Thiago Lacerda fala sobre rótulo de galã, paternidade e volta às novelas: 'Me sinto em casa'
Após três anos, ator retorna aos folhetins com 'Por Você' e fala sobre carreira, paternidade e o rótulo de galã em entrevista ao 'Estadão'
Por Você, nova trama das 7 da TV Globo, que estreia nesta segunda-feira, 17, marca o retorno de Thiago Lacerda à TV aberta após um hiato de três anos. Um dos nomes mais conhecidos da emissora, o ator usou o tempo para se dedicar ao teatro e a outros projetos, como a minissérie Ângela Diniz: Assassinada e Condenada, da HBO Max.
Foi um afastamento "circunstancial", como diz Lacerda em conversa com o Estadão. "Um afastamento importante, natural, circunstancial. Eu começo a minha carreira na televisão. Eu conto história na televisão há muitos anos. Faz parte da minha natureza intencionar contar histórias na televisão. Eu sinto saudade o tempo inteiro do veículo e tenho muito orgulho da minha trajetória na TV Globo."
Por isso, encarou com naturalidade o convite para o novo folhetim, assinado por Dino Cantelli e Juliana Peres. "É um prazer poder voltar, poder contar história na TV, poder voltar à TV Globo, que é um lugar que eu me sinto em casa. Foi um período de maturação, mas num lugar muito saudável, muito bonito."
O reencontro com o público
A volta à televisão aberta também significa, para Lacerda, reencontrar um público que passou a cobrar sua presença nas novelas. Segundo ele, a ausência começou a ser mais percebida pelos espectadores especialmente no último ano e meio.
"As pessoas começaram a me perguntar de fato, com muita frequência: 'E aí, quando é que você volta? Cadê, e aí?' (risos). É curioso ver essa relação que a gente cria com o público. E parece que, às vezes, as pessoas ficam ali meio contando o tempo para se reencontrar com a gente de alguma forma", diz ele.
Na nova novela, o ator interpreta o advogado Gabriel, um homem que cresceu em uma casa de acolhimento após ser abandonado pelos pais, mas tem uma relação valiosa com a filha Leandra (Giovana Grigio). A experiência de dar vida a um personagem com uma história tão diferente da sua também o levou a refletir sobre a própria relação com a paternidade.
"Trazer essa perspectiva pra relação com a filha em cena é, de muitas maneiras, revisitar a minha maneira de me relacionar com os meus filhos, a maneira de repensar a paternidade. Esse exercício humano que a minha profissão oferece é sempre muito transformador", pontua.
Gabriel também reencontra Bela (Sheron Menezzes), anos depois de os dois viverem um grande amor na juventude. Para o ator, tanto a possibilidade de imaginar o que poderia ter acontecido com o casal quanto as mudanças provocadas pelo tempo são elementos que tornam a história interessante.
"As duas coisas me interessam muito. Investigar essa ideia do que poderia ter sido, se as escolhas tivessem sido outras, se a vida tivesse caminhado por outros caminhos. E também a ideia do que acontece depois que essas duas pessoas se reencontram depois da vida ter trazido tanta coisa pra cada um deles, cada um com a sua história, com a sua experiência", fala.
Para Lacerda, o personagem também representa um dos motivos pelos quais está feliz com o retorno às novelas. "O personagem é realmente muito delicado, traz todas essas profundidades. Tem sido muito bonito fazer o Gabriel. Eu tô indo gravar feliz de poder voltar a ele (risos). Isso é um bom sintoma", diz.
Uma nova fase na carreira
Durante os três anos afastado das novelas, o ator, de 48 anos, se dedicou ao teatro, ao cinema e ao streaming. Mais do que mudar sua percepção sobre o ofício, porém, a interrupção do vínculo com a televisão o fez refletir sobre os próximos capítulos da própria carreira.
"O que faz mudar a percepção é a interrupção do meu vínculo com a TV. É, simbolicamente, algo muito significativo. A minha relação com a empresa é longa, de mais de 25 anos; já era combinada essa interrupção do vínculo pra estabelecer o início de um outro tipo de vínculo."
A distância também o fez pensar sobre como seria sua carreira sem a televisão como eixo. "Como é que é a segunda metade da minha carreira a partir dessa nova perspectiva, desse novo tipo de ambiente? Então, isso sim foi muito interessante e muita coisa aconteceu nesses três anos", salienta.
Nesse período, o teatro ganhou espaço importante em sua trajetória - ele encenou nos palcos A Peste, de Albert Camus, e Quem Está Aí? Monólogos de Shakespeare. Agora, o retorno às novelas aparece, segundo ele, como parte de uma transformação profissional mais ampla.
"O foco foi muito contundente pro meu trabalho com o teatro, pro meu projeto com os monólogos. A minha relação com o streaming, com o trabalho pro audiovisual fora da TV também acabou acontecendo de jeito contundente (...) E voltar à TV é um aspecto dessa transformação. Me vejo num momento lindo, com pessoas interessantes, pessoas que me interessam estar, que contribuem, que dão prazer", diz.
