Ataques a campo de gás de South Pars, o maior do mundo, no foco da escalada da guerra no Oriente Médio
Os preços do gás e do petróleo dispararam na quinta-feira (19), após ataques iranianos contra a infraestrutura energética no Golfo. Teerã prometeu uma vasta retaliação em resposta ao ataque ao campo de gás de South Pars, o maior do mundo, que compartilha com o Catar - e garantiu que não vai tolerar novos bombardeios.
A guerra lançada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã pode ter entrado em uma nova fase. Desde 28 de fevereiro, os ataques visavam principalmente instalações militares, embora algumas infraestruturas energéticas já tivessem sido atingidas, incluindo instalações de armazenamento, refino e transporte. Mas, desde quarta‑feira, 18 de março, instalações de produção de gás e petróleo têm sido alvejadas diretamente - com impactos mundiais.
Entre os alvos estava o complexo de Ras Laffan, no Catar, o maior centro de liquefação de gás natural (GNL) do mundo, atingido na noite de quarta para quinta‑feira. Na sequência, ataques atribuídos a Israel atingiram instalações no vasto complexo de South Pars, no Irã, que Teerã compartilha com Doha. Além de sua posição única, abrangendo as águas do Catar e do Irã, South Pars é, de longe, o maior campo de gás do mundo.
20% das reservas globais
O reservatório, localizado a 3 quilômetros abaixo do leito marinho, cobre 9.700 quilômetros quadrados e contém cerca de 50 trilhões de metros cúbicos de gás, representando aproximadamente 20% das reservas globais conhecidas. O local é altamente estratégico para o Irã, que o designou como uma linha vermelha no conflito.
"A reação do Irã era totalmente previsível: Israel atacou o coração da economia iraniana", disse à RFI Anne‑Sophie Corbeau, pesquisadora do Centro de Políticas Globais de Energia da Universidade de Columbia.
O campo fornece quase três quartos do consumo de gás do Irã e é utilizado para o aquecimento das casas e para a cozinha, entre outros usos. Teerã vinha alertando há meses que, em caso de ataque às suas instalações, toda a infraestrutura energética da região seria alvo.
A resposta iraniana, lançada em questão de horas contra vários países do Golfo, segue essa lógica. A mensagem é clara: o Irã não tolerará qualquer interferência em suas instalações.
Para o Catar, esse campo de gás constitui a base do poder energético do emirado, o segundo maior exportador mundial de GNL, atrás dos Estados Unidos. Seus hidrocarbonetos representaram 83% da receita pública em 2023, de acordo com um relatório de 2025 da Administração de Informação Energética dos EUA (EIA).
Segundo Doha, dois mísseis balísticos que tinham como alvo Ras Laffan foram interceptados, mas um incêndio, agora sob controle, causou danos significativos, de acordo com a empresa estatal QatarEnergy, alimentando temores sobre o fornecimento global de energia.
Escalada perigosa
Condenando um "ataque brutal iraniano" a Ras Laffan, o Ministério das Relações Exteriores do Catar denunciou uma "escalada perigosa, uma violação flagrante de sua soberania e uma ameaça direta à sua segurança nacional".
Em sua plataforma Truth Social, o presidente americano, Donald Trump, saiu em defesa de seus aliados em Doha: se o Irã "atacar" o Catar novamente, escreveu ele, "os Estados Unidos da América, com ou sem […] Israel, destruirão massivamente todo o campo de gás de South Pars com uma força e um poder que o Irã nunca viu ou conheceu antes", ameaçou.
Isso faria os preços do petróleo e do gás dispararem novamente. Especialistas temem consequências a longo prazo, já que o local sozinho produz cerca de um quinto do GNL exportado em todo o mundo.
O Irã também exporta parte de seu gás para o Iraque e a Turquia, o que pode afetar o fornecimento regional, segundo o Instituto para o Estudo da Guerra (ISW).
O CEO da QatarEnergy disse à Reuters que o ataque deixou cerca de 17% de sua capacidade de exportação de GNL fora de operação. Duas das 14 unidades de liquefação de GNL do Catar e uma de suas duas instalações de gás para líquidos (GTL) foram danificadas. Os reparos resultarão em uma perda de cerca de 12,8 milhões de toneladas de GNL por ano durante três a cinco anos, afirmou ele.
"Este ataque tem grandes repercussões para o fornecimento global de energia", salientou Mohammed ben Abdelrahmane al‑Thani, primeiro‑ministro e chefe da diplomacia catarense, em coletiva de imprensa nesta quinta-feira. "Tais ataques não trazem nenhum benefício direto a nenhum país. Pelo contrário, causam danos e têm um impacto direto na população."
No X, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, alertou que a resposta de Teerã mobilizou apenas "uma fração" de suas capacidades, prometendo "zero contenção" caso sua infraestrutura seja alvo de novos ataques.