Copom poderia agregar membro para ser 'advogado do diabo', diz ex-diretor do Banco Central
Para Tony Volpon, ex-diretor de assuntos internacionais de 2015 a 2017, Copom é um 'mundinho fechado' e pode usar recursos para trazer diretoria nova, mas não necessariamente com direito a voto
BRASÍLIA - O aumento do número de integrantes pode ser um aperfeiçoamento para o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, que completou 30 anos no sábado, 20, na visão do ex-diretor de assuntos internacionais de 2015 a 2017, Tony Volpon.
"Alguém que esteja lá para criticar, não para concordar. Que faça a crítica, a melhor crítica possível", avaliou em entrevista ao Estadão/Broadcast.
De acordo com o ex-diretor, o Copom é um "mundinho fechado" e pode usar recursos para trazer uma diretoria nova, que participe das discussões, como uma espécie de "advogado do diabo", mas não necessariamente com direito a voto. A ideia, segundo ele, pode ganhar força se o BC conseguir aprovar no Congresso sua autonomia financeira. "Seria um dinheiro bem gasto", considerou.
Volpon citou os momentos de crise como cruciais para o Copom em sua história e destacou a evolução da comunicação e da transparência do grupo ao longo dos anos.
Leia abaixo os principais trechos da entrevista:
Que importância tem o Copom para o Banco Central e para a economia doméstica?
O Copom formalizou um processo de decisão de política monetária, mais diretamente na política de juros e com um processo mais transparente. Não foi do dia para a noite, mas, ao longo do tempo, conseguiu acompanhar, por exemplo, as várias inovações na questão da comunicação, que hoje em dia parecem meio óbvias. Tem até um debate mais intenso hoje porque agora temos um presidente (Kevin Warsh) no Fed (Federal Reserve, o BC dos EUA) que não acredita tanto nessa questão de transparência e comunicação. Obviamente, eu acho que teve alguns erros no uso da comunicação nesses 30 anos, mas, no geral, acho que foi algo positivo.
Trata-se de um comitê em que as pessoas sabem quem está lá. Isso é também uma questão de credibilidade: são pessoas capacitadas tomando essas decisões. E tem um processo, com uma certa transparência. Não é transparência total. Não é que a reunião seja transmitida ao vivo pelo YouTube, mas é um nível de transparência, e acho que tudo isso fortalece a política monetária.
Eu sou velho o suficiente para lembrar uma época nos Estados Unidos, por exemplo, em que nem comunicado existia. O Fomc (o Copom americano) se reunia, tomava uma decisão e mandava essa decisão para a mesa de operações em Nova York. Os operadores do Fed de Nova York entravam no mercado comprando e vendendo títulos, e os economistas tinham que olhar para essa atuação e inferir qual foi a decisão. "Estão comprando títulos, então isso implica uma queda de juros. Não, estão vendendo títulos, então aumentaram os juros." Caminhamos muito nestes últimos 30, 40 anos.
E qual o momento que o senhor considera mais importante para o Copom nesses 30 anos?
Foi durante as crises. Então, remonta à crise de 2002, com o Armínio (Fraga, ex-presidente do BC), que foi muito aguda, pouco antes da primeira eleição de Lula e que, se me lembro bem, teve dois choques de juros. Houve então um momento que achei bastante importante: eles subiram os juros e depois o Armínio ou o Copom disse: "Olha, não tem mais o que fazer na questão dos juros, é uma questão de confiança. Entendeu? Continuar subindo os juros não vai resolver a questão. Então vamos parar aqui". Foi uma decisão corajosa. Tudo acabou funcionando, obviamente, de uma certa maneira, porque o Lula foi, naquele momento, bastante ortodoxo, com a indicação de Palocci (ministro da Fazenda, Antonio Palocci).
Pode-se lembrar também de 2008 com o Meirelles (Henrique Meirelles, ex-presidente do BC), quando eles inicialmente subiram os juros, logo no primeiro momento da crise financeira internacional. Aí rapidamente reduziram os juros depois. Terem trocado de sinal foi a decisão correta, dada a profundidade da crise global. Essa é também a habilidade de reconhecer um erro. E aí agir rapidamente. Acho que também foi bem importante.
Negativamente, eu diria o uso de forward guidance durante a covid. Aquilo foi um erro, que acabou segurando o BC em algumas reuniões. Eles perceberam que não era transitória, mas desfazer a sinalização demorou algumas reuniões. Nós poderíamos ter começado a aumentar os juros mais rapidamente, o que teria sido melhor. De repente, a gente não precisaria ter subido tanto os juros (posteriormente). Acho que eles tiveram um debate lá dentro sobre se a decisão afetaria a credibilidade da instituição. Então, meio que deram uma segurada, mas eu acho que o guidance foi uma decisão errada. Foi difícil corrigir o erro, algo que Meirelles, na crise dele, conseguiu fazer rapidamente.
Houve alguma coisa inusitada, engraçada, inesperada que tenha acontecido durante uma participação sua em um Copom?
Muitas coisas estão sob sigilo. Eu só lembro que a gente tinha um pequeno buffet no dia do Copom: pão de queijo, um monte de coisas, mas a gente pagava do nosso próprio bolso. A gente não fazia o contribuinte pagar.
O senhor teria alguma recomendação a fazer para o Copom institucionalmente?
Seria bom — especialmente se for aprovada a autonomia financeira do BC, então daria para gastar um pouquinho a mais, um dinheiro bem gasto — ressuscitar as diretorias especiais. Seria interessante trazer um acadêmico para o Copom por um ano. Algum especialista. Até porque agora os mandatos (da diretoria) são fixos e relativamente longos. Poderia ser um acadêmico ou alguém de mercado, que todo ano chegasse lá, ficasse um ano, para trazer uma perspectiva diferente. Acho que seria bom para o debate. O Bank of England aceita, por exemplo, trazer não-cidadãos. Esse diretor não teria um voto, mas estaria ali para apresentar o seu ponto de vista à discussão. Ele estaria lá exatamente para questionar. Estando lá dentro, uma coisa que eu percebi é o seguinte: é um mundinho fechado. Sua missão seria exatamente a de questionar o group thinking, com a função de ser meio que o crítico.
Um advogado do diabo...
É, exatamente. Alguém que esteja lá para criticar, não para concordar. Que faça a crítica, a melhor crítica possível.
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