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BC diz considerar medidas fiscais e de crédito do governo como risco de alta para a inflação

Autoridade monetária aumentou estimativa da probabilidade de a inflação ficar acima do teto da meta de 30% para 79%; BC também projeta PIB maior, de 2%, em 2026

25 jun 2026 - 12h12
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BRASÍLIA - A cúpula do Banco Central explicitou, no Relatório de Política Monetária (RPM) do 2.º trimestre, que passou a considerar as ações fiscais e de crédito anunciadas recentemente pelo governo federal como um risco altista para a inflação, pelo seu potencial de estimular a demanda agregada.

"Essas medidas, de caráter fiscal ou de crédito, passam a ser consideradas no cenário de referência apenas quando recentemente aprovadas. Mas, mesmo nesse caso, permanecem incertezas relevantes acerca da magnitude de seu impacto sobre a atividade econômica e a inflação, dadas as especificidades e detalhes envolvendo cada política", diz o texto.

BC citou que alguns bancos centrais de economias avançadas têm sinalizado a possibilidade de elevar as taxas de juros
BC citou que alguns bancos centrais de economias avançadas têm sinalizado a possibilidade de elevar as taxas de juros
Foto: André Dusek/Estadão / Estadão

Na ata da reunião de junho, publicada na última terça-feira, 23, o Comitê de Política Monetária (Copom) informou que passou a considerar seu balanço de riscos para a inflação assimétrico para cima — ou seja, que há mais chances de o IPCA superar do que ficar abaixo da trajetória do cenário de referência.

A principal novidade do balanço havia sido um quarto risco altista: "Estímulos à demanda agregada, em particular ao componente de consumo, que tenham como resultado o crescimento da atividade econômica acima do produto potencial, enfraquecendo parte dos canais usuais de transmissão da política monetária". Até agora, o BC não havia explicitado que essa preocupação era com os programas eleitorais do governo.

O BC explicou que, embora a incerteza sobre o impacto de políticas fiscais e de crédito seja comum, a relevância das dúvidas é "exacerbada" devido ao grande conjunto de ações.

Inflação tem mais chances de estourar a meta

O Banco Central aumentou a sua estimativa da probabilidade de a inflação ficar acima do teto da meta (de 4,50%), em 2026, de 30% para 79%. A probabilidade de o IPCA ficar abaixo do piso (de 1,50%) agora é nula, ante 2% no relatório anterior, divulgado em março.

A partir de 2025, a meta de inflação passou a ser contínua, apurada com base no IPCA acumulado em 12 meses. Se ele ficar acima ou abaixo do intervalo de tolerância por seis meses consecutivos, considera-se que o BC perdeu o alvo. O centro da meta continua em 3%, com uma margem de 1,5 ponto porcentual para mais ou para menos.

O alvo foi descumprido pela primeira vez em julho do ano passado, quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informou que o IPCA fechou junho com alta de 5,35% em 12 meses — acima do teto da meta, pelo sexto mês consecutivo.

No mesmo dia, o Banco Central publicou uma carta aberta ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad, informando que esperava que a inflação acumulada em 12 meses caísse abaixo do teto da meta no fim do primeiro trimestre de 2026.

A chance de a inflação de 2027 superar o teto da meta foi revista de 19% para 28%, enquanto a probabilidade de ficar abaixo do piso passou de 10% para 6%. Para 2028, a chance de superar o teto da meta diminuiu de 17% para 16%. A chance de ficar abaixo no período aumentou de 11% para 12%.

BC projeta PIB maior em 2026

O BC aumentou a sua projeção para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2026, de 1,6% para 2,0%. A previsão está praticamente em linha com a mediana do último relatório Focus, de 1,98%.

A nova projeção para 2026 incorpora mudanças nas estimativas para o PIB agropecuário (1,0% para 1,7%), industrial (1,2% para 2,3%) e de serviços (1,7% para 1,9%).

Pelo lado da demanda, a autoridade monetária ajustou as previsões para o consumo das famílias (1,4% para 2,1%) e manteve a do governo (2,0%), além de Formação Bruta de Capital Fixo (0,5% para 1,5%), importações (1,0% para 2,0%) e exportações (2,5% para 3,0%).

Segundo o relatório, "a revisão decorre principalmente da surpresa positiva no resultado do primeiro trimestre e da melhora nas perspectivas para agropecuária e indústria extrativa. Ela também reflete a expectativa de maior dinamismo da demanda interna e dos setores mais sensíveis ao ciclo econômico, em grande parte associada a estímulos de natureza fiscal e creditícia".

