Armazenamento de energia: o que falta para destravar esse mercado, segundo associação do segmento
No Energy Summit, o CEO da ABSAE aponta falta de definição de regras de licenciamento e revisão do mercado de serviços de suporte tanto para baterias quanto para hidrelétricas
RIO - A principal agenda regulatória no curto prazo para destravar o mercado de armazenamento via baterias no Brasil recai no avanço dos mecanismos de resposta da demanda e tarifação horária. A avaliação foi feita pelo diretor executivo da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (ABSAE), Fábio Lima, em um dos últimos painéis do primeiro dia do Energy Summit 2026, na terça-feira, 23.
"Com essas duas frentes vamos começar a dar sinal de preço ao BESS (Battery Energy Storage System) distribuído e centralizado", destacou o executivo, acrescentando a questão da previsibilidade de receitas para atração do mercado e criação de uma nova indústria no País. O que passará, inevitavelmente, pela realização de leilões para mais atributos de flexibilidade e potência ao sistema elétrico a partir de 2028.
"Acredito em decisões centralizadas, controladas pelo planejamento, mas via investimentos descentralizados e que oneram menos o consumidor final", disse. O dirigente defendeu que se avance com um modelo de custo correto da Micro e Minigeração Distribuída (MMGD), que precisa "urgentemente" de baterias.
Além disso, ele aponta a geração centralizada também indo para esse caminho, inclusive com as baterias devendo entrar como requisito obrigatório desde o começo desses ativos. E com o sinal regulatório desse pacote apontando para um modelo centralizado, com despacho coordenado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). "É consolidar a agenda dos leilões e minimizar os encargos para uma energia mais baseada em decisões distribuídas dos agentes", complementou.
Regras de licenciamento e fontes de receita entre os desafios
Atualmente o setor elétrico se encontra na etapa de implementação do marco regulatório do armazenamento. No entanto, ainda pairam desafios relacionados à remuneração dos serviços prestados, à definição de modelos de negócios sustentáveis e à integração plena dessas tecnologias ao mercado de energia elétrica.
Com esses avanços, soluções capazes de equilibrar a oferta e a demanda de energia em diferentes escalas temporais poderão trazer maior resiliência à rede, ajudando também a reduzir o curtailment (corte por excesso de oferta de energia) da eólica e solar.
Apesar desse potencial, a adoção dessas soluções no Brasil ainda ocorre de forma limitada quando comparada a mercados mais maduros, como os Estados Unidos, a China e alguns países europeus. Por aqui ainda persistem questões relacionadas à definição do enquadramento jurídico dessas tecnologias, remuneração dos serviços prestados, estrutura tarifária, mecanismos de contratação e aos sinais econômicos necessários para viabilizar investimentos.
Em junho de 2026, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou a regulamentação dos Sistemas de Armazenamento de Energia (SAEs), estabelecendo regras para exploração da atividade, empilhamento de receitas, contratação de uso da rede e participação do ONS na coordenação desses ativos.
Além disso, o governo federal deu um passo importante ao publicar as diretrizes para o primeiro leilão brasileiro de reserva de capacidade voltado exclusivamente para baterias, previsto para 2026. A iniciativa busca contratar armazenamento em larga escala para reforçar a confiabilidade do Sistema Interligado Nacional (SIN).
Na análise de Fábio Lima, da ABSAE, o segmento ainda precisa de uma definição de regras de licenciamento, além de outras fontes de receita, revendo o mercado de serviços ancilares tanto para baterias como para hidrelétricas, o que irá permitir o empilhamento de receitas.
"Nossa visão desse leilão é de encapsulamento de receita, com todos os serviços ali dentro. E o que vemos acontecendo daqui pra frente é a resposta da demanda, armazenamento como requisito, tarifa horária e novas regras de precificação, o que acontecerá nos próximos anos", afirmou.
Já a CEO da Comerc Energia, Clarissa Sadock, ressaltou a importância da previsibilidade dos investimentos e que é natural que o setor avance de forma gradual para sua evolução, citando o benefício do REIDI e a incidência de 80% de impostos sobre as baterias como pontos fundamentais a serem debatidos. "Tem muita coisa para fazer, mas vamos dando um passo de cada vez para avançar de forma consistente", avaliou.
Ademais, a executiva entende ser plausível o porcentual de 15% do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) quanto a obrigatoriedade de conteúdo nacional nos projetos envolvendo os equipamentos dessa indústria. Isso porque um porcentual mais elevado poderia tirar possibilidades de fornecedores e aumentar o custo do produto final."Devemos ter a indústria nacional mas sem reduzir a opção de fornecedores", conclui.
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