Banco ligado à Universal cedeu à empresa carteira de financiamentos que tinha até carro roubado
Empresa de pastor que também atua no mercado financeiro vendeu operação de consignados ao Digimais e recebeu carteira de financiamentos com altos índices de perdas em pagamento. Negócio envolveu fundo de investimento. Banco não se manifestou
Em mais um movimento que tirou ativos podres de seus balanços, o banco Digimais, do líder da Igreja Universal, Edir Macedo, cedeu uma carteira de financiamentos veiculares que incluía até contrato rescindido judicialmente porque o carro vendido era roubado. A carteira foi repassada a um pastor de outra igreja em um negócio complexo envolvendo fundos de investimentos. Em troca, o banco devia investir em um negócio que envolvia a venda de imóveis por meio de crédito consignado. Mas o banco não teria depositado cerca de R$ 30 milhões prometidos.
A Hatikvah Participações recebeu do Digimais, os direitos creditórios de uma carteira de financiamentos veiculares, no dia 30 de dezembro de 2025. Segundo um contrato obtido pelo Estadão, a empresa comprou a carteira por R$ 255 milhões. Em troca dela, a Hatikvah cedeu, inicialmente, ao banco 35% do Fundo de Investimentos em Participações (FIP) Hatikvah. Hoje, o banco já é dono de 97% do fundo, que, em sua carteira, investe em duas empresas de empreendimentos imobiliários de Gouvêa. O fundo declara que os aportes são de R$ 711 milhões.
A operação é complexa. Na prática, ao averiguar a carteira do fundo, o auditor vai se deparar apenas com o investimento do banco em duas incorporadoras. O fundo Hatikvah é novo e ainda não tem demonstrações financeiras auditadas disponíveis na base de dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), onde esse tipo de documento usualmente é analisado.
Mas o negócio faz com que os contratos de financiamento feitos pelo Digimais agora sejam cobrados pela empresa de Gouvêa. A empresa também vira titular de ações judiciais relacionadas a eles e precisa processar devedores para obter sentenças ou acordos pela quitação dos empréstimos.
Procurado pelo Estadão, o empresário afirmou que ofereceu ao Digimais a operação de empréstimos consignados a servidores públicos de municípios com os quais ele já tem contrato. O negócio, segundo ele, envolve a possibilidade de servidores usarem o crédito para financiar imóveis, que estão em construção nessas cidades e pertencem às duas empresas de empreendimentos imobiliários de Gouvêa.
Gouvêa disse que recebeu a carteira de empréstimos consignados como parte do pagamento do banco. Ele afirma que o Digimais devia ainda investir cerca de R$ 30 milhões no negócio. No entanto, freou toda a operação do consignado em meio à tentativa de venda ao BTG Pactual, mais recente pretendente à aquisição do banco. Afirmou ainda que está até hoje com a carteira, que tem alta inadimplência e que acredita ter tomado prejuízo com o negócio, mesmo após o negócio ter sido encerrado, pois o banco não pagou os R$ 30 milhões prometidos.
Em dezembro de 2025, O Digimais declarou apenas ter investido R$ 1,7 bilhão em Fundos de Investimentos em Participações (FIPs), como é o caso do Hatikvah. Na base de dados da Comissão de Valores Mobiliários, não constam laudos de auditoria do fundo. À época, em sua carteira, constavam apenas investimentos em letras do Tesouro. A auditoria do banco afirma que havia R$ 997 milhões em FIPs que ainda não tinham apresentado demonstrações financeiras para serem escrutinadas.
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