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Crescimento mais forte garante recuperação no curto prazo

Pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV) participaram de seminário virtual realizado em parceria com o 'Estadão'

17 jun 2021 14h35
| atualizado às 16h55
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O crescimento econômico mais forte do que o inicialmente esperado no início do ano poderá levar a economia brasileira a recuperar as perdas causadas pela covid-19 mais rapidamente, mas, sem ações adicionais do governo federal, a tendência é a economia brasileira voltar ao padrão de avanço lento no médio prazo, segundo economistas do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV) que participaram de um seminário virtual nesta quinta-feira, 17, realizado pela instituição em parceria com o Estadão.

Foto: marchmeena29/iStock

Samuel Pessôa, também sócio-diretor do Julius Baer Family Office, defendeu reformas que levem ao equilíbrio fiscal de longo prazo. E o ex-ministro da Fazenda Nelson Barbosa sugeriu que o governo lance um "programa de reconstrução", em paralelo às reformas.

Adversários contumazes no debate público sobre política econômica, Pessôa e Barbosa concordaram que está em curso uma "recuperação cíclica" da economia. Ou seja, após o tombo que a pandemia causou na economia na primeira metade de 2020, a simples reabertura da maioria das atividades ou a flexibilização das medidas de restrição ao contato social já basta para crescer.

Com o avanço da vacinação, Pessôa acredita que, no médio prazo, a economia global voltará "relativamente rápido" para a tendência de crescimento de antes da pandemia. Na esteira desse movimento, é possível que a economia brasileira cresça 5% este ano e, depois, avance a 3% ao ano em 2022 e 2023, quando o Brasil poderia até voltar ao "pleno emprego". Isso porque a "dramaticidade" da crise passará quando o controle da pandemia permitir que o setor de serviços volte ao normal, o que poderá ocorrer no início do ano que vem, segundo Pessôa.

"No médio prazo, essa crise não deixa marcas mais profundas no sistema econômicos", afirmou Pessôa, no seminário online "Os caminhos para o crescimento", organizado em parceria com o Estadão, ponderando que a principal "marca de longo prazo" da pandemia se dará em 20 ou 30 anos, por causa de efeitos do déficit da educação nestes dois anos.

O problema vem depois

Passada a recuperação cíclica, o Brasil tende a voltar ao padrão de baixo crescimento econômico, a "mediocridade de sempre", disse Pessôa, por causa de problemas conhecidos, como a baixa produtividade, o desequilíbrio fiscal estrutural e o fim do "bônus demográfico".

"Teremos mais dificuldade de gerar mais crescimento nas próximas décadas", afirmou o pesquisador do Ibre/FGV, completando que, para aumentar a capacidade de crescimento é preciso "melhorar as instituições", o que passa pelas reformas, para melhorar o ambiente tributário e regulatório.

A jornalista Adriana Fernandes mediou o debate entre Fernando Veloso, Nelson Barbosa e Samuel Pessôa.
A jornalista Adriana Fernandes mediou o debate entre Fernando Veloso, Nelson Barbosa e Samuel Pessôa.
Foto: Reprodução / Estadão

Pessôa vê o desequilíbrio "estrutural" entre receitas e despesas do governo e a baixa produtividade da economia - resultado de ambientes tributário e regulatório pouco amigáveis aos negócios - como os dois principais gargalos de longo prazo do País. Esses entraves impedirão crescimento econômico mais acelerado após a recuperação cíclica.

"O saldo entre receitas e despesas, já controlando pelo ciclo econômico, em condições normais, tem um buraco de uns 3% do PIB. O problema é que não tem acordo político hoje na direção de solucionar isso", afirmou Pessôa, pouco otimista com o avanço da agenda de reformas.

Embora defenda a agenda de reformas, com destaque para a administrativa e a tributária, o ex-ministro Barbosa vê mais efeitos de longo prazo da crise atual sobre a economia. Como a recuperação cíclica atual é desigual e concentrada em poucos setores, que geram poucos empregos, ressaltou o economista. Sem uma ação do governo, a tendência é esse padrão continuar. Por isso, o ex-ministro defendeu um "programa de reconstrução", coordenado pelo governo.

