Alemanha assume fatia na maior fabricante europeia de tanques de guerra
Em meio a tensões geopolíticas e buscando reforçar controle sobre indústria de defesa, governo alemão comprará participação de 40% na fabricante europeia de tanques KNDS, mesma fatia a ser controlada pela França.O governo alemão anunciou nesta semana que pretende adquirir 40% da empresa KNDS, a maior fabricante de tanques de guerra da Europa, num movimento para fortalecer o controle estratégico do Estado sobre indústria de defesa em tempos de tensões geopolíticas.
Com a medida, a Alemanha vai se equiparar à França, que também controla uma fatia da KNDS.
Espera-se que a participação valha cerca de 6 bilhões de euros (R$ 35,44 bilhões), dependendo da avaliação da empresa. O plano foi aprovado nesta sexta-feira (26/06) pelo comitê de Orçamento do Bundestag, o Parlamento alemão.
A França atualmente detém 50% da KNDS. Em comunicado conjunto, os países disseram que concordaram sobre "a estratégia e a governança" da empresa, e que pretendem manter níveis iguais de participação no futuro.
Segundo várias reportagens citando fontes próximas às negociações, a França deve em breve reduzir sua participação para 40%, para que ambos os governos tenham a mesma fatia. Os 20% restantes devem ser vendidos numa oferta pública inicial (IPO) a ser realizada nas bolsas de Frankfurt e Paris
Berlim tomou a iniciativa após a Wegmann & Co, uma holding das famílias que detêm parte da KNDS, decidir vender as ações.
A KNDS é a maior fabricante de tanques da Europa, produzindo os tanques de batalha alemães Leopard 2 e os franceses Leclerc, além de trabalhar em um sistema de combate terrestre de última geração. Ela foi criada em 2015 a partir da fusão da empresa alemã familiar Krauss-Maffei Wegmann com a fabricante francesa de armas Nexter, controlada pelo governo.
Stefan Kornelius, porta-voz do governo alemão, afirmou que o acordo "tem como objetivo proteger os interesses federais" e que "a participação da Alemanha na KNDS garantirá influência de longo prazo sobre uma empresa que é estrategicamente importante para a segurança europeia e as capacidades de defesa".
No comunicado conjunto, os governos afirmaram: "A ambição compartilhada da França e da Alemanha é clara: desenvolver a KNDS como uma empresa de defesa líder na Europa e no mundo, atendendo às forças armadas francesas e alemãs."
Assumindo controle direto de empresas de defesa
O acordo gerou questionamentos, pois dá continuidade a uma tendência recente do governo alemão de adquirir participações diretas em grandes empresas de defesa.
Marco Becht, professor de governança corporativa na Universidade Livre de Bruxelas (ULB), afirma que a Alemanha era, até então, relativamente atípica em comparação com outros países europeus por ter poucas participações diretas em empresas.
No entanto, ele acredita que o acordo aponta para o desejo de Berlim tanto de se beneficiar de possíveis lucros futuros quanto de exercer maior controle estratégico em um setor de defesa cada vez mais importante.
"A lógica é: por que deixamos todo o dinheiro a ser ganho para investidores privados? E por que o Estado não ganha dinheiro com essas empresas sendo acionista?"
Declan Power, analista de defesa e segurança do Instituto de Assuntos Internacionais e Europeus (IIEA, na sigla em inglês), afirma que o acordo é importante principalmente porque mostra uma forte disposição de França e Alemanha em reforçar sua própria capacidade de defesa.
"A Europa fala muito sobre isso, mas esse acordo é um passo concreto para assumir o controle de suas próprias capacidades de produção de defesa", disse Power à DW.
Ele também acredita que é vital que os governos europeus tenham mais controle direto sobre empresas de defesa. "A essência da responsabilidade de um Estado, especialmente um Estado democrático, é a proteção de seu território e de seu povo", afirmou.
Em seu comunicado, o governo alemão destacou a importância da defesa na Europa desde a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia em 2022. "Essa situação geopolítica exige uma expansão das capacidades da indústria de defesa."
Becht afirma que isso também implica um movimento por maior controle. Embora o governo já exerça considerável influência sobre o setor por meio da Lei de Controle de Armas de Guerra, que regula o licenciamento da produção e venda de armamentos, isso não necessariamente se traduz em influência corporativa direta.
Esse acordo com a KNDS é um dos vários que sugerem uma mudança nesse sentido. Quando o construtor de submarinos Thyssenkrupp Marine Systems (TKMS) abriu capital em outubro de 2025, o governo alemão garantiu direitos especiais de aconselhamento e de indicação ao conselho de supervisão como parte do IPO.
Em 2021, o banco público alemão KfW adquiriu uma participação de 25,1% na empresa de radares militares Hensoldt. O Estado também possui cerca de 11% das ações do gigante aeroespacial e de defesa Airbus.
"Se você observar esses casos, o Estado alemão parece ter passado a se interessar mais pelo setor de defesa e querer se envolver mais", diz Becht.
A questão franco-alemã
O acordo com a KNDS é significativo não apenas por causa das ambições individuais de defesa da Alemanha, mas também pela relação bilateral franco-alemã no setor.
O entendimento ocorre após o colapso do projeto de caça FCAS, uma parceria de defesa franco-alemã planejada há anos, que acabou fracassando devido a divergências entre a divisão alemã da Airbus e a francesa Dassault sobre o controle do projeto.
O fim desse acordo evidenciou tensões na relação franco-alemã, que é central para a soberania de defesa europeia. As negociações para o acordo da KNDS também se arrastaram por vários meses, indicando dificuldades.
A Alemanha destacou a importância de trabalhar em estreita colaboração com a França, afirmando que o acordo "tem como objetivo fortalecer a cooperação bilateral e europeia em defesa, sendo a colaboração com a França um elemento-chave".
Berlim também enfatizou que atuará "em diálogo próximo e em condições de igualdade com seus parceiros franceses".
Assertividade alemã?
Declan Power afirma que, na área de defesa, a França tende a tentar controlar a relação com a Alemanha. "Acho que a reação natural deles é sempre tentar manter uma posição dominante", disse.
No entanto, ele acredita que a relação franco-alemã no setor de defesa prosperará se for mais baseada em uma colaboração industrial concreta, como neste acordo. "Quando a indústria entra na equação e há colaboração entre empresas alemãs e francesas no nível operacional, isso melhora o mecanismo", afirmou.
Mas o professor Marco Becht argumenta que, do ponto de vista alemão, o acordo é tanto sobre colaboração quanto sobre demonstrar sua crescente capacidade e força no setor de defesa frente à França.
"Isso mostra uma nova disposição alemã de ser mais assertiva e fazer menos concessões", disse. "A Alemanha está cada vez mais preparada para dizer 'não', em vez de concordar com algo apenas para acomodar a França."
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