Seriado 'House' e suas dúvidas sobre vida e morte chegam ao fim
Fins de seriados sempre deixam certa melancolia em seus fãs, como se uma pessoa querida tivesse partido de vez. Caso de House, que ficou oito temporadas no ar. No próximo dia 21, o canal por assinatura Universal exibe Everybody Dies, o derradeiro episódio da série. E claro que alguém vai morrer.
O médico genial embora grosseirão, amado e misantropo, conquistou legiões de fãs em meio mundo com uma bem dosada receita de talento profissional, intolerância às regras, dor crônica, ceticismo, cara-de-pau e olhos azuis. O restante do elenco resumia-se a saltar e a se defender quando o intratável sujeito brandia a bengala. O protagonista Hugh Laurie, honra seja feita, tem um histórico de personagens bizarros, desde seus tempos na BBC com Blackadder, série de humor como só os ingleses são capazes de fazer. E o ator ainda foi pai do Stuart Little.
David Shore, criador de House, conseguiu um feito e tanto ao pôr na boca de sua criatura alguns laivos de filosofia que ajudaram a difundir questões metafísicas, em um diálogo em surdina com grandes pensadores. O nietzschiano Gregory House discutiu bastante a respeito da maldade do ser humano (Locke), da insuportável companhia do outro (Sartre), da causa primeira das coisas e da existência de Deus (Aristóteles). Não deixou de ser - involuntariamente - engraçado vê-lo no último episódio debatendo a "Aposta de Pascal" sob risco de virar churrasquinho.
As arengas deram algum resultado. Tanto que livros e mais livros sobre medicina, filosofia e, claro, os bastidores da série foram vendidos mundo afora. Aqui no Brasil saíram O Guia Oficial de House e A Filosofia em House, ambos pela BestSeller. Hoje em muitas cidades do Brasil há cursos livres de filosofia baseados em filmes, séries e até novelas. São uma forma de estimular o pensamento a não aceitar as coisas como óbvias e cotidianas - como, por exemplo, ver televisão.
House, o turrão, recusava-se a ver as doenças como banais e deflagrava suas investigações filosóficas só perturbadas pelos comerciais. Claro que, no final das contas, os seriados seguem modelos e tornam-se dogmáticos. No último bloco de quase todos os capítulos, era certo que House teria uma epifania e resolveria a doença. A série termina sem solucionar a maioria das questões que o doutor levantou. É bem possível que não exista uma resposta para tudo e que o negócio seja apenas seguir em frente. Como todo bom motoqueiro, House sabe que, quem não acelera, acaba no chão.