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Dólar termina em queda firme com fluxo de estrangeiros; Bolsa inverte o sinal e cai

Valorização das commodities, somada a expectativa de juros locais elevados, favoreceram a moeda americana nesta quinta; Ibovespa chegou a subir, mas acompanhou mau humor do exterior

3 mar 2022 - 11h04
(atualizado às 19h45)
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O combo formado por valorização expressiva dos preços das commodities, expectativa de juros locais ainda mais elevados e possível migração de capitais que estavam alocados em ativos russos para outros países emergentes, ajudou o dólar nesta qunta-feira, 3, com a moeda fechando em queda de 1,55%, a R$ 5,0210. Já a Bolsa brasileira (B3) fechou em queda marginal de 0,01%, aos 115.165,55 pontos.

Em queda desde o início dos negócios, a moeda renovou sucessivas mínimas ao longo da tarde e, após descer até R$ 5,02, voltando a patamares anteriores à eclosão da guerra na Ucrânia.

O movimento de apreciação do real se dá em sintonia com os ganhos de divisas de exportadores de commodities frente ao dólar, como peso chileno, peso colombiano e rand sul-africano, enquanto moedas de países do leste europeu, como o florim húngaro e o zloty polonês, perdem mais de 1%. Mais uma vez, o rublo amargou o pior desempenho, com queda superior a 7% quando o mercado brasileiro fechou. O rating da Rússia foi rebaixado pelas agências de classificação de risco Moody's e Fitch.

"Esse rebaixamento do rating da Rússia provoca uma realocação de recursos, porque muitos fundos só investem em países com determinada nota de classificação. Esse dinheiro vai para outros emergentes. Isso ajuda o câmbio por aqui", diz o economista Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos. "A migração de recursos estrangeiros para cá está forte desde o começo do ano e tende a se intensificar com a Rússia saindo do tabuleiro dos emergentes", diz Nicolas Farto, especialista da Renova Invest.

Cruz, da RB, ressalta que a Rússia também foi retirada do índice MSCI de emergentes (que reflete uma carteira teórica de ações de países), o que tem potencial de direcionar entre US$ 1,2 bilhão e US$ 2 bilhões (na conta mais otimista), para o mercado brasileiro nas próximas semanas.

Além de surfar a onda de realocação de ativos da Rússia para outros emergentes, o real tende a se beneficiar pelos problemas de oferta de commodities agrícolas e metálicas em meio à guerra na Ucrânia e às severas sanções econômicas impostas aos russos. O minério de ferro, por exemplo, fechou em alta de 5,76% na China.

De um lado, preços de matérias-primas mais elevados favorecem os termos de troca brasileiros, o que tende a impulsionar a entrada de divisas via exportações. De outro, jogam ainda mais lenha nas pressões inflacionárias e, por tabela, turbinam os juros locais. Isso tende a aumentar a atratividade das operações de 'carry trade' (que exploram o diferencial de juros entre países).

Esse panorama é reforçado pela perspectiva de que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) adote uma postura gradualista no processo de política monetária dos Estados Unidos. Em audiência no Senado, o presidente do Fed, Jerome Powell, repetiu hoje que o movimento de elevação dos juros nos EUA vai ser iniciado com uma alta de 0,25 ponto porcentual no encontro de política monetária deste mês.

"A alta das commodities impacta negativamente as projeções de inflação e isso pode exigir um movimento mais acentuado de alta de juros no Brasil, mesmo com o dólar em queda", afirma Farto, da Renova Invest. "Com fertilizantes em alta pressionando a produção agrícola e petróleo subindo, a inflação tende a ser mais alta. Temos previsão de 6% desde o começo do ano. Talvez o BC não encerre o ciclo de aperto com Selic em 12,25%", diz Cruz da RB Investimentos.

O forte ingresso de investidores externos em fevereiro também é atestado pela redução das posições vendidas de bancos no câmbio à vista, de US$ 20,219 bilhões em janeiro para US$ 14,581 bilhões no mês passado. Operadores relatam que o fluxo de capital externo induz a um movimento redução de posições defensivas no mercado futuro, o que alimenta uma dinâmica favorável ao real.

Bolsa

Mesmo com a cautela vista no exterior nesta quinta-feira, o Ibovespa parecia que conseguiria emendar o terceiro ganho, refletindo a correlação do índice brasileiro com matérias-primas como petróleo e minério de ferro, no momento em que outra gigante das commodities, a Rússia, deixa de ser opção para os investidores globais.

No fechamento, no entanto, acompanhando a piora vista em Nova York, o índice brasileiro caiu. Em Wall Street, o Dow Jones fechou em baixa de 0,29%, em 33.794,66 pontos, o S&P 500 recuou 0,53%, a 4.363,49 pontos, e o Nasdaq teve queda de 1,56%. Na semana e no mês, o Ibovespa sobe 1,79%, colocando os ganhos do ano a 9,87%.

De ontem para hoje, ante poucas mudanças no quadro geopolítico, os mercados sustentaram grau maior de cautela, observa em nota a Guide Investimentos, "com investidores avaliando os impactos inflacionários dos ataques da Rússia à Ucrânia enquanto aguardam nova conversa" entre as delegações dos dois países, na Belarus. "A expectativa ainda é grande quanto ao tipo de estratégia que será utilizada no cerco à Kiev e seu impacto humanitário", aponta também em nota a equipe da Terra Investimentos.

O recuo do petróleo no exterior, ainda acima e US$ 110, também pesou nas ações de maior peso por aqui: Petrobras ON e PN fecharam a sessão em baixa de 0,80% e 1,24%, respectivamente, ainda acumulando forte ganho, na casa de 20% a 21%, no ano. Por sua vez, o avanço de Vale ON chega a quase 28% em 2022, mas hoje a ação fechou perto da estabilidade, em alta de 0,05%. Assim como ontem, as siderúrgicas voltaram a avançar bem nesta quinta-feira, com destaque para CSN, em alta de 5,01%, e Gerdau, de 4,43%.

Nesta quinta-feira, destaque para Bradesco PN, em alta de 1,94%, enquanto Itaú PN, que chegou a cair 1,32% na mínima perto do fechamento, conseguiu leve alta de 0,08%, em dia marcado por relatos de problemas no aplicativo utilizado por clientes. /ANTONIO PEREZ, LUÍS EDUARDO LEAL E MAIARA SANTIAGO

Estadão
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