Braskem vê alta de spreads com continuação de guerra no Oriente Médio
A Braskem, que afirma ser a maior compradora individual de nafta do mundo, está vendo possibilidade de ter ganhos operacionais nos próximos meses caso a guerra no Oriente Médio se prolongue e intensifique, afirmaram executivos da petroquímica nesta sexta-feira.
"Apesar de muita instabilidade em função da guerra no Oriente Médio, pode haver oportunidades de capturas de valor para algumas regiões, inclusive Américas, considerando o aumento de spreads no mercado internacional", afirmou a diretora de relações com investidores da Braskem, Rosana Avolio, em conferência com analistas após a publicação dos resultados da companhia.
"Consultorias externas indicam que existe expectativa de aumento de quase 50% nos spreads ao longo do primeiro trimestre", afirmou a executiva, referindo-se à diferença de preços entre a matéria-prima e o produto petroquímico, que antes da guerra vinha sob um forte ciclo de baixa que prejudicava os resultados do setor.
Segundo o presidente-executivo da empresa, Roberto Ramos, enquanto rivais asiáticos da Braskem estão enfrentando dificuldades para obtenção de matéria-prima para suas operações, a petroquímica brasileira importa a maior parte de suas necessidades de nafta dos Estados Unidos. Ramos afirmou ainda que a Braskem começou o período da guerra com estoques de nafta maiores que os de concorrentes da Ásia.
"A questão de 'sourcing' não está sob risco por origem, mas está impactada pelo custo", afirmou o executivo, citando que os efeitos da guerra iniciada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã sobre a cadeia petroquímica global devem levar "alguns anos" para serem resolvidos diante de destruição de infraestruturas de produção e transporte no Oriente Médio.
Ramos reafirmou ainda que a Braskem está em processo de trocar a base de sua petroquímica de nafta para gás e etanol e com isso tem importado mais etano dos EUA para usar em instalações na Bahia como forma de contornar o aumento do preço da nafta, que dobrou, desde o início da guerra. A empresa também está importando propano da Argentina para usar no Rio Grande do Sul e está avaliando o uso de etano do país também para suas instalações no sul.
Às 15h12, as ações da Braskem lideravam as perdas do Ibovespa, desabando mais de 12%, enquanto o índice mostrava queda de 0,69%.
Analistas do Citi consideraram o resultado da companhia negativo diante de queima de caixa, alta alavancagem e cenário desafiador da indústria petroquímica. Mas citaram que, do lado positivo, a empresa "está aparentemente melhorando seus números em 2026" em meio à guerra no Oriente Médio e à ampliação de benefícios do regime especial de tributação para a indústria química nacional (Reiq), sancionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na semana passada.
Após o balanço e a teleconferência, analistas do BTG Pactual mantiveram visão cautelosa sobre a Braskem, diante da possibilidade da empresa reestruturar sua dívida por meio de conversão em ações e/ou aportes de capital, que podem "diluir os minoritários".
PRIORIDADE É ESTRUTURA DE CAPITAL
A companhia encerrou 2025 com uma dívida líquida ajustada de US$7,5 bilhões, uma alavancagem financeira de 14,74 vezes e um consumo de caixa de R$7,3 bilhões.
Isso, apesar de a companhia ter implementado "mais de 700 iniciativas" ao longo do ano passado que resultaram em US$500 milhões em lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) e US$600 milhões em geração de caixa, disse o diretor financeiro, Felipe Jens.
O executivo afirmou que a prioridade este ano para a Braskem é reorganizar sua estrutura de capital de modo a permitir "a continuidade do negócio".
Questionado sobre possibilidade da parceria mexicana Braskem Idesa pedir recuperação judicial, Jens afirmou que os assessores financeiros contratados no ano passado continuam em "pleno engajamento" para a reorganização da empresa e que "o caminho não está definido e não há nenhuma certeza de qual vai ser".
Já sobre os investimentos que a empresa tem que fazer se quiser manter o plano de mudança de base de matéria-prima, o diretor financeiro disse que os recursos "estão contemplados" para isso e que "não há discussão sobre a necessidade de fazê-lo".
Em outubro, o conselho de administração da Braskem aprovou investimento de R$4,2 bilhões para elevar a capacidade de central petroquímica no Rio de Janeiro, com estimativa de conclusão em 2028.
Ramos afirmou que o projeto vai dar mais competitividade à Braskem porque permitirá uso de etano em vez de nafta no Rio de Janeiro e a conversão das instalações na Bahia para uso de etanol.
Já sobre a aprovação na véspera do direito antidumping definitivo pela Câmara de Comércio Exterior (Camex) contra importações de polietileno dos EUA e Canadá, o presidente da Braskem afirmou que a empresa vai recorrer pelo fato de o órgão ter reduzido os valores de sobretaxa na decisão.
"Vamos recorrer porque o caso era muito forte...É absolutamente lastimável que um trabalho de enorme conteúdo técnico e de ampla amostragem não foi considerado como deveria ter sido", disse o executivo.
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