Calor extremo derruba produção agrícola na Europa e expõe riscos de modelo intensivo
As ondas sucessivas de calor que atingem a Europa anunciam um ano dramático para a agricultura no bloco. Os números, ainda provisórios, colocam o setor em alerta e aceleram a necessidade de adaptação às mudanças do clima, com a ampliação de técnicas de cultivo mais resilientes ao aumento das temperaturas e períodos de seca.
Diversos cultivos antecipam graves prejuízos em 2026, como hortaliças, frutas, cereais, leite e frango. Uma análise da Energy and Climate Intelligence Unit revelou que as ondas de calor recorde de junho, que ocorreram no momento crítico do enchimento dos grãos de cereais, cortaram pelo menos 9 milhões de toneladas da safra na Europa.
A estimativa de prejuízo, ainda provisória, é de € 2 bilhões, com o milho representando a metade desta cifra.
Entre os países mais atingidos, a França está em primeiro lugar, seguida da Hungria, Espanha, Alemanha e Áustria. Na França, o setor do leite também "desmoronou" até 30%, conforme a região, indicou a ministra da Agricultura, Annie Genevard, em um balanço nesta segunda-feira (27).
A produtora Amandine Yverneau, na região parisiense, relata à RFI o que viveu. "Tivemos uma queda de cerca de 5 quilos por animal na produção de leite, ao longo de uma semana, o que representa uma perda de cerca de € 2 mil", lamenta. "A temperatura ideal para as vacas fica entre 2°C e 15°C. É nessa faixa que elas se sentem mais confortáveis".
Durante a segunda onda de calor excepcional que atingiu o país, no fim de junho, Amandine correu para instalar um sistema de ventilação na propriedade e evitar prejuízos ainda maiores. Valor do investimento: € 30 mil, para atender a 200 vacas leiteiras.
"É um custo que beneficia os animais, mas assumir esse investimento não é fácil. É preciso ter fluxo de caixa à disposição", disse. "Seria bom se pudéssemos contar com subsídios para financiar esses ventiladores. Muitas pequenas propriedades não têm esse dinheiro sobrando".
Impacto no ritmo de trabalho
Além da queda da produção, as altas temperaturas representam uma ameaça real à vida dos animais. O governo francês contabilizou mais de 9,1 mil toneladas de animais mortos em todo o país após a onda de calor de junho, principalmente aves.
As condições climáticas extremas e a ameaça de incêndios florestais também prejudicam o ritmo de trabalho nas fazendas. Dezenas de prefeituras proibiram a colheita das 14h às 19h, para evitar o risco de fogo em meio à seca extrema, gerando custos adicionais para os agricultores.
Outras atividades paralelas também são afetadas, com um efeito dominó na economia. O governo francês diminuiu a previsão de crescimento do PIB de 0,9% para 0,7% em 2026.
"Tem um problema de produtividade, que nós compreendemos. Estão todos aguentando essa situação", afirma Didier Massy, presidente da Confederação de Pequenas e Médias Empresas de Nouvelle-Aquitaine, uma das regiões mais afetadas pelo fogo. "Seria interessante poder ter um regime de desemprego parcial, porque, mesmo se a gente começar às 6h, continuar até depois do meio-dia é arriscado e perigoso".
Agricultura regenerativa e agroflorestal
Especialistas do Instituto Nacional de Pesquisas para a Agricultura, a Alimentação e o Meio Ambiente (Inrae) chamam a atenção para a urgência de práticas agrícolas que favoreçam os estoques de água nos solos, como a regenerativa e a agroflorestal. O cultivo intensivo, advertem, contribui para o empobrecimento da terra, deixando-a mais sensível às secas.
Entretanto, em um país profundamente apegado às tradições agrícolas históricas de cada região, a ideia de diversificação da produção gera tensões.
As temperaturas 3°C acima da média histórica no continente são uma amostra do que está por vir pela frente, afirmam climatologistas. Ignorar este alerta levará os prejuízos a se tornarem cada vez maiores, ressalta o economista Frédéric Bizard, à RFI.
"Precisamos integrar tudo isso num plano de saúde pública, que nos falta absurdamente. Senão, a cada onda de calor, teremos uma crise", frisa. "Isso precisa ser integrado na gestão normal do mundo do trabalho, afinal as altas temperaturas não são mais surpresas, e sim são cada vez mais algo para o qual podemos nos programar".
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