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Ficção x realidade: a polêmica em torno de 'O Mecanismo'

Produção da Netflix sobre a Lava Jato gerou debate sobre o quanto há de verdade nos fatos retratados.

27 mar 2018
17h29
atualizado às 18h14
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O lançamento de O Mecanismo, nova série do diretor José Padilha, autor de Narcos e Tropa de Elite, provocou intensa reação, especialmente entre os simpatizantes de partidos de esquerda. Disponível desde a última sexta-feira (23) na plataforma de streaming Netflix, a obra motivou o cancelamento do serviço por assinantes contrariados e a publicação de um artigo crítico pela ex-presidente Dilma Rousseff. Em entrevista a jornais, Padilha também se posicionou.

Cartaz da série 'O Mecanismo'
Cartaz da série 'O Mecanismo'
Foto: IMDb / Divulgação

O centro da polêmica está na interpretação de uma frase exibida antes de cada episódio: "este programa é uma obra de ficção inspirada livremente em eventos reais. Personagens, situações e outros elementos foram adaptados para efeito dramático."

A primeira temporada da trama apresenta uma narrativa dramatizada da Operação Lava Jato até a prisão do empreiteiro Marcelo Odebrecht. Interpretado por Selton Mello, o personagem Marco Ruffo, um agente policial bipolar obcecado por desmontar um esquema de corrupção na Petrobras, é o protagonista da série.

Figuras importantes do universo político e econômico, como o ex-presidente Lula e ex-diretores da Petrobras são retratados com nomes fictícios. O mesmo acontece com o doleiro Alberto Yousseff. Situações reveladas por delatores na Lava Jato são encenadas, como uma suposta reunião no comitê de campanha de Dilma.

É nesse limiar entre ficção e realidade que surgem as polêmicas dos últimos dias. No artigo que publicou em seu próprio site, a ex-presidente disparou fortes críticas ao cineasta.

"A série O Mecanismo, na Netflix, é mentirosa e dissimulada. O diretor inventa fatos. Não reproduz 'fake news'. Ele próprio tornou-se um criador de notícias falsas", escreveu Dilma.

Mais adiante, Dilma mostra indignação pelo fato de Padilha não ter se preocupado com o rigor de informações retratadas na série: "O cineasta trata o escândalo do Banestado, cujo doleiro-delator era Alberto Yousseff, numa linha de tempo alternativa. Ora, se a série é 'baseada em fatos reais', no mínimo é preciso se ater ao tempo em que os fatos ocorreram. O caso Banestado não começou em 2003, como está na série, mas em 1996, em pleno governo FHC."

A ex-presidente reclamou, também, da atribuição indevida de uma frase ao personagem que interpreta o ex-presidente Lula. "O cineasta ainda tem o desplante de usar as célebres palavras do senador Romero Jucá (PMDB-RR) sobre 'estancar a sangria', na época do impeachment fraudulento, num esforço para evitar que as investigações chegassem até aos golpistas. Jucá confessava ali o desejo de 'um grande acordo nacional'", escreveu Dilma. "O estarrecedor é que o cineasta atribui tais declarações ao personagem que encarna o presidente Lula."

"São todos parte do sistema"

Questionado se a produção não cria um ruído de informação, pela dificuldade de parte do público em separar ficção de realidade, Padilha foi taxativo: "Na abertura de cada capítulo da série, avisamos que fatos foram alterados para efeitos dramáticos. Para o pessoal que sabe ler, portanto, não há ruído algum!", afirmou, em entrevista por e-mail ao portal Observatório do Cinema.

O diretor classificou de um "debate boboca" o incômodo com a atribuição a Lula da frase dita por Jucá em conversa vazada com o ex-presidente da Transpetro Sergio Machado.

"Se a principal reclamação é o uso dessa expressão, pode-se imaginar que o público petista está achando difícil negar todo o resto. Nada a dizer quanto aos roubos e desvios de verba públicas praticados por Higino e Tames (personagens de Lula e Temer) com os empreiteiros…? Hummm… Interessante", disse Padilha.

Na mesma entrevista, o diretor acrescentou que o trecho aproveitado da fala de Jucá é uma "expressão idiomática comum" e reiterou que a série configura uma crítica "ao sistema", e não a um grupo político específico.

"Por isso se chama 'O Mecanismo'. Assim, misturar falas ou expressões de um político-personagem que o público pode confundir quem falou não tem a menor importância, pois são todos parte do sistema. É esse mecanismo que queremos combater", disse Padilha.

O texto publicado por Dilma catalisou um movimento nas redes sociais estimulando que o público dê uma classificação negativa para a série no Netflix e cancele a assinatura do serviço. A empresa não informou quantas assinaturas foram canceladas desde sexta-feira no Brasil e tampouco esclareceu sua posição sobre a mobilização do público contra a produção.

Liberdade de expressão x distorção

Em participação no programa Roda Viva, da TV Cultura, o juiz Sergio Moro, outra figura pública retratada em O Mecanismo, disse que a obra não tem um valor tão grande na reconstrução histórica, pois os fatos ainda estão acontecendo, mas é importante para informar. Além disso, reconheceu que haja distorções entre a representação da série e a realidade, mas diminuiu a importância do fato.

"Se essa série e esse filme, além do valor cultural, artístico, também servirem para chamar a atenção das pessoas a esses problemas, já fazem um importante papel. Não dá para ficar se importando muito somente com essa questão de detalhes, se conferem ou não conferem", afirmou, referindo-se também ao filme Polícia Federal - A Lei é Para Todos, inspirado na Lava Jato e lançado em agosto do ano passado.

Geraldo Tadeu, professor de Ciência Polícia do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), acredita que a reação à série reflete a polarização política do país.

"No cenário atual, qualquer elemento novo polariza. Se o Lula faz uma caravana, vão lá jogar ovo nele. Mas são temas que só mobilizam a militância, as pessoas mais politizadas. A análise dos fluxos de interação nas redes sociais mostra que eles se dão entre pessoas que pensam igual", comenta.

Em relação à modificação de fatos para a dramatização, o jurista Daniel Sarmento, professor de Direito Constitucional da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), afirma que Padilha está contemplado pela liberdade de expressão.

"Pelo mesmo motivo, as pessoas têm o direito de criticar veementemente a série. Eu, por exemplo, assisti a alguns episódios e vi graves distorções. Achei o conteúdo deplorável, mas o remédio contra uma visão equivocada não é calar, e sim mais discurso", argumenta.

 

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