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Com medo de 'corralito', restrição cambial na Argentina é tida como remédio necessário

Para especialistas, queimar as reservas para segurar a fuga de capitais não estava resolvendo, mas efeito será o estímulo ao mercado de câmbio paralelo; volta do congelamento de dólares do governo De La Rúa não está descartada

3 set 2019
10h59
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Depois que o Banco Central da República Argentina (BCRA) anunciou restrições à compra de dólares por pessoas físicas e a remessas, por empresas, de lucros e dividendos ao exterior, comparar as medidas adotadas pelo governo de Mauricio Macri com políticas econômicas de presidentes (e crises) passados, como as kirchneristas, se tornou inevitável.

No entanto, diante do medo de um novo corralito - como ficou conhecido o congelamento de depósitos em dólares implantado em 2001, durante a presidência de Fernando De La Rúa -, os controles são classificados por analistas escutados pelo Estadão/Broadcast como um "remédio necessário".

As normas em vigor desde esta segunda-feira, 2, e até 31 de dezembro estipulam que a compra de dólares por pessoas físicas continua liberada para a quantia de até US$ 10 mil por mês. Acima desse valor, porém, haverá necessidade de autorização prévia pelo BCRA.

Empresas precisam agora de anuência da instituição para, por exemplo, comprar dólares para a "formação de ativos externos" e remeter lucros e dividendo ao exterior. Além disso, exportadoras argentinas têm um prazo máximo de cinco dias após a cobrança por vendas externas ou de 180 dias após a permissão de embarque para liquidar no mercado local somas em moeda estrangeira obtidas nessas transações. Se os produtos exportados forem commodities, o prazo após a permissão de embarque é de apenas 15 dias.

"Essas medidas, em teoria, reduzem, ao menos no curto prazo, a possibilidade de corralito", afirmou Pablo Waldman, chefe de estratégia da empresa financeira INTL FCStone na Argentina. "Mas o medo de um novo corralito começou na semana passada, está palpável e, com certeza, continua." Baseado em Buenos Aires, ele afirma que os bancos estão "cheios de gente" retirando dólares em espécie das suas contas.

Reservas e câmbio

As intervenções vêm à tona após a tentativa fracassada do BCRA de conter a disparada do dólar sobre o peso argentino com leilões frequentes de suas reservas internacionais. O movimento se acentuou após as famigeradas eleições presidenciais primárias de 11 de agosto, quando o principal candidato oposicionista, Alberto Fernández - cuja chapa tem como vice a senadora e ex-presidente Cristina Kirchner -, apareceu vitorioso com 47% dos votos, 15 pontos acima de Macri.

Em 9 de agosto, última sessão antes das prévias eleitorais, a posição das reservas do BCRA era de US$ 66,3 bilhões. Na sexta-feira, 30 de agosto, as reservas somavam US$ 54,1 bilhões, encolhendo pouco mais de US$ 12 bilhões em três semanas. Enquanto isso, no acumulado de agosto, o avanço da moeda americana sobre a divisa argentina foi de cerca de 35%, levando o câmbio para perto de 60 pesos por dólar.

Simone Pasianotto, economista-chefe da Reag Investimentos, diz não ter "a menor dúvida" de que as restrições anunciadas mais recentemente são fruto de "pressão" do Fundo Monetário Internacional (FMI) para Macri mostrar que tem "controle das rédeas da política monetária", como uma condição do organismo para executar o desembolso de US$ 5,4 bilhões programado para setembro sob o acordo do empréstimo ao governo argentino.

Em comunicados, o Fundo apenas reafirma o seu apoio à Casa Rosada, sem esclarecer se impôs ou não senões para seguir desembolsando o dinheiro de resgate.

A previsão, de todo modo, é de mais volatilidade cambial nesta terça-feira, 3, quando se retomam os negócios em Wall Street após o feriado do Dia do Trabalho, que ontem enxugou a liquidez globalmente e foi responsável pela virtual ausência de operações nas principais plataformas do mercado argentino.

"(Queimar reservas internacionais em leilões) não estava resolvendo a questão", afirma Patricia Krause, economista da Coface para a América Latina. "Não teve outro remédio para tentar conter a forte depreciação do câmbio."

Ela reconhece que não só as medidas se aproximam da linha kirchnerista como os seus efeitos colaterais devem fazê-lo, também. "Fica difícil mensurar até que ponto o pacote consegue conter o câmbio oficial. Acaba gerando esse mercado paralelo, do 'dólar blue', presente durante todo o governo de Cristina Kirchner."

Nem Simone, da Reag, nem Patricia, da Coface, descartam 100% a volta do corralito.

Um operador local afirmou ao Estadão/Broadcast que "o tema agora é ver de quanto é o diferencial que se forma entre a cotação oficial e os canais alternativos". Segundo ele, no começo da tarde de segunda-feira, com o dólar mayorista (usado pelos grandes usuários de moeda) em torno de 57,50 pesos e a cotação obtida por uma operação cruzada envolvendo a compra do bônus argentino mais líquido, o câmbio implícito estava entre 62 e 63 pesos argentinos, ao redor de cinco pesos acima da cotação oficial.

Estadão
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