Durigan diz ao FMI que alta de preços da energia vai corroer renda e dificultar desinflação no mundo
Segundo ministro, guerra no Oriente Médio eclodiu em 'momento delicado', quando economia global começava a se estabilizar após sequência de perturbações de grande magnitude
NOVA YORK - O ministro da Fazenda, Dario Durigan, alertou para os impactos da extensão da guerra que opõe os Estados Unidos e Israel e o Irã na economia mundial, em posição do Brasil enviada ao Comitê Monetário e Financeiro Internacional (IMFC, na sigla em inglês), durante as reuniões de primavera do Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington, nos EUA.
"O aumento dos preços de energia e alimentos tende a corroer a renda real, reduzir o consumo e dificultar os processos de desinflação em curso", disse o ministro brasileiro, em posicionamento ao IMFC.
Segundo Durigan, a guerra no Oriente Médio eclodiu em um "momento delicado", quando a economia global começava a se estabilizar após uma sequência de perturbações de grande magnitude. Nesse contexto, disse, o FMI revisou o crescimento global para baixo, ao passo que a inflação tende a se elevar, refletindo tanto os efeitos diretos quanto indiretos do conflito com o Irã.
"A combinação de crescimento mais fraco e pressões inflacionárias ascendentes suscita preocupações quanto a dinâmicas de estagflação mundo afora e evidencia a crescente complexidade da política econômica", reforçou Durigan.
Ele alertou ainda que o novo choque produz "efeitos desiguais", penalizando sobretudo economias de baixa renda e importadoras de energia. E cobrou apoio das economias avançadas às economias vulneráveis e populações em situação de necessidade. "Manifestamos preocupação de que o choque atual possa acarretar consequências particularmente graves para os mais pobres", afirmou.
O texto assinado por Durigan representa o posicionamento de um grupo de países, conhecido como "constituency" na linguagem do fundo, e que é formado por Brasil, Cabo Verde, República Dominicana, Equador, Guiana, Haiti, Nicarágua, Panamá, Suriname, Timor-Leste e Trinidad e Tobago.
Segundo o ministro brasileiro, os riscos para as perspectivas econômicas intensificaram-se na direção negativa. "Caso a guerra no Oriente Médio se prolongue ou se expanda pela região, as disrupções nos mercados de energia tenderão a persistir, com efeitos secundários sobre outras cadeias de suprimentos relevantes, como fertilizantes e alimentos, além de impactos adversos sobre a inflação e as condições financeiras", afirmou.
Ademais, disse, uma crise de refugiados de grande escala poderá gerar "efeitos desestabilizadores" em diversas regiões. "A possibilidade de escalada adicional do conflito agrava as cicatrizes ainda presentes de choques anteriores."
Durigan mencionou ainda que, em muitos países, o espaço fiscal é limitado e os colchões de proteção são reduzidos. Por sua vez, o sistema global de comércio permanece fragilizado, e a fragmentação geoeconômica tende a se intensificar, na sua visão.
"Os esforços para implementar políticas macroeconômicas contracíclicas, quando apropriado e viável, contribuirão para mitigar os impactos da guerra", disse.
Segundo ele, o cenário econômico desafiador desencadeado pela guerra exigirá "renovado compromisso com a cooperação econômica global e o multilateralismo". Durigan disse ainda que o Brasil e demais países acolhem a recomendação do FMI para que bancos centrais avaliem corretamente o choque de preços de energia, uma vez que a distinção entre efeitos de curto e longo prazo é extremamente difícil no momento.
"A política monetária deve ser adequadamente calibrada e claramente comunicada, de modo a preservar a credibilidade, ancorar expectativas e minimizar o repasse de choques de oferta à inflação", reforçou.
Por fim, o ministro brasileiro defendeu que o FMI deve monitorar de perto os impactos sobre a segurança energética e alimentar. "O FMI deve permanecer forte, ágil e adequadamente equipado", concluiu.
Posição do Brasil
Durigan afirmou que o Brasil está em uma "posição forte" para enfrentar os choques globais de preços de energia que vieram a reboque da guerra com o Irã. "A economia brasileira encontra-se em posição robusta para lidar com os efeitos significativos do choque global nos preços de energia", disse.
