De skatista a empresário: Bob Burnquist lidera negócios ligados a cannabis e inovação
Em entrevista Estadão na Rio Innovation Week, o atleta fala sobre suas empresas, a resistência do mercado à cannabis e a importância do jogo Tony Hawk's Pro Skater para sua carreira
A lenda do skate brasileiro Bob Burnquist tem buscado novas manobras no mundo dos negócios. O atleta é investidor em empresas de diversos segmentos, como esporte, tecnologia e medicamentos.
No ano em que completa 50 anos de idade, Burnquist participou da Rio Innovation Week, onde falou sobre como usa a inteligência artificial (IA) para ter mais tempo para andar de skate, sobre os desafios de ter uma empresa de saúde e cannabis medicinal, chamada Farmaleaf, e sua entrada no mundo dos negócios.
A história de Burnquist é inseparável da tecnologia. No começo dos anos 2000, o skatista foi um dos primeiros personagens brasileiros no mundo dos games a integrar o elenco da franquia de videogames Tony Hawk's Pro Skater, para o primeiro PlayStation. Ele conta que essa projeção global ajudou tanto a sua carreira quanto o esporte como um todo, uma vez que o jogo se tornou um sucesso mundial.
A seguir, leia os principais trechos da entrevista.
Em 2026, o sr. completa 50 anos de idade e já tem mais de 30 anos de carreira. Sua trajetória no skate o ajudou a ter uma visão de negócios no esporte?
Administro o risco a minha vida inteira e vou continuar evoluindo, filmando e aprendendo. Mas de repente posso diminuir um pouco as competições mais intensas, ou a competição na Mega Rampa, que hoje em dia não tem mais tantas assim. Escolho bem as minhas fases de vida. Hoje eu me sinto mais livre para poder evoluir e aprender novas manobras porque a minha agenda está mais preparada para isso. Para mim, não mudou nada (no esporte). É a mesma intensidade, a mesma vontade. Só tenho mais tempo para o skate. Com a inteligência artificial, consigo construir esse mais tempo. Sou bastante curioso e determinado em alguns projetos. Então, lógico que só andar de skate não paga as minhas contas, apesar de eu ter os patrocínios — tenho o instituto, a parceria com o Banco do Brasil, trabalho nesse projeto dos XGames e o empreendimento da Farmaleaf, uma empresa de saúde. São coisas que eu vejo como se fossem outra manobra de skate, mas fazer acontecer é diferente.
O skate virou esporte olímpico. Como vê as marcas aproveitando esse momento e como o sr. tem atuado diante desse reconhecimento mundial do skate?
Quando pensamos na competição olímpica, ela não tinha muito a ver com a gente. Lá é um mundo diferente. A nossa cultura vive completamente fora disso. Só que hoje a Olimpíada faz parte dessa cultura, e ela amplificou o volume. Hoje a exposição é maior, as marcas de fora também olham para o skate, e temos novos nomes com bastante exposição. Muita coisa mudou. Hoje, cada skatista é um canal, já tem um grupo que o acompanha. Então, o atleta tem de trabalhar essas marcas e ser ponte de um conteúdo sobre o que você faz para alcançar as pessoas. Então, as oportunidades aparecem de formas diferentes. É preciso saber administrar tudo isso.
O sr. acha que os jogos de videogame, como o 'Tony Hawk's Pro Skater', ajudaram o skate e a sua carreira a ganhar reconhecimento global?
Sim, absolutamente. A franquia do 'Tony Hawk's Pro Skater' é uma das maiores de todas. Fui um personagem dentro dessa franquia como o primeiro brasileiro. Isso foi no começo da minha carreira, quando eu tinha 18 anos, o Hawk me chamou. O Brasil tinha um personagem nos games, além do Street Fighter, para poder interagir, jogar em casa. Isso me trouxe para a sala das pessoas, com pais jogando com os filhos. Até hoje, eu chego, e a galera fala: 'Poxa, eu joguei muito com seu personagem'. Isso me ajudou incrivelmente, além de você ganhar uma medalha de ouro no skate.