"Por causa dessa desigualdade e da magnitude da crise, vários países estão adotando políticas de reconstrução. Estamos vendo isso nos Estados Unidos, com o governo Biden mais ativo na recuperação econômica", afirmou Barbosa, durante o seminário.

Segundo Barbosa, as políticas de transferência de renda, como o auxílio emergencial, são importantes para a fase mais aguda da crise, ajudaram a evitar uma retração econômica maior em 2020 e o fato de o governo decidir retomá-las este ano é positivo, mas são insuficientes para apagar os impactos permanentes da pandemia na economia.

"O auxílio, sozinho, não gera maior capacidade de crescimento. É preciso aumentar produtividade e investimento", afirmou Barbosa.

O ex-ministro defendeu também as reformas, especialmente a administrativa e a tributária, mas esse trabalho deve ser feito paralelamente a um programa de reconstrução, com participação ativa do governo, pelo menos coordenando as ações. Sozinhas, as reformas são insuficientes para impulsionar o crescimento, como ocorreu entre 2017 e 2019, quando algumas reformas do governo Michel Temer não garantiram crescimento mais acelerado.

"É preciso ter plano de investimento, coordenado por parte do governo. O governo não precisa fazer o investimento, mas coordenar", afirmou Barbosa, dando o setor elétrico como exemplo.

Em oposição à visão de Pessôa sobre o desequilíbrio das contas do governo, o ex-ministro acha possível fazer um programa de reconstrução, mesmo diante da restrição fiscal, desde que gastos públicos para esse fim sejam voltados para projetos e iniciativas capazes de aumentar a produtividade e a capacidade de crescimento econômico.

"Neste momento, vale fazer reconstrução mesmo com emissão de dívida", disse Barbosa, completando que há algum "espaço fiscal", pois, quando foi necessário, o governo gastou mais com o auxílio emergencial ou mesmo com investimentos para fins militares. "A possibilidade do Estado brasileiro não é infinita, mas também não é zero", completou o ex-ministro.

Apesar das divergências, Pessôa e Barbosa concordaram em outros pontos, além do diagnóstico sobre a recuperação cíclica. Ambos defenderam a ação ao Banco Central (BC) na elevação dos juros, para conter a inflação. Também traçaram um cenário pessimista em relação a agenda de reformas e ao cenário fiscal de médio prazo, marcado pelas eleições gerais de 2022.

Para Pessôa, falta liderança do Executivo federal na agenda de reformas porque "o governo Bolsonaro não governa". E quando o Executivo não lidera a agenda de reformas econômicas, o Legislativo ocupa o espaço, "da pior maneira possível", ou seja, defendendo variados "grupos de pressão".

"A MP (Medida Provisória) da (privatização da) Eletrobrás (cuja conversão em lei está em discussão no Congresso) é o melhor exemplo. Seria melhor que não fosse aprovada. É um festival de grupo de pressão", afirmou

Fernando Veloso, pesquisador do Ibre/FGV que também participou do seminário online, acredita que o problema se espalha para a agenda de reformas como um todo. Para ele, há um alto risco associado à aprovação de uma reforma tributária ruim. "Não ficou claro porque (governo e Congresso) abriram mão da reforma que estava sendo discutida (no Congresso)", afirmou Veloso.

Por causa das eleições, 2022 será um ano de "muito ruído político", disse Barbosa, lembrando que, em anos eleitorais, tradicionalmente, os "investidores param para esperar". "Em 2022, temos mais um risco: um dos lados disse que não aceita outro resultado, a não ser a vitória", afirmou o economista, rejeitando a ideia de que há polarização de extremos no debate eleitoral brasileiro. "Não acho que haja polarização. Tem um lado fora da casinha e tem o resto", afirmou Barbosa, sem citar nomes.

Estadão
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