Três novelas simbolizam o talento, a ousadia e o amor ao Brasil de Benedito Ruy Barbosa
Autor olhou para o interior do país e valorizou perfis muitas vezes subestimados pela televisão
A morte de Benedito Ruy Barbosa, aos 95 anos, encerra uma das carreiras mais bem-sucedidas da teledramaturgia brasileira.
Poucos autores conseguiram transformar novelas em retratos tão ricos da identidade nacional.
De sua vasta e diversificada obra, três títulos resumem a extraordinária capacidade de criar universos fascinantes e, ao mesmo tempo, a coragem para desafiar convenções artísticas, políticas e comerciais.
Quando escreveu ‘Meu Pedacinho de Chão’, em 1971, Benedito provocou os censores da ditadura militar.
Construiu uma narrativa que defendia a educação como instrumento de transformação social, não apenas para as crianças, mas também para os adultos analfabetos.
A novela exaltava o amor à Pátria e a valorização da liberdade de pensamento e de expressão. Em vez de discursos explícitos, o autor preferiu transmitir seus valores por meio de personagens simples e conflitos cotidianos.
Houve um remake em 2014, com visual fantasioso, que não agradou como a produção original.
Em 1990, o autor voltaria a subverter o senso comum da televisão com ‘Pantanal’. O projeto foi recusado pela direção da Globo, que não acreditava no potencial comercial daquela história profundamente ligada ao meio rural.
Em vez de abandonar a ideia, o autor buscou espaço na extinta Rede Manchete. O resultado entrou para a história.
A novela tornou-se um fenômeno de audiência, superando em diversos momentos a então aparentemente inatingível liderança da Globo.
Foi a confirmação de que existia um público interessado em ver na TV um Brasil distante dos grandes centros urbanos.
Ao transformar a natureza em protagonista, ‘Pantanal’ também antecipou discussões que se tornariam cada vez mais relevantes, como a preservação ambiental e a valorização do agronegócio para a economia do país.
O remake exibido em 2022 teve bom desempenho no Ibope, mas sem o mesmo impacto da versão original.
Aquele Brasil rural, ‘pé no chão’, voltaria a ser destacado pelo dramaturgo em outras produções, como ‘O Rei do Gado’ (1996) e ‘Velho Chico’ (2016).
Em 1999, Benedito Ruy Barbosa mostrou mais uma vez que não tinha receio de contrariar tendências.
Enquanto a faixa das 21h da Globo era dominada por histórias contemporâneas, ele apostou em uma grande novela de época.
‘Terra Nostra’ reviveu a imigração italiana para o Brasil, tema que já o havia inspirado ‘Os Imigrantes’, escrita por ele na Rede Bandeirantes no início da década de 1980.
O folhetim clássico elevou significativamente a audiência da Globo, recuperando quase seis pontos na média do horário, e conquistou um enorme envolvimento emocional do público.
Milhões de brasileiros passaram a enxergar naquela ficção um reflexo da própria história familiar. Houve uma corrida aos consulados para conseguir o reconhecimento da cidadania italiana.
Há um elemento que une essas três obras aparentemente tão diferentes: Benedito Ruy Barbosa olhou para um Brasil até então subestimado pela televisão.
Suas novelas deram dignidade às pessoas simples, transformando trabalhadores rurais, professores, colonos e famílias do interior em personagens complexos e profundamente humanos.
É por isso que ele será lembrado como um dos maiores autores da ficção televisiva. Deu enorme contribuição ao mostrar que dentro do Brasil coexistem muitos Brasis e muitos Beneditos.
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