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Brasil-França: como as moedas sociais podem aproximar dois modelos diferentes de economia solidária

Professor convidado na França e atualmente vinculado ao Centro de Pesquisa em Gestão da Universidade de Poitiers, o administrador Jeová Torres Silva Junior, da Universidade do Cariri, no Ceará, tem acompanhado há vários anos o debate sobre economia solidária nos dois países. Enquanto no Brasil - seu principal campo de estudo -, os bancos comunitários e as moedas sociais se multiplicam de norte a sul, com resultados visíveis em comunidades carentes, na França as moedas locais ainda carregam, em certas regiões, um componente identitário.

23 fev 2026 - 17h00
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Essa realidade, porém, começa a mudar com o empobrecimento crescente de bairros periféricos franceses, que poderiam, na avaliação do pesquisador, encontrar no modelo brasileiro caminhos para melhorar a qualidade de vida de seus habitantes.

O professor Jeová Torres Silva Jr. é administrador e pesquisador em gestão, especialista em economia solidária e finanças solidárias.
O professor Jeová Torres Silva Jr. é administrador e pesquisador em gestão, especialista em economia solidária e finanças solidárias.
Foto: © Arquivo pessoal / RFI

Na definição de Torres Silva Jr., a moeda social é um circulante complementar à moeda nacional, criada para reter e ampliar a circulação da riqueza dentro de um território. Ele observa que muitos bairros e municípios não são "pobres" em sentido estrutural, mas sim empobrecidos pelo modo como o dinheiro escapa para fora da comunidade. Quando o consumo acontece em outros bairros ou cidades, explica, o território perde seu próprio potencial de desenvolvimento. A moeda local interrompe esse fluxo e fortalece uma dinâmica que o especialista prefere chamar de "bem viver", termo que considera mais coerente com a economia solidária do que com a noção tradicional de crescimento econômico.

"O importante é que o circulante fique na comunidade e gere trabalho e renda ali mesmo", resume o pesquisador, ao destacar que o papel da moeda social é menos financeiro e mais organizador da vida econômica local.

A experiência brasileira mais conhecida é a da moeda Palmas, criada no início dos anos 2000 no Conjunto Palmeiras, na periferia de Fortaleza. Lastreada em real, ela estruturou um circuito econômico inteiramente localizado, que vai do pagamento de parte da equipe do banco comunitário ao abastecimento de supermercados, passando por serviços cotidianos como gás de cozinha e transporte alternativo. Em poucos anos, o bairro viu algo inédito: o volume de recursos circulando dentro do território multiplicou-se por cinco ou seis, resultado direto do fato de que o dinheiro deixou de escapar para outras áreas da cidade.

Pertencimento e pragmatismo

Para Torres Silva Jr., o sucesso do modelo depende de uma combinação de pertencimento e pragmatismo. A moeda local, explica ele, "faz o dinheiro ficar no bairro" - e isso gera confiança entre comerciantes e moradores, estimulando novos negócios e ampliando a oferta de serviços. 

Esse mecanismo só se tornou possível porque, no Brasil, as moedas sociais nasceram articuladas a bancos comunitários de desenvolvimento, estruturas que já somam mais de 25 anos. Nesses bancos, a moeda é uma ferramenta cotidiana: empréstimos podem ser concedidos em moeda local, geralmente com juros zero ou muito inferiores aos do sistema financeiro tradicional. A lógica para reduzir os juros é simples: se a reforma de uma mercearia ou bar será feita com materiais comprados no próprio bairro, o crédito também pode circular localmente, reforçando o ciclo econômico interno.

Ao lado dessas práticas, programas de transferência de renda municipais, estaduais e federais passaram, em alguns casos, a ser pagos por meio dos bancos comunitários, ampliando ainda mais o impacto da moeda local sobre o comércio de bairro e o orçamento das famílias. Hoje, segundo o pesquisador, o Brasil conta com cerca de uma centena de moedas sociais em funcionamento, com perfis diversos - algumas mais experimentais e restritas, outras articuladas a políticas públicas de maior escala.

Eusko: moeda local no País Basco francês

Na França, o panorama é diferente. O termo adotado é moeda local, e cerca de 86 iniciativas estão em circulação. Mas, ao contrário do modelo brasileiro, elas não são geridas por bancos comunitários, e sim por associações locais que trabalham em parceria com governos municipais. Em algumas cidades, essas moedas servem para remunerar parte das diárias de conselheiros municipais - com funções semelhantes às de um vereador no Brasil -, pagar tributos ou adquirir determinados serviços públicos. Exemplos como o Eusko, lançado em 2013 no norte do País Basco francês, mostram como o componente identitário - enraizado em línguas e culturas locais - é central para a adesão dos usuários. Outras experiências conhecidas são a La Gonette, moeda local de Lyon (sudeste), e a Moneko, que circula em Nantes (oeste).

Apesar das diferenças, Jeová Torres Silva Jr. vê na França um terreno fértil para políticas mais próximas das experiências brasileiras. O empobrecimento recente de áreas rurais e periféricas, argumenta, abre espaço para que moedas locais deixem de ser apenas símbolos identitários e passem a atuar como instrumentos de fortalecimento econômico territorial. "Há muito a trocar entre o que acontece lá e o que acontece aqui", afirma.

Para aprofundar essa troca, um encontro internacional está programado para novembro, em Paris, reunindo pesquisadores, gestores públicos e representantes das redes de moedas locais da França e do Brasil. A iniciativa, organizada em parceria pela Universidade Federal do Cariri e pelo CNAM (estabelecimento público francês de ensino superior), pretende colocar frente a frente experiências como o movimento francês das moedas locais - entre elas o Eusko - e a rede brasileira de bancos comunitários. A proposta, resume o administrador, é criar um espaço de diálogo prático: identificar o que funciona nos dois lados do Atlântico e explorar caminhos de cooperação para fortalecer políticas de economia solidária em ambos os países.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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