Cufa leva expertise de empreendedorismo nas favelas brasileiras à França
As realidades são distintas, mas os desafios de lançar um negócio nas periferias do Rio de Janeiro, Paris ou Maputo são semelhantes. Presente em 70 países e com quase 30 anos de história, a Central Única de Favelas (Cufa) amplia as parcerias entre empreendedores sociais para além das fronteiras.
Na Europa, a principal via de contato entre startups, investidores e instituições dos dois lados do Atlântico é a França, onde a Cufa tem um escritório desde 2024. Nesta semana, um fórum com a participação dos maiores vetores de promoção de negócios dos dois países, a Apex-Brasil e a Bpifrance, deu um novo passo nessa aproximação, na embaixada brasileira em Paris.
"A gente não tem nada contra filantropia, mas o que a gente quer fazer é business com as empresas, fazer parcerias duradouras", disse Karina Tavares, fundadora da Cufa França. "A gente tem que achar o CEO que tem uma vontade genuína de trabalhar com o social ou de mudar a vida das pessoas, dar rede, porque talento tem muito - o que falta é oportunidade."
O empreendedor Michael Carvalho veio do Amapá trazer o exemplo da startup Mazodan, que utiliza sedimentos do rio Amazonas e rejeitos da mineração para fabricar materiais de construção civil. O seu projeto foi o vencedor da Expo Favela 2023, evento que impulsiona todos os anos iniciativas de comunidades por todo o Brasil.
Soluções locais para problemas comuns
"Essa visibilidade nos deu condições de apresentar a nossa proposta como algo viável para a sociedade, e a gente conseguiu fechar convênios para desenvolver a nossa tecnologia, afinal existe toda uma burocracia para você colocar novos produtos no mercado", conta. "Hoje estamos montando o pátio de fabricação do nosso produto. Estamos deixando de ser laboratório e agora vamos virar fábrica", comemora.
O município de Santana, no Amapá, agora abriga um polo de inovação com 50 startups, a maioria focada em projetos de sustentabilidade.
O sucesso da Cufa em apoiar iniciativas como essa e a sua expansão para outros países é caso de estudo da prestigiosa escola de negócios francesa INSEAD. O professor de estratégia da instituição, Felipe Monteiro, mostrou como as ações nas favelas brasileiras conseguiram ganhar impacto social em escala internacional.
"São inovações que não vão requerer bilhões de investimentos em pesquisa e desenvolvimento, mas resolvem problemas concretos e as pessoas têm oportunidades de negócios a partir destas soluções que estão lá", constata. "O que é semelhante e sensacional é que existe, em comunidades tanto no Brasil quanto na França, um nível de empreendedorismo e inovação imensos e pouco explorados. O desafio não é único da Cufa: é o desafio típico de qualquer organização que tenta se internacionalizar", diz Monteiro.
Romper barreiras de investidores
Uma das pontes construídas em Paris foi o contato entre os empreendedores e o fundo de investimento Daphni, especializado em impulsionar startups. Cristian Pinto, hoje do time de investidores de risco da empresa, relatou as dificuldades que ele próprio teve para abrir portas nas grandes companhias, por vir das periferias.
"O venture capital historicamente foi concentrado em certos perfis de empreendedores porque é um capital de confiança em que você está apostando em pessoas muito no início da jornada. A tendência inicial é você confiar nos padrões que você já conhece", afirma. "Se todos os investidores têm o mesmo background, eles vão investir em pessoas que têm background parecido. Agora o foco é como a gente consegue investir em empreendedores criativos, que trazem o ângulo da diversidade, mas não como uma caridade, mas sim como uma maneira diferente de ver a sociedade e explorar oportunidades enormes em que, historicamente, a gente não investiu."
Quem também está de olho nas inovações das favelas brasileiras é a fabricante Heineken, que acelerou dez projetos no universo de bebidas produzidas em comunidades do Brasil. Desses, quatro foram selecionados para ganhar um impulso.
"A gente nem está falando de dinheiro, necessariamente. A gente está falando, por exemplo, de um microempreendedor, que compra um envase por R$ 4, conseguir que saia por centavos. De como conseguimos garantir esse preço que a Heineken tem, por comprar em escala, para o empreendedor e poder baratear os custos dele", relata Cléo Santana, líder da Escola de Negócios da Favela e CEO do Data Favela. "É isso que a gente está olhando, quando a gente fala dessa potência entre grandes empresas e pequenas empresas, como elas podem se potencializar."