-direita Vox surge, em parte, em resposta à independência da Catalunha. Na foto, o candidato Santiago Abascal
Para alguns especialistas, o partido de extrema-direita Vox surge, em parte, em resposta à independência da Catalunha. Na foto, o candidato Santiago Abascal
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Pablo Simón acredita que as próximas eleições não resolverão um problema que ele considera mais de governabilidade que de governo.

Ou seja, o fato de um candidato sair vencedor não significa que ele terá a estabilidade necessária para governar.

"Enquanto os partidos continuarem vendo a oportunidade de crescer eleitoralmente ou de seus rivais diminuírem, os políticos pensarão no curto prazo e apostarão em mais soluções estratégicas internas do que no interesse geral", explica Simón.

Isso ficou especialmente evidente nas últimas eleições. O PSOE e o Ciudadanos, dois partidos que teoricamente convergem em várias ideias políticas, rejeitaram formar uma aliança que alcançaria 180 deputados. Segundo Simón, isso ocorreu justamente devido a suas próprias estratégias partidárias.

De 2015 a 2019, a Espanha soma quatro eleições gerais.
De 2015 a 2019, a Espanha soma quatro eleições gerais.
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Para Fernández-Albertos, uma parte importante do impasse também se deve ao fato de que, internamente, os blocos — tanto da esquerda quanto da direita — se tornaram mais heterogêneos.

"O Podemos capturou uma parte da esquerda que era anteriormente do PSOE, e a direita diversificou seu espaço em um partido liberal e urbano, o Ciudadanos, e também para uma ala mais reacionária, com o Vox", diz Fernández-Albertos.

No entanto, no meio dessa polarização política, também surgiu o problema em relação à Catalunha.

3. A crise catalã

"O problema catalão não é algo novo. Desde o século 19 se arrasta um problema endêmico que é a incorporação de nacionalidades periféricas em uma ideia da Espanha. Depois de (Francisco) Franco, durante a transição democrática, tanto os partidos nacionalistas basco como catalão agiram como articuladores e favoreceram a formação de governos, algo que continuou nas legislaturas seguintes", diz a historiadora Nere Basabe.

Pablo Casado é o secretário-geral e candidato do Partido Popular para as eleições de novembro
Pablo Casado é o secretário-geral e candidato do Partido Popular para as eleições de novembro
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Mas agora essa situação mudou. A crise econômica de 2008 também explica a ascensão da defesa pela independência da Catalunha, uma posição que os distanciou do papel dos partidos "que fazem acordos", como diz Fernández-Albertos.

"O bloco dos partidos catalães geralmente oscila entre 17 e 21 assentos, de forma estável, representando assim um importante apoio para os partidos que não alcançam a maioria absoluta", explica Simón.

O governo regional da Catalunha realizou um plebiscito de independência em 2017, que o Tribunal Constitucional espanhol considerou ilegal e terminou com a sentença de prisão de seus principais líderes, causando protestos maciços e uma maior fratura política.

A ascensão do movimento pela independência da Catalunha dificultou a construção de acordos
A ascensão do movimento pela independência da Catalunha dificultou a construção de acordos
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

"Agora, como resultado do processo de soberania, esses partidos optaram pela independência e isso os afastou da capacidade de fazer acordos com os partidos de esquerda e direita", diz Fernández-Albertos.

Mas a crise catalã não apenas distanciou os partidos nacionalistas dos não nacionalistas, mas também promoveu fraturas internas, como as do Partido Popular.

"O Vox está mostrando pela primeira vez na Espanha a cara de uma direita populista radical que está intimamente ligada à crise catalã e seus efeitos. O Vox não descobre um novo eleitorado, mas rouba os do PP. O que dizem as pesquisas é que 80% dos eleitores do Vox já pertenciam ao Partido Popular", explica Simón.

Em 2018, o conservador Mariano Rajoy perdeu uma moção de censura depois de um escândalo de corrupção em seu partido
Em 2018, o conservador Mariano Rajoy perdeu uma moção de censura depois de um escândalo de corrupção em seu partido
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Parte do eleitorado do Vox acredita que, durante a democracia, foram feitas concessões demais aos partidos nacionalistas catalães e que agora é necessária uma posição mais firme para contrariar suas demandas. A visão é compartilhada pelo Ciudadanos, outro partido que dividiu os votos da direita.

4. Tendência histórica

É comum a presença de "duas Espanhas" ao longo da história. Há quem creia que existe uma divisão latente e insolúvel, especialmente desde a Guerra Civil, entre a direita e a esquerda.

"Muitos querem negar isso, mas a verdade é que essa dualidade existe, e não apenas desde a Guerra Civil. Poderíamos dizer que as dificuldades de governabilidade ocorrem desde a criação da Primeira República, em 1812", diz Basabe.

Segundo a historiadora Basabe, estão reaparecendo na Espanha algumas das divisões que terminaram após a Guerra Civil e o governo militar de Franco (foto)
Segundo a historiadora Basabe, estão reaparecendo na Espanha algumas das divisões que terminaram após a Guerra Civil e o governo militar de Franco (foto)
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

A historiadora acredita que a exceção à falta de consenso ocorreu durante a Transição Espanhola, em 1975, quando o país mudou do regime ditatorial de Franco para o regime democrático. Ela aponta que havia uma "verdadeira vontade de virar a página e fechar as feridas criadas na Guerra Civil e durante o governo de Franco".

"Depois da ditadura, e junto com a criação da estabilidade econômica com o Estado de bem-estar social, essa dualidade adormeceu. Mas, paradoxalmente, a divisão foi renovada por quem não viveu esses capítulos da história", diz Basabe.

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