Ainda assim, o BC afirma que o contexto de política monetária contracionista e grau de ociosidade reduzido mantém a perspectiva de crescimento moderado ao longo do segundo semestre.

"Embora seus efeitos mais evidentes sobre a economia brasileira até o momento tenham se concentrado nos preços, o conflito no Oriente Médio também eleva a incerteza em torno das projeções de crescimento", escreveu a autoridade monetária.

O Banco Central também diminuiu a sua projeção de déficit em transações correntes do Brasil em 2026, de US$ 58 bilhões para US$ 56 bilhões (2,1% do PIB).

O BC revisou as suas estimativas para o superávit comercial (US$ 73 bilhões para US$ 78 bilhões) e os déficits na conta de serviços (US$ 54 bilhões para US$ 56 bilhões) e renda primária (US$ 82 bilhões para US$ 83 bilhões).

"O aumento do saldo comercial, impulsionado principalmente pela elevação do preço do petróleo, explica a maior parte dessa revisão", disse a autoridade monetária. O BC alertou, porém, que o cenário projetado para as contas externas segue sujeito a riscos acima do usual, em razão das repercussões do conflito no Oriente Médio.

As projeções da autarquia indicam que o déficit em transações correntes vai continuar sendo financiado pela entrada de Investimento Direto no País (IDP). O BC aumentou a projeção de entrada de US$ 70 bilhões em IDP este ano para US$ 75 bilhões (2,8% do PIB).

Novas tarifas dos EUA contribuem para manter incerteza elevada

O Banco Central mencionou que a decisão do governo dos Estados Unidos de anunciar uma nova proposta de elevação das tarifas de importação contribuiu para manter a incerteza elevada, afetando negativamente a confiança.

"Os riscos e incertezas para as economias emergentes continuam elevados, novamente por dúvidas relacionadas à política comercial norte-americana e às tensões no Oriente Médio", afirma o texto.

A autoridade monetária acrescenta que a demora de um acordo mais definitivo que ponha fim às tensões no Oriente Médio mantém os riscos de alta da inflação. Observa também que outros riscos relevantes permanecem no horizonte, como dúvidas sobre a sustentabilidade fiscal de economias relevantes, a evolução da economia chinesa e a continuidade do conflito entre Rússia e Ucrânia.

O relatório pondera que, ainda que o conflito no Oriente Médio se encerre no curto prazo, a incerteza no cenário prospectivo para inflação e crescimento segue elevada. Segundo o BC, a alta recente dos preços de energia interrompeu o processo de desinflação que, embora lento, vinha sendo relativamente contínuo.

"A transmissão do choque de preços das commodities energéticas para o consumidor já se iniciou, será heterogênea e dependerá do arcabouço de formação de preços de cada economia. A magnitude e a distribuição temporal dos repasses à inflação ainda dependem dos desdobramentos do conflito e da calibragem das respostas de política", diz.

O BC acrescenta que também dependerão da persistência do choque de oferta sobre a atividade econômica, seja por limitar a capacidade de produção de energia que se estende para além do horizonte imediato do conflito, seja pela indução de movimentos adicionais de reorganização de caráter defensivo envolvendo a recomposição de reservas estratégicas e reconfiguração de cadeias globais de suprimento.

"Mesmo assumindo o efetivo cumprimento dos termos do MoU (Memorando de Entendimento), os efeitos do conflito sobre a economia deverão persistir por algum tempo. Contudo, a distensão pode ensejar um movimento de otimismo não totalmente explicado por fundamentos. No horizonte de referência, assume maior importância a determinação do novo nível de equilíbrio de preços, bem como a extensão de seu desvio em relação às expectativas pré-conflito", conclui.

O BC observou que alguns bancos centrais de economias avançadas têm sinalizado a possibilidade de elevar as taxas de juros, enquanto outros já iniciaram esse processo de ajuste, em resposta ao risco de que a alta dos preços de energia se transmita à inflação agregada e às expectativas de inflação nos horizontes de médio e longo prazos.

Avaliou, na sequência, que, em um ambiente de elevada incerteza, a condução da política monetária requer independência e flexibilidade por parte das autoridades monetárias para assegurar a preservação da estabilidade macroeconômica e financeira.

"Nesse contexto, os bancos centrais seguem atentos à dinâmica da inflação cheia e de suas medidas subjacentes, às expectativas de inflação, às condições do mercado de trabalho, ao balanço de riscos e aos desdobramentos geopolíticos no Oriente Médio, reforçando a importância de manter uma política monetária responsiva, assim como de uma comunicação clara e transparente."

Estadão
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