Crescimento de início de ano é boa notícia, mas não permite muito otimismo à frente
Estímulos de curto prazo do governo ajudam a sustentar o PIB, mas limitam o espaço para corte de juros; é provável que a desaceleração se espalhe pela economia
O crescimento do País no primeiro trimestre é boa notícia. A alta indica retomada disseminada, com bons desempenhos da indústria extrativa, da agropecuária e dos serviços. Mas há uma preocupação. O número reflete uma economia desequilibrada, o que abre espaço para uma desaceleração à frente.
Com o resultado do começo do ano, o crescimento em 2026 pode confirmar a mediana das projeções de mercado e se aproximar de 1,9%. Mais importante, mostra uma economia que continua resistente a choques. Desde a pandemia, o ambiente tem sido marcado por tensões climáticas e geopolíticas. Neste momento, o mundo assiste a uma alta importante dos preços de petróleo.
Mesmo assim, a expansão anual média entre 2022 e 2025 foi de 3,0%, um resultado acima da média próxima a 2,5% dos últimos 40 anos. Este desempenho pode ser explicado por razões estruturais e conjunturais. Além das reformas feitas ao longo dos últimos dez anos, o setor exportador passou a ter uma participação maior na estrutura econômica do país e o mercado de trabalho assiste a transformações importantes, sustentando níveis historicamente baixos de desemprego. Em particular, o fato de o Brasil ter se tornado produtor de petróleo tem sido importante diante do atual choque global de energia.
Conjunturalmente, o governo se esforça para estimular a economia em um ano eleitoral, anunciando várias medidas fiscais e parafiscais. Talvez este seja o principal motivo por trás da reaceleração econômica dos últimos meses.
A preocupação com o resultado vem pelo fato de ele indicar maiores dificuldades para o Banco Central brasileiro controlar a inflação e, com isso, reduzir a taxa de juros. Esta tem sido a história dos últimos quatro anos.
Depois do forte aumento do gasto público em 2023, a economia viveu quatro desequilíbrios tradicionais em 2024. O desemprego recuou, as importações de bens e serviços voltaram a ficar pressionadas e a inflação, que mostrava queda depois do choque da pandemia, apresentou tendência de alta. Com a aceleração da atividade, famílias, empresas e governo se endividaram.
Neste contexto, o Brasil vive uma novidade institucional importante, que é a independência formal de seu Banco Central. A despeito de toda a pressão política, a taxa de juros voltou para seu patamar mais alto em 20 anos, procurando colocar o crescimento do país mais próximo à sua capacidade e reduzir os diversos desequilíbrios. O aumento da taxa de juros, no entanto, trouxe forte tensão financeira em 2025, com aumento da inadimplência e piora das contas públicas.
O resultado é um crescimento desequilibrado. Embora os números agregados sejam satisfatórios, sua composição mostra realidades diferentes. Enquanto os setores e regiões ligados às exportações e à renda apresentam bom desempenho, os setores que dependem de vendas financiadas, tradicionalmente a construção civil e segmentos da indústria de transformação, sentem mais o ajuste.
Por este aspecto, os estímulos de curto prazo do governo ajudam a sustentar o crescimento, mas atuam contra o mandato legal do Banco Central e limitam o espaço para corte de juros. Com juros mais elevados por mais tempo, é provável que a desaceleração, hoje concentrada em alguns setores, se espalhe pela economia e impacte o mercado de trabalho e as condições de renda.
Apesar de um bom início de ano, portanto, o crescimento está desequilibrado e não permite muito otimismo à frente.
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