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Argentina planeja ir à OMC contra o Brasil por medidas antidumping sobre o leite em pó importado

País vizinho contesta decisão tomada pela Câmara de Comércio Exterior em 29 de maio, dias depois de outro atrito entre os dois integrantes do Mercosul

23 jun 2026 - 15h45
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BRASÍLIA - O governo argentino pretende acionar a Organização Mundial do Comércio (OMC) contra a aplicação, pelo Brasil, de medidas antidumping sobre o leite em pó importado da Argentina, relatam ao Estadão/Broadcast Agro pessoas a par do assunto. Autoridades do país vizinho contestam a decisão do governo brasileiro, proferida pela Câmara de Comércio Exterior (Camex) em 29 de maio, de direito antidumping definitivo por até cinco anos sobre leite em pó importado da Argentina e do Uruguai.

A aplicação da medida, contudo, está suspensa temporariamente para avaliação de eventual impacto inflacionário. A retaliação argentina não deve se restringir ao acionamento da OMC e deve envolver medidas em outras frentes comerciais.

Diplomatas argentinos afirmam que o reconhecimento de dumping pelo governo brasileiro vai atrapalhar negociações em andamento entre os países, bem como pode levar o país a rever decisões anteriores. Uma das medidas potenciais é a retomada do direito antidumping contra o Brasil sobre suposto dumping em relação à importação de talheres de aço inoxidável. A sobretaxa de 47% aplicada ao longo de seis anos, que atingia empresas brasileiras como Tramontina e Mundial, foi suspensa em junho de 2024, atendendo a um pedido do governo Lula.

As medidas em resposta ao Brasil, segundo pessoas a par do assunto, estão sendo estudadas pelo Ministério da Economia e pelo Ministério das Relações Exteriores da Argentina. Procuradas, as pastas não responderam.

Qual é o peso do leite em pó para as exportações argentinas?

A insatisfação do governo argentino se deve sobretudo ao peso das exportações de leite na balança comercial argentina, ao mesmo tempo que o fluxo comercial entre os países é deficitário para os argentinos. O produto está entre os mais comercializados pelo país.

O Brasil é o principal destino do leite argentino, utilizado sobretudo pela indústria alimentícia, com embarques que ultrapassaram US$ 364 milhões. "É uma balança deficitária à Argentina, com embarques do Brasil concentrados em produtos de alto valor agregado, como os carros", ponderou um dos interlocutores.

Na OMC, a Argentina vai questionar os critérios adotados pelo Brasil na investigação. Para o governo argentino, o governo brasileiro errou ao comparar a similaridade entre o leite cru e o leite em pó. "A decisão não se sustenta e abre precedente para interpretações técnicas distintas", diz um diplomata. "Houve um movimento político do governo brasileiro para responder aos produtores em ano eleitoral", apontou. O Uruguai, atingido pela medida como a Argentina, também estuda o acionamento da OMC.

Para os interlocutores, há semelhança na medida brasileira às ações protecionistas de produtores franceses contra produtos do Mercosul. "É como o caso da carne. Querem resolver a falta de competitividade do produto por manobra comercial", avaliou outra fonte.

Na investigação, que se estendeu por mais de um ano, o Departamento de Defesa Comercial do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Decom/Mdic), que conduziu o processo, apurou dumping sobre o leite em pó importado do Mercosul e nexo causal quanto à crise no setor leiteiro nacional.

Para a diplomacia argentina, a medida do direito antidumping escala ainda as relações técnicas e diplomáticas entre os países, justamente em um momento em que há distanciamento político entre os presidentes Javier Milei e Luiz Inácio Lula da Silva. "Esse tipo de decisão política contamina o andamento das discussões técnicas. Até então, o alinhamento técnico permanecia, embora os governos não se considerassem tão amigos", observou outro diplomata.

O primeiro atrito depois do acordo Mercosul-UE

A medida que gerou a reação argentina foi adotada dias após um atrito relativo ao Mercosul. A falta de consenso sobre a divisão interna das cotas agrícolas do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia gerou a primeira disputa direta entre os países do bloco sul-americano. Aproveitando o critério transitório First-In, First-Out (Fifo), segundo o qual preenche o teto quem registrar as exportações primeiro, a Argentina e o Uruguai esgotaram integralmente as cotas isentas de tarifas para produtos como arroz e ovos nesse primeiro mês de vigência do tratado, iniciado em 1º de maio.

O movimento frustrou novas solicitações de licenças de exportadores brasileiros e expôs as assimetrias operacionais na largada do livre-comércio transatlântico.

Segundo dados divulgados por autoridades regionais na terceira semana de maio, a cota anual de 6.667 toneladas de arroz destinada ao bloco para 2026 havia sido totalmente preenchida.

Servidora do Ministério de Economia e Finanças do Uruguai, Valeria Csukasi detalhou em sua conta na rede social X que o país capturou 63% desse volume total, feito também celebrado pelo presidente do país, Yamandú Orsi. O restante da cota de arroz foi coberto pela Argentina.

No segmento de ovos, o ministro da Desregulação e Transformação do Estado da Argentina, Federico Sturzenegger, informou que os produtores argentinos garantiram 100% da cota com preferência tarifária para o mercado europeu, além de uma fatia expressiva no mercado de mel.

Segundo o ministro, o desempenho foi impulsionado pela agilidade da nova guia digital da Janela Única de Comércio Exterior (VUCE) argentina, lançada no dia 3 de maio.

Estadão
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