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'Brigar com o governo nunca é bom', diz VP da BYD após Anfavea ameaçar contestar cotas na Justiça

Direção da entidade que representa as montadoras tradicionais eleva o tom ante a possibilidade de decisão, nesta terça, 23, beneficiar a importação de carros elétricos

22 jun 2026 - 20h56
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O vice-presidente sênior da BYD no Brasil, Alexandre Baldy, disse, nesta segunda-feira, 22, que "brigar com o governo nunca é bom", após a direção da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), entidade que representa as montadoras tradicionais, ameaçar ir à Justiça pelo fim de benefícios à importação de automóveis.

"Eu não posso comentar decisão da entidade, uma entidade histórica, respeitada, fazendo 70 anos. Eu quero dizer que brigar com o governo nunca é bom. Então, nós respeitamos o governo, respeitamos o Brasil, cumprimos a nossa parte desse compromisso com o Brasil, com o brasileiro, investindo, gerando emprego para brasileiros, gerando emprego para os baianos, trazendo investidor estrangeiro", disse Baldy, ao ser questionado sobre declarações dadas, pela manhã, pelo presidente da Anfavea, Igor Calvet.

Baldy reiterou que os benefícios para a importação de carros foram pactuados com o governo federal para viabilizar os investimentos em Camaçari
Baldy reiterou que os benefícios para a importação de carros foram pactuados com o governo federal para viabilizar os investimentos em Camaçari
Foto: Daniel Teixeira/Estadão / Estadão

As cotas de importação de carros híbridos e elétricos voltaram a gerar atrito entre as partes, dada a possibilidade de a Câmara de Comércio Exterior (Camex) decidir nesta terça-feira, 23, se autoriza a renovação do benefício. Em entrevista a jornalistas, Calvet disse ter recebido a informação, não confirmada pelo governo, de que o Comitê de Alterações Tarifárias (CAT) recomendou a volta das cotas durante a reunião extraordinária, realizada na sexta-feira, 19, que antecede o encontro da Camex.

Apontando risco aos investimentos de R$ 140 bilhões anunciados pelas montadoras, a direção da Anfavea disse que considera ir à Justiça em caso de retorno das cotas, que valeram por seis meses até janeiro.

O benefício permitiu que a BYD trouxesse, com alíquota zero do imposto de importação, carros parcialmente montados da China. A produção é finalizada na fábrica da marca chinesa em Camaçari, na Bahia.

Durante celebração da marca de 300 mil veículos vendidos pela BYD no Brasil, Baldy reiterou que os benefícios para a importação de carros foram pactuados com o governo federal para viabilizar os investimentos em Camaçari. A montadora defende que a isenção é necessária durante a transição até um sistema de produção mais completo, com maior índice de conteúdo nacional.

"A BYD só requisitou ao governo aquilo que foi o compromisso para com a BYD para a realização dos investimentos da nossa fábrica na Bahia", afirmou o vice da montadora chinesa. "Essa cota que foi concedida no ano passado não foi só da BYD, foi uma cota que atendeu a várias empresas que investem no Brasil", acrescentou.

Mudança aos '49 minutos do segundo tempo'

Pela perspectiva do presidente da Anfavea, a retomada do benefício, assim como mudanças no cronograma que prevê a elevação para 35%, no mês que vem, do imposto de importação de carros montados, significa romper o pacto que respaldou investimentos das montadoras.

"O máximo aceitável é o cronograma que foi dado, que foi conversado, que foi pactuado. Para além disso, é rompimento de pacto (...) Nós nunca vamos deixar de dialogar, mas, se houver uma chance de judicializar, nós vamos atrás dessa chance porque esta decisão do governo não é justa", afirmou Calvet.

"Isso acaba trazendo, sim, muito estremecimento da relação do setor automotivo com o governo", acrescentou.

Segundo Calvet, a previsibilidade aos investimentos está sendo contestada por mudanças nas regras do jogo que podem acontecer aos "49 minutos do segundo tempo". Ainda que a reunião do CAT não tenha sido publicada no site do ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o presidente da Anfavea diz que recebeu informações de que a renovação das cotas foi deferida pelo comitê na sexta-feira, às 15h. "Nós soubemos disso por membros do CAT, que são vários ministérios, mais de uma fonte. Mas não há transparência até o momento nos portais do governo", afirmou Calvet. "O encaminhamento técnico foi por deferir o pleito."

Calvet salientou que a medida tem potencial de provocar desindustrialização e revisão de investimentos, levando a mais importações de carros chineses também pelas montadoras tradicionais, associadas à Anfavea. "Se o incentivo é esse, por que as empresas que estão instaladas no Brasil não vão caminhar da mesma maneira? Por quê? O que impedirá elas?", questionou.

"Essa decisão sinaliza que, inclusive, as minhas empresas da Anfavea podem começar a botar carro em navio e trazer pra cá com imposto baixo", finalizou.

Estadão
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