Segundo ele, a inflação tem convergido para a meta, respondendo a uma postura monetária restritiva e permitindo ao Banco Central (BC) iniciar um ciclo de flexibilização no País. Durigan também reforçou, ao Comitê do FMI, que a autoridade continuará perseguindo a estabilidade de preços. O documento, geralmente, é escrito pelo ministro da Fazenda, mas também tem a participação do presidente do BC, Gabriel Galípolo.
"O Banco Central continuará a perseguir seu mandato de estabilidade de preços, assegurando, simultaneamente, a estabilidade financeira e buscando suavizar flutuações da atividade econômica e promover o pleno emprego", reforçou Durigan.
Quanto aos impactos da guerra, o ministro disse que a elevação dos preços internacionais do petróleo tende a ampliar o superávit comercial do Brasil, contribuindo para maiores exportações líquidas. No ano passado, petróleo e derivados responderam por cerca de 16% do valor total das exportações brasileiras e aproximadamente 8% das importações, resultando em saldo líquido positivo próximo a US$ 32 bilhões, conforme ele.
Durigan destaca ainda que investimentos contínuos em fontes renováveis de energia e biocombustíveis resultaram em uma matriz energética distintamente "robusta e limpa", reforçando a resiliência da economia brasileira. "Todavia, tais efeitos podem ser parcialmente compensados por restrições no acesso a fertilizantes — insumo essencial para as exportações do agronegócio brasileiro —, bem como pela redução da demanda global, elevação dos preços de importação e condições financeiras mais restritivas", admite.
Estabilidade de preços
O ministro da Fazenda reforçou "forte compromisso" com a política fiscal e a estabilidade de preços na posição do Brasil enviada ao IMFC. No documento, ele reitera as metas fiscais para este e o próximo ano e a garantia de estabilização da dívida pública brasileira até 2030.
"Estamos confiantes de que podemos conduzir nosso curso de desenvolvimento sustentável e inclusivo, apesar dos ventos contrários externos", disse Durigan.
De acordo com ele, as reformas recentes criaram um ambiente macroeconômico resiliente no País. Por outro lado, o "forte compromisso do Brasil com a responsabilidade fiscal e a estabilidade de preços" permite que a economia doméstica avance de forma "sustentável e inclusiva".
"Os resultados fiscais dos últimos três anos e as projeções para 2026 refletem nossa firme determinação em promover uma consolidação fiscal favorável ao crescimento", afirma.
O ministro brasileiro reiterou as metas fiscais de 2026, de um superávit primário de 0,25% do PIB neste ano e de 0,50% no próximo. Esse resultado deve se expandir para 1% em 2028 e 1,25% em 2029, levando à estabilização da dívida pública em 2030, conforme Durigan. Tais metas foram confirmadas na quarta-feira, 15, durante a apresentação do Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) de 2027, que estabelece as regras para a elaboração do Orçamento do primeiro ano do próximo mandato presidencial.
Durigan afirmou ainda que o ajuste fiscal gradual implementado nos últimos anos combinou medidas de alta qualidade no lado das receitas com revisões e racionalização de despesas. "Isso é consistente com nosso esforço em utilizar a política fiscal de forma responsável como ferramenta para apoiar o crescimento e a estabilidade macroeconômica, bem como para promover a justiça social", disse.
A fala do ministro brasileiro ocorre em meio à piora das projeções fiscais do FMI para o Brasil na tradicional atualização que realiza nos seus encontros em Washington. O fundo não vê o Brasil colocando as contas no azul no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e alerta para o risco de a dívida pública como proporção do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro atingir 100% já em 2027, no primeiro ano da próxima administração.
À imprensa, na quarta-feira, Durigan disse que a metodologia do FMI impacta as projeções do fundo. Isso porque o organismo considera os títulos do Tesouro detidos pelo Banco Central (BC), que não entram nas contas do governo brasileiro, para garantir comparabilidade com os demais países. "Apesar de serem títulos públicos, não cumprem o papel de refinanciamento da dívida pública", defendeu, na ocasião.
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