'A fome daquele menino'
Quase 30 anos depois do início da carreira, Lacerda também olha para o jovem que chegou à televisão em 1997, em Malhação, e identifica nele características que permanecem.
"Eu me reconheço na curiosidade daquele menino. Eu me reconheço na força, na determinação daquele menino, na maneira como eu me apaixonei pelo meu trabalho, pelo meu ofício. A fome daquele menino é ainda algo presente em mim", garante.
O que mudou, diz ele, foi o acúmulo de experiências proporcionado pelo tempo e pelos personagens que interpretou. "Hoje o que tem é o tempo, a ação do tempo, o tanto de sedimento que eu coletei, o tanto de material humano que eu coletei ao longo desses anos todos (...) Os meus personagens e o meu ofício me transformaram completamente", ressalta.
Apesar das mudanças, Lacerda afirma que ainda mantém a inquietação do início da carreira. "Eu me vejo hoje com algumas possibilidades a mais do que aquele jovem (risos), mas o tesão, a determinação, a curiosidade, a inquietação daquele menino ainda estão presentes em mim. Eu tenho muito prazer pelos próximos personagens e eu acho também que isso é um sintoma lindo", pontua.
O rótulo de galã
A trajetória de Lacerda também foi marcada, desde cedo, pela associação do ator à imagem de galã. Ele, porém, afirma que nunca deixou que o rótulo determinasse suas escolhas profissionais.
"Eu sempre entendi que eu não devia muito me preocupar com isso, porque eu tinha mais coisa pra fazer (risos). E, na verdade, essa ideia do galã, esse rótulo, essa necessidade cultural mesmo, faz parte da nossa maneira de enxergar as coisas (...) Mas isso nunca fez parte da minha maneira de me relacionar com o meu trabalho", destaca.
Segundo ele, a escolha de um personagem nunca esteve relacionada ao fato de ele ser considerado mocinho, galã ou herói. "Eu nunca topei ou recusei um personagem porque ele era ou não era o mocinho, ou o galã, ou o herói. Sempre o que me interessou era o que havia de humano pra comunicar naquilo e de que maneira fazer aquilo chegar de forma objetiva no coração, no ouvido das pessoas, da plateia", fala.
Hoje, Lacerdda diz não se importar com a forma como o público o classifica: "Se eu sou galã, se eu sou um ex-galã, se eu sou um galã maduro, se eu sou um galã a caminho de deixar de ser, isso nunca me interessou muito (...) O que me envaidece é a relação dos meus personagens com o público, é o que acontece a partir do momento que o público começa a se conectar com a história que a gente está contando."
A paternidade
A paternidade é outro aspecto importante da vida do ator. Pai de três filhos — Gael, de 18 anos, Cora, de 16, e Pilar, de 11, frutos do casamento com a atriz Vanessa Lóes —, ele afirma que a convivência com as crianças o confronta diariamente com suas próprias limitações e o faz repensar a maneira como encara a vida.
"Na prática, [a paternidade traz] a consciência da nossa fragilidade, da nossa limitação, das nossas contradições. A provocação que um filho faz é no lugar do 'quem somos nós'. (...) Esse desafio é muito profundo, ele é muito transformador. As crianças me ensinam cotidianamente", destaca.
Ao falar sobre os filhos, Lacerda também se emociona ao lembrar de um momento recente com Gael: "Eu dei um abraço no Gael e a frase que eu consegui dizer pra ele foi: 'Obrigado, obrigado por me ensinar tanto', por me fazer não me conformar com o que a gente é, caminhar sempre mais na direção de quem a gente gostaria de ser, com mais honestidade, mais verdade, mais responsabilidade."
Para ele, a conexão construída com os filhos está entre os maiores privilégios da paternidade: "Quando a gente se percebe conectado com os nossos filhos é realmente (risos) um privilégio, é maravilhoso."
'O que me desafia é sempre o próximo personagem'
Depois de quase três décadas de carreira, o que continua provocando Thiago é justamente aquilo que vem pela frente. O ator afirma que cada novo personagem traz de volta a insegurança e a vontade de descobrir até onde consegue chegar.
"O que me desafia é sempre o próximo personagem, de que maneira eu acesso aquela história, aquela psique, aquela natureza, de que maneira eu me coloco a serviço de provocar o público sempre na reflexão a respeito de nós mesmos. (...) É sempre o frio na barriga. Como é que eu alcanço isso? Eu realmente tenho ferramentas que me podem levar para esse lugar? Será que eu consigo, que as pessoas vão compreender, curtir? Isso é o que sempre me motiva, sempre me convoca", fala.
É também com entusiasmo que Thiago fala sobre Por Você. Para ele, a novela tem características que remetem a uma memória afetiva da televisão brasileira. "A novelinha está linda, estou de fato com uma expectativa muito boa sobre a novela. Eu tenho adorado, o texto é ótimo, os personagens são interessantes, a novela tem um frescor, tem uma carioquice, uma memória do Manoel Carlos... estou matando um pouco a saudade do Maneco", diz ele, que atuou em dois sucessos do autor: Páginas da Vida (2006) e Viver a Vida (2009).
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