Carreira na internet é instável, mas jovem não quer longas jornadas, diz especialista em geração Z
Mari Galindo se apresenta no São Paulo Innovation Week para discutir o futuro dos jovens no mercado de trabalho e como a criação de conteúdo virou uma carreira
Após passagens no mercado corporativo em empresas como Embraer e contribuições para Google, Meta e Coca-Cola, a especialista em inovação e geração Z Mari Galindo comanda a Nice House, que conecta jovens influenciadores a marcas. Para ela, o principal atributo que uma organização precisa ter para a gen Z é estabilidade, já que a carreira digital não proporciona esse requisito.
"Ainda não temos o primeiro influenciador digital aposentado para entender o ciclo completo da carreira (na internet). Então, isso gera desejo, mas também instabilidade. O contraponto é que a geração Z começa a olhar para carreiras não digitais", afirma.
Ela estima que profissões mais manuais e analógicas devem reter os profissionais mais jovens nos próximos anos. No São Paulo Innovation Week, a especialista traz detalhes de como funciona a carreira na creator economy, o que deve mudar no curto prazo e como as futuras gerações podem se preparar para trabalhar com a internet.
O festival será realizado pelo Estadão, em parceria com a Base Eventos, entre 13 e 15 de maio, no Pacaembu e na Faap. Assinantes podem comprar ingressos com desconto. para adquirir o passaporte para os três dias de evento. Não assinantes podem acessar este link.
Confira trechos da entrevista:
Você atua diretamente com os jovens. Nos últimos anos, a impressão é que a geração Z parecia ser o grande problema por trás das empresas. Hoje, o que as organizações e os empregadores ainda não entenderam sobre esse grupo?
Um dos principais argumentos do porquê de as empresas ainda patinarem em relação aos jovens é que a geração Z talvez seja tratada como causa, não como consequência. Os principais hábitos que geram incômodo nas outras gerações não foram necessariamente criados por ela.
A geração Z que está no celular ali na hora do almoço. Mas não foi ela que criou o celular, não criou a internet, não digitalizou praticamente todos os serviços e centralizou a nossa vida dentro de um smartphone.
Então, essa é uma geração que cresce nesse novo mundo regido pela internet, pela conectividade, e, obviamente, vai destravar comportamentos diferentes das gerações anteriores. Os millennials conseguem comparar o mundo analógico com o digital porque acompanharam essa mudança. A geração Z já nasce hiperdigitalizada.
A geração Z representa uma mudança de eixo do mundo. É a primeira geração a ser mais influenciada pela Ásia do que pelos Estados Unidos. É uma geração em que o tamanho do mundo dentro do quarto é maior do que a rua onde se mora por causa da internet.
Hoje, você pode ficar no seu quarto e pedir comida, conversar, assinar documentos, abrir contas no Brasil e no exterior, comprar produtos que vêm direto da China. Então, essas mudanças não são consideradas na hora em que alguém analisa ou critica a geração Z.
Você citou o marco da internet e como muda questões de comportamento, de cultura e de como esses jovens pensam. O mundo da internet mudou a forma como os jovens planejam a própria carreira?
Para esses jovens não é que mudou. Mas, quando você faz uma análise mais ampla, de como os jovens planejavam suas carreiras, vemos uma mudança relevante.
Há dados que mostram que a geração Z vai ser a primeira a ter a maior quantidade de mudanças de carreira ao longo da vida. Durante a pandemia, profissões digitais, como desenvolvedores, UX designers e gerentes de produto, cresceram tanto que a parte educacional, das universidades, não conseguiu acompanhar o ritmo da demanda do mercado.
O efeito disso foi o surgimento de várias empresas oferecendo formações mais rápidas. Aqueles modelos do tipo: "Você vai sair daqui como desenvolvedor e quando começar a trabalhar paga o curso". Isso foi um boom global. Na pandemia, você vive o ápice disso. Tinha, por exemplo, desenvolvedores juniores entrando no mercado ganhando R$ 7 mil por mês, tamanho o desequilíbrio entre oferta e demanda.
Corta para o ano retrasado com o hype da inteligência artificial. Hoje, quando você vai a uma palestra sobre o futuro do trabalho, a profissão de desenvolvedor de software já aparece na lista das que podem deixar de existir nos próximos anos, substituídas pela IA.
Se compararmos com o passado, profissões como a de cobrador de ônibus demoravam décadas para entrar em um lista de extinção. O ciclo acelerou muito. Isso vai fazer com que a geração Z precise se reposicionar na carreira, principalmente no ambiente digital.
