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Brasil se prepara para novas tarifas dos EUA enquanto Washington amplia a pressão comercial

15 jul 2026 - 07h09
(atualizado às 07h50)
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O Brasil se prepara para a imposição de uma nova tarifa de 25% pelos Estados Unidos, que pode atingir ‌mais de 4 mil produtos brasileiros, após meses de negociações intensas, mas em grande parte infrutíferas, disseram à Reuters quatro fontes que acompanham as discussões.

O Brasil deve ser o primeiro alvo em uma nova rodada de tarifas a serem adotadas pelo governo norte-americano contra vários países, depois que a Suprema Corte dos EUA derrubou a política tarifária original do presidente Donald Trump, em fevereiro deste ano.

"Não houve falta de esforço da nossa parte. Houve dezenas de reuniões, seis ou sete só no último mês", disse uma fonte envolvida nas negociações, que pediu anonimato. "Mas eles querem o impossível."

Entre os desejos da equipe norte-americana estava o pedido para que alguns de seus produtos tivessem tarifas reduzidas exclusivas dentro do mercado brasileiro, o ⁠que fere a legislação do país e, mesmo que o Brasil decidisse ceder, acabaria na Justiça.

O anúncio de tarifas a ser feito pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na ‌sigla em inglês), esperado para esta quarta-feira, pode afetar produtos brasileiros que equivalem a cerca de US$15 bilhões em exportações anuais, de acordo com um levantamento feito pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Essa lista, que inclui molduras de madeira, tabaco, ferro-gusa, açúcar bruto e alumínio, entre outros produtos, inclui 13 de 15 produtos em que o Brasil é um dos três ‌principais fornecedores dos EUA, segundo a CNI.

A nova estratégia tarifária do governo Trump se baseia na Seção 301 da ‌lei comercial dos EUA, uma disposição que autoriza investigações sobre supostas práticas comerciais desleais, mas não será o único. Desde fevereiro, o USTR abriu mais quase 80 ⁠investigações com base na seção 301.

Na maior parte das investigações, os países são acusados de não terem legislações que impeçam a importação de produtos que possam ter trabalho escravo na sua cadeia produtiva. Além da investigação que se encerra nesta quarta, o Brasil também está nesse grupo, o que deve elevar as tarifas contra o país em mais 12,5%, chegando a 37,5% a partir do dia 24 deste mês.

Outras, que incluem China, Índia e a União Europeia, entre outros, acusam os países de usar subsídios e outras práticas para desenvolver uma "superprodução industrial" de modo artificial.

O Brasil, no entanto, está enquadrado em um situação especial. A primeira investigação contra o país foi aberta em julho de 2025, com base em uma questão política: ‌ao adotar tarifa de 40% contra o país, somada aos 10% já implementados antes, Trump usou como argumento uma razão política, a suposta perseguição ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

Desde então, depois da evolução ‌do relacionamento entre Trump e o presidente Luiz Inácio Lula ⁠da Silva, foram ampliadas as negociações e mais ⁠produtos foram incluídos na lista de exceções, mas a suposta "boa química" entre os presidentes -- como descrito por Trump -- não livrou o país das tarifas.

As fontes ouvidas pela Reuters admitem que pode ter pesado ⁠o clima político e as eleições deste ano, quando o Departamento de Estado norte-americano, chefiado por Marco Rubio, defende ‌sem pudores a candidatura do senador de oposição Flávio ‌Bolsonaro.

No entanto, a negociação, a cargo do USTR, tem também razões técnicas para manter as tarifas, dizem as fontes, incluindo a necessidade de reduzir o déficit comercial global norte-americano. Apesar de o Brasil ter déficit com os EUA, na conta geral norte-americana esse resultado precisa ser ainda maior para melhorar a conta geral.

Ainda que tenha sido aberta com razões políticas, a investigação contra o Brasil avançou por questões comerciais. O texto citou diversas supostas práticas desleais, incluindo desmatamento ilegal e o sistema de pagamentos ⁠instantâneos brasileiro, Pix, que, segundo o governo dos EUA, prejudica as empresas de cartão de crédito. As evidências contrárias apresentadas pelo Brasil foram ignoradas, dizem os negociadores brasileiros.

Em carta enviada ao representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, o ministro das Relações Exteriores brasileiro, Mauro Vieira, afirmou que os EUA não conseguiram confirmar as acusações e insistiram em informações erradas. Vieira classificou a investigação de "arbitrária" e parte de uma "pressão econômica generalizada imposta pelos EUA".

"UM TIRO NO PRÓPRIO PÉ"

Espera-se que as tarifas propostas pela Seção 301 isentem diversas categorias de produtos brasileiros, como carne bovina, café, terras raras e peças de aeronaves, que representam a maior parte das exportações do ‌país para os EUA.

Esses produtos já haviam sido excluídos das tarifas anteriores de 50% impostas pelo governo Trump sobre produtos brasileiros. Há, agora, a expectativa de que novos produtos possam entrar nas isenções, depois de pedidos apresentados por empresas dos próprios EUA, mas até agora não há informações concretas.

O governo brasileiro espera o anúncio norte-americano para calcular sua ⁠própria reação, mas as fontes afirmam que algum tipo de retaliação virá em breve, possivelmente mais de uma.

Internamente, o país tem a Lei da Reciprocidade, que pode ser usada em casos de medidas consideradas abusivas e injustas. Um novo processo deve ser iniciado -- são necessárias consultas ao setor industrial para tomar uma decisão --, mas existe também a possibilidade de um rito sumário.

Externamente, o Brasil já tem uma disputa em andamento na Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre as tarifas norte-americanas, aberta no ano passado. Essa mesma disputa pode ser aproveitada agora, encurtando o caminho para o Brasil pedir a abertura de um painel no Mecanismo de Soluções de Controvérsias.

Apesar de praticamente paralisada nos últimos anos, a OMC ainda tem o poder de dar o aval ao Brasil para uma retaliação internacional.

O resultado desse novo tarifaço dos EUA deve ser uma deterioração ainda maior de uma relação comercial que já vem decaindo significativamente.

Dados da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos mostram que a participação dos EUA no comércio total do Brasil caiu para 9,7% no primeiro semestre deste ano, em comparação com o mesmo período de 2025, quando representava 12,1%, sendo este o nível mais baixo desde o início dos registros, em 1997.

"É a primeira vez na história que as exportações para os EUA representam menos de 10% da balança comercial brasileira", contou uma das fontes. "A verdade é que desde o início do tarifaço as empresas vêm buscando alternativas. Não há dúvidas que impacta vários setores, mas não vai quebrar o Brasil".

Outra, ao analisar a questão política, lembra que uma das maiores preocupações norte-americanas é a influência da China na América Latina.

"É um tiro no pé. Eles empurram cada vez mais o Brasil e outros países para a Ásia", diz essa fonte.

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