Público gosta de vilões em novela; já no BBB, prefere heróis
Eliminação da jogadora Patrícia e triunfo da boa moça Gleici ressaltam maniqueísmo do brasileiro
E lá se foi Patrícia, eleita a maior peçonhenta do ‘Big Brother Brasil 18’. Acabou eliminada com 94 % dos votos, um dos maiores índices de rejeição desde a estreia do reality show no Brasil, em 2002.
Saiu da casa com fama de bruxa má, enquanto sua inimiga Gleci assumiu ares de princesa de conto de fadas.
No reality show, o participante assumidamente estrategista e manipulador passa a ser interpretado pelo público como um vilão a ser combatido – e eliminado com algum grau de humilhação.
Ainda que o programa seja uma disputa com objetivo financeiro, quem se mostra jogador dificilmente tem chance de chegar na final.
Os telespectadores preferem premiar outros perfis: o ingênuo (Kleber Bambam, ‘BBB1’), o simplório (Fael Cordeiro, ‘BBB12’), o injustiçado (Jean Wyllys, ‘BBB5’), o carente (Cézar Lima, ‘BBB15’), a romântica (Fernanda Keulla, ‘BBB13’), o macho alpha (Diego Alemão, ‘BBB7’), a necessitada (Mara Viana, ‘BBB6’) e por aí vai...
As exceções foram Marcelo Dourado, do ‘BBB10’, e Emily Araújo, do ‘BBB17’. Eles dividiram o público: vilões para alguns, vítimas para outros.
Dourado teria sido alvo de preconceito dentro da casa por seu estilo ‘bad boy’, e Emily protagonizou aquele escândalo de suposta agressão que resultou na eliminação de Marcos Harter.
Na maior parte das edições, o ‘Big Brother Brasil’ foi vencido por alguém que era o alvo, e não o atirador. Participantes capazes de despertar a compaixão de quem acompanha o reality show.
Já os participantes esquemáticos, com a cabeça focada na eliminação de oponentes e no dinheiro, tais como Adriano (‘BBB1’), Jean Massumi (‘BBB3’), Alberto (‘BBB7’) e Tessália (‘BBB10’), despertaram repulsa e ódio.
Patrícia agora se junta a esse grupo de ex-‘BBBs’ renegados pelo comportamento competitivo e individualista. ‘Gamers’ eliminados justamente por serem bons jogadores.
Conclui-se que a paixão do brasileiro por vilões de novela – figuras como Odete Roitman de ‘Vale Tudo’, Nazaré de ‘Senhora do Destino’ e Carminha de ‘Avenida Brasil’ são mais adoradas do que suas próprias ‘vítimas’ – não se estende aos antagonistas de reality shows.
A gente adora punir quem se mostra muito esperto e agraciar aqueles que representam heroicamente as dores do mundo.