Ata do Copom: BC defende política fiscal 'anticíclica' para ajudar a levar inflação à meta
Colegiado reafirmou a visão de que força menor na busca por reformas e disciplina fiscal, aumento do crédito direcionado e incerteza sobre a dívida pública podem elevar taxa de juros neutra
BRASÍLIA - O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central afirmou que uma política fiscal que atue de forma contracíclica favorece a convergência da inflação para o centro da meta, de 3%. O colegiado repetiu que o debate no último encontro reforçou a necessidade de políticas fiscal e monetária harmoniosas. As mensagens constam na ata da reunião de agosto do colegiado, publicada nesta terça-feira, 11.
Na última reunião do Copom, encerrada na quarta-feira, 5, o colegiado cortou a taxa Selic em 0,25 ponto porcentual, de 14,25% para 14% ao ano. Foi o quarto corte consecutivo.
O Copom manteve ainda, na Ata, uma "firme" posição de que as políticas pelo lado fiscal devem ser "previsíveis, críveis e anticíclicas". Além disso, reafirmou a visão de que a perda de força na busca por reformas e disciplina fiscal, o aumento do crédito direcionado e as incerteza sobre a trajetória da dívida pública podem elevar a taxa de juros neutra da economia.
O Comitê repetiu o alerta de que isso também causa "impactos deletérios sobre a potência da política monetária e, consequentemente, sobre o custo de desinflação em termos de atividade".
O Comitê disse ainda que a magnitude do ciclo dos juros será ajustada "à luz da evolução do cenário". Segundo o colegiado, choques de oferta têm influenciado a trajetória recente e a prospectiva da inflação. "O Copom avalia que não deve reagir aos efeitos primários de choques dessa natureza, mas que é necessário monitorar com atenção eventuais efeitos de segunda ordem, e reagir com firmeza caso esses efeitos se materializem", diz a Ata.
De acordo com o documento, o Copom monitora com atenção eventuais efeitos de segunda ordem porque é necessário reagir com firmeza se esses efeitos se materializarem. A cúpula do Banco Central disse ainda que as evidências de transmissão da política monetária para atividade econômica têm se acumulado gradualmente, mas a inflação permanece pressionada pela demanda, exigindo política monetária restritiva.
"Embora a política monetária esteja contribuindo de forma determinante para o processo de desinflação, a inflação permanece pressionada pela demanda, exigindo que a política monetária mantenha caráter restritivo", escreve a ata.
Expectativas de inflação desancoradas
O documento do Copom diz que o BC monitora com atenção a desancoragem adicional das expectativas de inflação para prazos mais longos e tem debatido as possíveis causas desse movimento.
"As expectativas de inflação, medidas por diferentes instrumentos e obtidas de diferentes grupos de agentes, permanecem acima da meta de inflação em todos os horizontes. Foi ressaltado que o custo de desinflação sobre o nível de atividade ao longo do tempo é maior em ambientes com expectativas desancoradas", diz a Ata.
O Copom avaliou, apesar disso, que a "perseverança, firmeza e serenidade na condução da política monetária contribuirão para a reancoragem das expectativas", que destacou ser importante para a convergência da inflação à meta com menor custo.
"A principal conclusão obtida, e compartilhada por todos os membros do Comitê, foi a de que, em um ambiente de expectativas desancoradas, como é o caso do atual, exige-se uma restrição monetária maior e por mais tempo do que outrora seria apropriado", diz o documento.
Espaço para mais corte nos juros?
Na avaliação da equipe de estratégia da Warren Rena, formada por Luis Felipe Vital, Cecília Mazzoni e Felipe Figueiró, a Ata do Copom reforçou a mensagem de firmeza e manteve a Selic em patamar restritivo, mas não descartou a continuidade dos cortes de 0,25 ponto no processo de calibragem da taxa básica de juros. "É um BC disposto a manter ritmo lento no ciclo de calibração", avaliam os analistas.
Segundo a Warren, o Comitê reconhece que a atual política monetária, bastante contracionista, já acumula efeitos sobre a economia e tem contribuído para o processo de desinflação. Ainda assim, a inflação segue pressionada pela demanda, o que justifica, na leitura dos analistas, a manutenção do caráter restritivo da política monetária.
Já a avaliação de José Alfaix, economista da Rio Bravo Investimentos, é que o documento trouxe um tom comparativamente mais agressivo em relação à última divulgação do colegiado. Segundo ele, o Banco Central optou por abandonar o forward guidance (indicação dos passos futuros) diante do crescimento de preocupações com o cenário prospectivo. "A ata reforça a visão de que melhoras adicionais serão necessárias para a continuidade do ciclo de afrouxamento", avalia.
Para o economista, as expectativas de inflação talvez sejam o ponto principal de incômodo do Banco Central no momento. Ele pondera que, mesmo com a taxa básica de juros em patamar tão restritivo, ainda não se observa convergência das expectativas ao centro da meta, de 3%, nos prazos mais longos registrados pelo boletim Focus. Segundo Alfaix, mesmo com a queda projetada para o IPCA de 2026, as projeções dos economistas consultados pelo Focus seguem em 4,22% para 2027 e 3,8% para 2028.
Este último prazo, diz, é o de maior preocupação para a autoridade monetária, uma vez que implica maior ceticismo do mercado quanto ao cumprimento do mandato do Banco Central. / Colaborou Letícia Correia
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