Aqui, vamos ter duas formas de olhar. Por um lado, há uma imersão total no digital, ser criador de conteúdo entrou no radar como carreira desejada. Por outro, isso também gera ansiedade, porque é uma profissão instável, ainda em desenvolvimento. É uma economia nova, diferente, por exemplo, de um corretor de imóveis, que tem parâmetros mais consolidados.
Eu costumo dizer que ainda não temos o primeiro influenciador digital aposentado para entender o ciclo completo dessa carreira. Então, isso gera desejo, mas também instabilidade. O contraponto é que a geração Z começa a olhar para carreiras não digitais.
Eu participei do SXSW este ano e assisti a uma palestra na Casa São Paulo que falava justamente disso, que a IA não deve substituir facilmente profissões mais manuais, mais analógicas. Então, vamos ver um movimento de retorno a essas carreiras.
Por exemplo?
Cabeleireiro, manicure… áreas em que a atuação humana ainda é difícil de ser substituída pela IA.
Pensando que a carreira na internet é instável. Então, qual é o plano de carreira desse jovem que já entra no mercado de trabalho no setor de criação de conteúdo?
Primeiro, por ser uma carreira expositiva, você quer se tornar aquilo que está consumindo. A carreira de influenciador, até meio tosca essa frase, é uma carreira "influenciável". Porque você quer ter a vida daquela pessoa que acompanha, daquele criador que segue.
É diferente, por exemplo, de outras profissões. Quem vai para a medicina, muitas vezes, teve alguém na família que seguiu esse caminho ou teve algum contato que inspirou essa escolha.
Em algum momento, todo mundo se inspira em uma profissão. Como hoje temos um número alto de influenciadores no Brasil, há muita gente ocupando esse espaço e querendo chegar lá. Quando essa decisão é baseada em inspiração, a barreira de entrada é baixa.
Vou usar de novo o exemplo da medicina: quantas pessoas sonham em ser médicas? Quantas conseguem passar na faculdade, concluir o curso e se inserir no mercado de trabalho? A barreira é alta.
Na criação de conteúdo, para começar, a barreira é baixa. Hoje, com um smartphone e acesso à internet, você consegue produzir conteúdo e publicar. Onde a caminhada vira subida é quando a pessoa percebe que só produzir conteúdo não é suficiente para ganhar dinheiro. É aí que o criador começa a fazer contas de quanto tempo está dedicando, quanto cresceu, como está a taxa de engajamento e por que não está conseguindo transformar isso em renda.
É quando começa a entender que existe um mercado maior por trás, que é o publicitário. A partir disso, passa a aproveitar as oportunidades. Temos visto, por exemplo, com a entrada do TikTok Shop no Brasil, um crescimento dos programas de afiliados, em que você só ganha pelo que vende.
Quando a barreira de entrada é baixa, muitas pessoas entram, isso torna o mercado mais disperso. No fim, tem muita gente ganhando pouco. Então, essa é uma análise comum de "estou investindo muito tempo e não estou tendo retorno financeiro".
Ao mesmo tempo, a pessoa pensa: "Mas eu construí uma audiência, não quero jogar isso fora". E aí vemos um movimento interessante, pessoas migrando para outras carreiras e usando a audiência como alavanca de negócio.
Por exemplo, na área de estética. A pessoa entra nesse mercado e usa a influência que construiu para atrair clientes. No marketing, isso aparece como uma estratégia chamada founder-led growth, quando a imagem do fundador ajuda a impulsionar vendas, independentemente do setor.
Nesse momento, o criador deixa de ganhar dinheiro como mídia e passa a monetizar de outras formas, com produtos, serviços ou negócios próprios, usando a própria imagem como canal. Não significa que a pessoa deixou de influenciar ou perdeu a comunidade. Significa que entendeu que não conseguiria monetizar diretamente ali e passou a usar essa audiência de outras formas.
Então não é um plano de carreira como a gente tem no imaginário com início, meio e fim?
Até porque, o que é um plano de carreira hoje? Você toma uma decisão, vai se profissionalizar por meio da educação formal, depois se insere no mercado de trabalho como júnior, depois pleno, sênior, e vai galgando posições maiores.
Qual é a educação formal do criador de conteúdo? Não tem. Existem algumas iniciativas, algumas "universidades de influenciador", na maioria dos casos, o influenciador entende que vai aprender pelo YouTube e pelas redes sociais.
Segundo ponto, ele não precisa ter 18 anos para começar a carreira, como geralmente acontece no modelo tradicional, com a entrada na universidade. Depois, o que diferencia um influenciador júnior de um sênior?
Então, esse desenho de plano de carreira, vindo do mercado formal, não se aplica à realidade de um criador de conteúdo. A gente precisa usar outros elementos para analisar e definir esse caminho. Existe um possível desenho de plano de carreira para o criador de conteúdo.
