Air France e Airbus contestam responsabilidade de pilotos no acidente Rio-Paris
A Air France e a Airbus entraram em conflito sobre o papel dos pilotos no acidente aéreo que matou 228 passageiros e tripulantes no meio do Atlântico há mais de 16 anos, enquanto as duas empresas lutavam contra acusações de homicídio culposo corporativo no clímax de um julgamento de apelação de oito semanas, nesta quinta-feira.
A divergência surgiu nos argumentos finais, depois que os promotores reiteraram o pedido de multa máxima de 225.000 euros para cada empresa pela alegada negligência na perda do voo AF447, uma penalidade simbólica recebida pelos familiares como um reconhecimento de seu sofrimento.
A audiência é a etapa mais recente de uma longa batalha judicial sobre a queda de um avião de passageiros Airbus A330, que desapareceu dos radares em 2009 durante uma tempestade equatorial, partindo do Rio de Janeiro para Paris.
Na quarta-feira, os procuradores instaram o Tribunal de Apelações de Paris a reverter a decisão de um tribunal inferior que havia absolvido ambas as empresas em relação ao acidente, e na quinta-feira foi a vez de ambas as empresas apresentarem sua defesa, encerrando um julgamento de 60 dias.
Investigadores de segurança franceses descobriram, após recuperarem as caixas-pretas dois anos depois, que os pilotos reagiram de forma desajeitada a um problema de congelamento de um sensor, o que deixou o avião temporariamente incapaz de calcular sua velocidade, antes de entrar em estol. Mas o julgamento se concentrou em problemas anteriores com o mesmo tipo de sensor, bem como em supostas deficiências no compartilhamento de dados e no treinamento, que, segundo a acusação, causaram indiretamente o acidente. Nas alegações finais, a Air France prestou homenagem às famílias enlutadas e negou as alegações de que a tripulação não tinha treinamento adequado para lidar com estol ou emergências em grandes altitudes. Tanto a companhia aérea quanto a promotoria afirmaram que os pilotos não eram culpados.
A Airbus, no entanto, corroborou as conclusões dos investigadores franceses de acidentes civis, que anteriormente questionaram a resposta da tripulação à perda de dados e à falha no cumprimento dos procedimentos.
Agora, espera-se que os juízes levem meses para chegar a um veredicto. Seja qual for o resultado, especialistas dizem que provavelmente haverá mais recursos, o que pode prolongar o processo por anos.
MULTA MÁXIMA
As audiências ocorreram em um tribunal onde alguns dos capítulos mais dramáticos da França foram escritos, incluindo os julgamentos do fantoche nazista Philippe Pétain e dos autores da tentativa fracassada de golpe militar de 1961, conhecida como Putsch de Argel. Agora, é o setor da aviação do país que está sob escrutínio, com duas das empresas estatais mais emblemáticas da França lutando por sua reputação. Em suas alegações finais na quarta-feira, o promotor Rodolphe Juy-Birmann acusou ambas as empresas de atos de negligência que levaram ao acidente e dirigiu críticas particularmente duras à Airbus, que ele acusou de fornecer informações ao tribunal a conta-gotas. A Airbus afirmou ter feito o possível para ajudar o tribunal a entender o acidente. Ambas as empresas negaram repetidamente as acusações.
Familiares se abraçaram após as cinco horas de alegações finais da acusação, que alguns descreveram como catárticas em contraste com as cenas de raiva durante o julgamento anterior. "Em 16 anos, esta é a primeira vez que somos tratados com respeito e humanidade", disse a presidente da associação de vítimas, Daniele Lamy, que perdeu o filho no voo AF447.
O advogado da Air France, François Saint-Pierre, rejeitou as alegações dos advogados dos familiares de que a companhia aérea e a Airbus teriam firmado um "pacto de não agressão" e afirmou que a causa exata de um dos acidentes mais debatidos da indústria aeronáutica permanece um mistério.
Em 2012, a agência francesa de investigação de acidentes aéreos afirmou que a tripulação da Air France, surpreendida, lidou mal com a situação após uma perda temporária de dados de velocidade devido ao congelamento dos sensores. Em seguida, não reconheceu que a aeronave em queda livre havia entrado em estol, ou perdido sustentação, apesar dos repetidos alarmes. A agência também apontou falhas no treinamento e informações pouco claras nos painéis de instrumentos.
Para provar homicídio culposo, os promotores não devem apenas comprovar negligência, mas também demonstrar como ela desencadeou a tragédia. O tribunal de primeira instância decidiu em 2023 que ambas as empresas foram negligentes, mas que não foi estabelecido nexo causal.