Falando de negócios, os seus investimentos vão de cannabis, web3, eventos e kits de skate. Há uma tese única por trás deles ou foram oportunidades que surgiram?
Sempre tem uma tese, e ela está em volta do que eu faço. Elas têm de combinar uma com a outra. A empresa de cannabis é a mesma que evoluiu para essa empresa de dados de saúde. A cannabis em si tinha um gargalo na escala, há uma área cinza na regulamentação. Então, percebi rápido que eu não tinha o impacto e eu não conseguia escalar, e já tinha captado com investidores. Tive de parar, como em qualquer manobra no skate, e entender o novo momento. O negócio caminhou para isso, para ser uma inteligência naturopata que não deixa de incentivar o estudo da cannabis, mas também para outras pontas, como física quântica, luz, frequências, tudo baseado na ciência. É uma questão de evolução de cada coisa. Hoje como também sou sócio do novo clube da liga XGames, que ajudo a administrar, tenho de trabalhar em tudo isso. Como general manager, isso me traz todas essas oportunidades. Eu consigo trazer a saúde, a web3 e diferentes áreas para que eu avance por esses novos caminhos. Eles têm de ter pelo menos uma coerência.
O sr. sempre lutou pela legalização da cannabis medicinal. Como vê os avanços que tivemos no Brasil em relação a isso e o que ainda falta melhorar?
Precisamos cada vez mais de informação, de estudos que possam abrir a mente (do mercado) e quebrar paradigmas. O mercado tem um protecionismo, que uma coisa que acontece. Vemos hoje no mundo as taxações por questões que nem fazem sentido, mas que fazem parte da limitação e do protecionismo. É preciso navegar em torno disso. É importante trazer a verdade, a realidade, sempre baseado na ciência, na pesquisa e até na religião. Acho que a religião e a ciência têm de andar juntas, senão não faz muito sentido.
Como usa a IA nas empresas e no dia a dia?
Uso muito. Por exemplo, gravo todas as reuniões para ter um relatório transcrito e para construir uma coerência para levar aos projetos. Uso Claude, ChatGPT, a extensão do Claude para navegador, Claude Code ou Codex, uso todas para as coisas que preciso fazer. Por exemplo, se preciso fazer um estudo forense de imposto internacional, porque tenho lá toda essa questão, uso a IA do Codex para organizar os documentos do meu computador. Peço para ele fazer um arquivo de evidência para eu poder passar pro advogado tributário. São coisas necessárias que antes eu pediria a uma equipe fazer e agora faço dentro de um projeto do Claude com o contexto e com tudo que eu preciso. Comecei a montar tudo de uma maneira que facilite o seu dia a dia. Também uso às vezes a extensão do Claude para fazer alguma pesquisa, testar um site que estou fazendo. Ela me dá alguns retornos, e aí uso a extensão do Claude para alimentar o (aplicativo de organização de tarefas) Trello para a equipe dar sequência. O que eles me mandam eu também passo por ali (pelo Claude) para entender questões técnicas porque não sou desenvolvedor, mas com a IA eu consigo, como CEO, ter um entendimento maior para poder ter uma visão mais educada sobre o que fazer.
Quais são os próximos passos no mundo dos negócios e a sua expectativa para o skate como esporte global?
Evoluir. Temos o clube que eu fundei com os XGames e recebeu investimento de Dubai, compraram o clube. Agora estamos fazendo a transição e preparando os planos para os próximos anos do clube do Xgames, que é o clube São Paulo. Vamos trabalhar nisso. Tem a Farmaleaf, a minha empresa de saúde e memória, e também estou trabalhando para fazer um go to marketing dela nos próximos três meses. Estou na parte de validação de cibersegurança e questões jurídicas. Faço 50 anos este ano e vou tentar fazer um evento de aniversário nas minhas rampas. Tem também o evento de um grupo canadense chamado JacaLope, que tem várias atividades, que vamos tentar trazer para o Brasil. Já estamos no mundo todo. E sempre tentando estar em grandes eventos onde eu possa colocar a minha marca de saúde.
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