Ele começa produzindo conteúdo, depois passa a trocar conteúdo por produtos e serviços, a famosa permuta. Por exemplo: "Quero fazer um botox". Vai até uma clínica, divulga o serviço e recebe o procedimento em troca. Não está ganhando dinheiro, mas está recebendo algo de valor.
Essa seria a primeira etapa, que é transformar conteúdo em permuta. Depois, com mais relevância, vem o próximo passo: "Agora eu não quero só o produto, quero dinheiro também". Entra a famosa #publi. Em seguida, ele começa a construir uma comunidade e a desenvolver outros produtos: cursos, mentorias, conteúdos pagos, ensinar outras pessoas a serem influenciadoras.
Chega a um nível mais alto, que é se tornar fundador de um negócio. É o que vemos com influenciadoras como Bianca Andrade e Virginia Fonseca, que usaram a influência para criar empresas que operam na economia tradicional.
Mas a influência funciona como uma grande alavanca comercial. Então, se fosse desenhar um plano de carreira para um criador de conteúdo, com base no que existe no mercado, seria mais ou menos assim: começa com permuta e, no topo, equivalente a um "CEO" dentro da creator economy, está o fundador de uma empresa de sucesso.
Você comanda a Nice House, que conecta jovens a marcas, mas já passou por empresas mais tradicionais como a Embraer. O que você considera que as empresas ainda estão errando para reter esses talentos?
Eu gosto sempre de pensar por um lado mais pragmático. Por incrível que pareça, qual é o principal atributo que uma organização pode colocar na mesa para chamar a atenção da geração Z? A estabilidade. Porque tudo ao redor da geração Z é instável.
Ela nasce e cresce em um mundo extremamente instável. Quando eu trabalhei na Embraer, estive próximo de um projeto chamado eVTOL, o famoso "carro voador". Quando você ia à área de engenharia, os profissionais estavam muito orgulhosos. A Embraer tem esse sentimento de orgulho nacional, com pessoas apaixonadas pelo que fazem. Eles diziam que se sentiam como parte dos Jetsons, porque estavam construindo algo que só existia na imaginação quando eram crianças.
O cinema ajuda a desenhar o futuro. Mas, quando a gente olha para os principais filmes que impactaram a geração Z na infância, muitos são distópicos. Ou seja, essa geração não cresceu com uma visão totalmente positiva de futuro. Fica difícil pensar no longo prazo quando há a sensação constante de incerteza: pandemia, crises, guerras…
O que as empresas tradicionais podem oferecer é justamente o oposto, estabilidade e um plano de carreira estruturado. Pode parecer que isso afasta, mas, na verdade, entrega algo raro hoje que é a segurança nas relações.
Então, estabelecer um plano de carreira claro e ser transparente sobre como crescer dentro da empresa é fundamental. Porque tem outro ponto importante, a geração Z cresceu em um ambiente hiperdigital, influenciada por lógica de plataformas e pela gamificação.
Ela está acostumada a ter informações claras, rápidas e organizadas. Quando compra algo, por exemplo, já sabe o preço, o prazo de entrega, os benefícios. Por isso, discursos vagos como "vista a camisa" ou "dê o sangue que você chega lá" não funcionam mais.
Primeiro, porque essa geração viu dentro da própria família pessoas se dedicando ao trabalho e não necessariamente sendo recompensadas por isso. E também vivenciou um cenário de demissões em massa.
A geração Z não quer que o trabalho seja o centro da vida. Ela quer uma vida que vá além dele. Então, na prática, o que as empresas precisam fazer? Deixar claro como a pessoa cresce ali dentro. O mundo dessa geração tem tutorial para tudo. Quando ela não entende as regras do jogo, o engajamento cai. Além de ser transparente sobre ganhos e velocidade de crescimento.
Porque esse jovem faz conta o tempo todo. Ele compara se vale mais a pena estar aqui ou ser afiliado, trabalhar com aplicativo, criar conteúdo?
Temos vários vídeos, por exemplo, de pessoas mostrando quanto ganham criando conteúdo simples e comparando com um salário mínimo em um trabalho tradicional, com jornada longa e escala pesada. E aí vem a pergunta do que faz mais sentido?
Então, a provocação para as empresas é olhar para a própria oferta e comparar com o mercado real, que é exatamente o que a geração Z faz. Veja se essa proposta é competitiva. Tanto que surgiram tendências como o "CLT premium". Ou seja, não é que a geração Z não queira ser CLT, ela não quer ser explorada.
Pegando o gancho da sua participação no São Paulo Innovation Week, o comportamento digital também influencia a forma como esse jovem se relaciona com o trabalho?
