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Prisão de Temer pode atrapalhar reformas, dizem analistas

Instabilidade no mundo político e maior espaço na agenda para temas ligados à corrupção podem atrasar tramitação da reforma da Previdência

21 mar 2019
13h41
atualizado às 13h57
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Economistas e analistas políticos acreditam que a prisão do ex-presidente Michel Temer, deflagrada nesta quinta-feira, 21, pode ter impacto na tramitação da reforma da Previdência no Congresso Nacional. Na opinião deles, a crise política instaurada pode ser ainda maior caso atinja o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, de quem Moreira Franco, também preso nesta manhã, é sogro.

Segundo o analista político da Tendências Consultoria Integrada Rafael Cortez, o episódio pode ter impactos negativos. "Em primeiro lugar, vai gerar instabilidade no mundo político, roubar espaço da agenda e dificultar a montagem de uma coalizão em torno da reforma. Em segundo lugar, vai gerar incentivos para o presidente Bolsonaro contrapor a política tradicional", disse Cortez.

Prisão de Michel Temer foi deflagrada nesta quinta-feira, 21, pela Polícia Federal.
Prisão de Michel Temer foi deflagrada nesta quinta-feira, 21, pela Polícia Federal.
Foto: Agência Brasil / Estadão Conteúdo

Para ele, muito provavelmente a prisão deverá ser seguida de declarações do núcleo "familiar bolsonarista contra a política tradicional", disse o analista da Tendências.

Para Cortez, essa atuação tem sido uma opção do governo e muita colada à estratégia de campanha do Bolsonaro, que conduz seu governo para uma estratégia plebiscitária.

Já Raphael Figueredo, analista da Eleven Financial, acredita que a prisão do ex-presidente deve afastar o investidor estrangeiro do País. Segundo ele, a notícia também deve impactar o andamento da reforma da Previdência, prejudicando o mercado acionário, que apostava na aprovação do projeto no curto prazo.

"O investidor brasileiro já está mais cascudo com a Lava Jato. Ele lida com essa questão todos os dias. Mas o impacto da prisão de mais um ex-presidente deve ser muito forte no exterior e afastar o investidor internacional em um momento que dependemos muito do capital internacional nas privatizações, no leilão dos portos e nas captações. Do ponto de vista do mercado, é bom entender o quanto desse noticiário pode atrapalhar a reforma da Previdência. A prisão de Temer tira o foco da reforma", afirmou.

"A bolsa perseguiu rigorosamente os 100 mil pontos. Mostrava fôlego e tinha uma perspectiva forte de crescimento, mas o noticiário vem com força. No curto prazo, o cenário é mais correção de preço, com bolsa caindo", completou.

Para o economista-chefe da Necton, André Perfeito, "a prisão do ex-presidente Michel Temer joga gasolina nas tensões entre a classe política e as forças da Lava Jato".

Com isso, de acordo com o economista, torna-se mais complexo um acerto a favor das reformas. "Ontem o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, já havia feito críticas ao ministro da Justiça, Sergio Moro, num gesto que pode ser lido como parte deste xadrez entre legislativo e judiciário", disse Perfeito.

Segundo o economista da Necton, tudo isso em conjunto evidencia que haverá maior incerteza política num momento que o presidente Bolsonaro não está com sua capacidade de articulação plena. Para Perfeito, ao indicar o ex-juiz Sérgio Moro para a pasta da Justiça, Bolsonaro contratou alguém que não pode ser demitido. "E Sérgio Moro hoje é um passivo para o presidente que tem que construir com o Congresso uma articulação ampla em direção das reformas", alertou.

Já o cientista político Vitor Oliveira, diretor da consultoria Pulso Público, afirmou que a prisão de Michel Temer só afetará a reforma da Previdência se o caso chegar ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que tem liderado a articulação política da reforma e é genro de Moreira Franco, ex-ministro de Temer e também preso hoje.

"A menos que haja um vínculo muito claro entre essas prisões e o Rodrigo Maia, não terá nenhum efeito na tramitação na reforma da Previdência", disse Oliveira.

O cientista político alertou também para a possibilidade de o caso, que reforça o movimento de combate à corrupção, forçar uma troca de prioridades do governo na agenda do Congresso, priorizando o pacote anticorrupção do ministro Sergio Moro (Justiça) no lugar da Previdência. "Mas esse é um cenário bem pouco provável", ponderou.

Oliveira também vê pouca chance de a prisão de Temer afetar o ambiente político do Congresso por meio do MDB, partido de Temer. "O MDB não é mais figura central do processo legislativo, não só porque está com uma bancada menor, mas também por causa de uma mudança de eixo na competição partidária, que fez o DEM ocupar o papel de centrista antes ocupado pelo MDB", disse.

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Estadão

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