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Três novelas simbolizam o talento, a ousadia e o amor ao Brasil de Benedito Ruy Barbosa

Autor olhou para o interior do país e valorizou perfis muitas vezes subestimados pela televisão

7 jul 2026 - 09h18
(atualizado às 09h18)
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A morte de Benedito Ruy Barbosa, aos 95 anos, encerra uma das carreiras mais bem-sucedidas da teledramaturgia brasileira. 

Poucos autores conseguiram transformar novelas em retratos tão ricos da identidade nacional. 

De sua vasta e diversificada obra, três títulos resumem a extraordinária capacidade de criar universos fascinantes e, ao mesmo tempo, a coragem para desafiar convenções artísticas, políticas e comerciais.

Quando escreveu ‘Meu Pedacinho de Chão’, em 1971, Benedito provocou os censores da ditadura militar.

Construiu uma narrativa que defendia a educação como instrumento de transformação social, não apenas para as crianças, mas também para os adultos analfabetos.

A novela exaltava o amor à Pátria e a valorização da liberdade de pensamento e de expressão. Em vez de discursos explícitos, o autor preferiu transmitir seus valores por meio de personagens simples e conflitos cotidianos.

Houve um remake em 2014, com visual fantasioso, que não agradou como a produção original.

O paulista 'caipira' Benedito Ruy Barbosa escreveu novelas que valorizaram o Brasil rural e o povo simples com rica identidade cultural
O paulista 'caipira' Benedito Ruy Barbosa escreveu novelas que valorizaram o Brasil rural e o povo simples com rica identidade cultural
Foto: Montagem: Sala de TV

Em 1990, o autor voltaria a subverter o senso comum da televisão com ‘Pantanal’. O projeto foi recusado pela direção da Globo, que não acreditava no potencial comercial daquela história profundamente ligada ao meio rural. 

Em vez de abandonar a ideia, o autor buscou espaço na extinta Rede Manchete. O resultado entrou para a história. 

A novela tornou-se um fenômeno de audiência, superando em diversos momentos a então aparentemente inatingível liderança da Globo. 

Foi a confirmação de que existia um público interessado em ver na TV um Brasil distante dos grandes centros urbanos. 

Ao transformar a natureza em protagonista, ‘Pantanal’ também antecipou discussões que se tornariam cada vez mais relevantes, como a preservação ambiental e a valorização do agronegócio para a economia do país.

O remake exibido em 2022 teve bom desempenho no Ibope, mas sem o mesmo impacto da versão original.

Aquele Brasil rural, ‘pé no chão’, voltaria a ser destacado pelo dramaturgo em outras produções, como ‘O Rei do Gado’ (1996) e ‘Velho Chico’ (2016).

Benedito Ruy Barbosa gostava de escrever novelas com contextos históricos ligados às raízes de um Brasil plural
Benedito Ruy Barbosa gostava de escrever novelas com contextos históricos ligados às raízes de um Brasil plural
Foto: Reprodução

Em 1999, Benedito Ruy Barbosa mostrou mais uma vez que não tinha receio de contrariar tendências. 

Enquanto a faixa das 21h da Globo era dominada por histórias contemporâneas, ele apostou em uma grande novela de época. 

‘Terra Nostra’ reviveu a imigração italiana para o Brasil, tema que já o havia inspirado ‘Os Imigrantes’, escrita por ele na Rede Bandeirantes no início da década de 1980.

O folhetim clássico elevou significativamente a audiência da Globo, recuperando quase seis pontos na média do horário, e conquistou um enorme envolvimento emocional do público. 

Milhões de brasileiros passaram a enxergar naquela ficção um reflexo da própria história familiar. Houve uma corrida aos consulados para conseguir o reconhecimento da cidadania italiana.

Há um elemento que une essas três obras aparentemente tão diferentes: Benedito Ruy Barbosa olhou para um Brasil até então subestimado pela televisão. 

Suas novelas deram dignidade às pessoas simples, transformando trabalhadores rurais, professores, colonos e famílias do interior em personagens complexos e profundamente humanos.

É por isso que ele será lembrado como um dos maiores autores da ficção televisiva. Deu enorme contribuição ao mostrar que dentro do Brasil coexistem muitos Brasis e muitos Beneditos.

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