Eu participei de um podcast focado em lideranças de RH e uma das perguntas foi por que hoje os jovens não querem ser diretores, CEOs? Eu respondi porque nem os diretores querem ser diretores.
Se você olha para quem ocupa esses cargos, vê muita reclamação de excesso de trabalho, dificuldade de gerir pessoas, relações desgastantes. Ao mesmo tempo, você vê uma influenciadora, às 15h, tomando sol, depois fazendo yoga. Que tipo de vida você quer?
Na juventude, quando você ainda está sonhando e acredita que tudo é possível, onde você quer investir seu tempo? Em qual estilo de vida? Então, obviamente, as redes sociais influenciam.
A gente tem um exemplo recente do Toguro, que passou a anunciar que está ocupando cargos estratégicos dentro de grandes empresas. Isso vai reverberar em outras pessoas que também vão querer esse tipo de posição, mas do jeito que ele apresenta.
No fim do dia, é tudo sobre como você se comunica e apresenta essas opções. Lá atrás, antes de empreender, eu trabalhei com employer branding. E a questão central era: como você vende a ideia de que trabalhar na sua empresa faz sentido para a vida daquela pessoa?
Hoje, as empresas precisam ser muito mais intencionais na comunicação. Um influenciador é extremamente estratégico no conteúdo que produz. Teve até um momento em que gerou surpresa quando a Bianca Andrade mostrou que tinha roteiro para os stories porque as pessoas achavam que era tudo espontâneo.
Ou seja, existe intencionalidade. Mas muitas empresas ainda não são intencionais na forma como se apresentam. Depois se perguntam por que a imagem não está funcionando. Então, sim, isso influencia muito.
Você comentou que tudo muda rápido. Qual a sua projeção na carreira, tanto na creator economy quanto nas mais tradicionais nos próximos cinco anos? Como esse jovem vai navegar entre esses caminhos?
É uma pergunta difícil, porque cinco anos parecem muito tempo, considerando a velocidade das mudanças com a inteligência artificial. Mas, colocando como uma aposta, na creator economy, a gente deve passar por um período de maior estabilidade econômica.
Hoje, existe um desequilíbrio entre oferta e demanda, muitas pessoas querendo entrar e poucas ganhando dinheiro. Quando vemos esse movimento de pessoas se definindo como ex-influenciadores, isso pode ajudar a equilibrar esse cenário.
Talvez, com menos gente tentando, tenha mais espaço para quem permanece conseguir estabilidade financeira. Por outro lado, veremos negócios tradicionais usando a internet como principal canal de aquisição.
Seja para levar pessoas para lojas físicas ou para vender diretamente online, com poucos cliques, lives e outras ferramentas. Ou seja, o criador de conteúdo se transforma em um canal de vendas.
Outro ponto é a inteligência artificial, que entra com muita força. Há um movimento de pessoas saindo da hiperdigitalização e buscando carreiras em que a tecnologia tenha menos impacto.
Porque hoje até o criador de conteúdo já se sente ameaçado por IAs que conseguem criar influenciadores digitais. Então, é natural que as pessoas busquem áreas em que sejam menos substituíveis, mais manuais, mais artesanais, onde o relacionamento humano tem mais peso.
Qual o seu conselho para os jovens que pensam em ter a criação de conteúdo como principal fonte de renda?
O principal é sair da visão de sonho e tratar isso como um negócio. Entender quanto tempo você vai precisar dedicar, quais são suas metas e, principalmente, como se ganha dinheiro com isso. Se preparar também para o que acontece nos bastidores, não só na frente da câmera. O brasileiro tem muita força no carisma e na criatividade. Mas o grande gap está "da câmera para trás".
Ou seja, estruturar portfólio, saber cobrar, participar de reuniões, entender o mercado, principalmente o lado onde o dinheiro está. Vale estudar casos de sucesso com profundidade. Em que momento aquele influenciador começou a ganhar dinheiro? Quanto ele ganha? Isso varia mês a mês? Quase não falamos sobre dinheiro e isso é um problema.
Outro dia, uma cliente me disse algo interessante: "tudo aquilo sobre o que a gente não conversa é mais difícil de vender". Ela trabalhava com seguro de vida e explicou que o brasileiro não fala sobre morte, então é difícil vender seguro. Também não fala sobre dinheiro, então é difícil vender investimento.
Essas perguntas precisam ser feitas. Quanto ganha o criador que você admira? Esse ganho é constante? O que ele faz nos meses ruins? As pessoas olham só para o conteúdo, mas depois se frustram por não conseguir monetizar. Então, a principal dica é se você quer viver disso, entenda o que é necessário para viver disso.
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