Periguetes firmam personagens marcantes nas novelas brasileiras
- Geraldo Bessa
Sensuais, interesseiras e carregadas de humor, as periguetes invadiram a teledramaturgia. Presença quase obrigatória em novelas mais recentes, sem nenhum recato, concentradas na fama e em arranjar um namorado rico, estas moças parecem ter uma cota no processo de criação dos principais autores de novela. Cada qual com seu estilo, só este ano, o público já pôde conhecer as artimanhas de tipos como a Fatinha, de Juliana Paiva, de Malhação, Valéria, personagem de Andréia Horta na recém-terminada Amor Eterno Amor, Brunessa, em Chandelly Braz, de Cheias de Charme. E finalmente, a voluptuosa Suelen de Avenida Brasil, interpretada por Ísis Valverde. "As periguetes estão em todos os lugares. São tipos muito populares e que sempre rendem boas histórias. É por isso que elas não aparecem de forma repetitiva. A Suelen, por exemplo, é uma messalina errática. Ela tem um ar mais trágico do que as outras. Por trás do corpão, é carente e frágil", destaca o autor João Emanuel Carneiro.
Derivada da palavra perigo, periguete é uma conhecida gíria do interior da Bahia, revelada ao dar título a uma das canções mais tocadas do Carnaval de Salvador no início dos anos 2000. A partir daí, foi incorporada nas letras dos sertanejos da região Centro-Oeste e dos "funkeiros" do Rio de Janeiro. "A música tem esse poder de propagar ideias. Como a maioria das novelas são ambientadas no Rio, a periguete vista nas tramas é muito associada ao universo do funk carioca. É a atualização da 'cachorra'", diverte-se o jornalista musical Nelson Motta.
Mesmo fã confesso de Suelen, Nelson acredita que duas personagens de Gilberto Braga interpretadas por Deborah Secco simbolizam bem a expressão: a manicure Darlene, de Celebridade, de 2003, e a alpinista social Natalie, de Insensato Coração, do ano passado. "Muito se falou das coincidências entre as personagens, mas as considero bem diferentes. Darlene tinha o sonho com a fama. Já a Natalie era do tipo mais feroz, tanto na questão do dinheiro quanto na necessidade de estar em evidência", justifica Deborah.
Darlene e Jaqueline Joy, amiga e fiel escudeira interpretada por Juliana Paes, foram uma das primeiras personagens do gênero na teledramaturgia. Gilberto Braga destaca que a boa repercussão desses tipos com o telespectador surge a partir da faceta bem humorada das periguetes. "Elas fazem da sedução uma profissão. Você anda nas ruas, festas e eventos e consegue identificar facilmente aquelas meninas que fazem tudo para aparecer e se dar bem. Se não fosse o humor, elas seriam como vilãs. Pois são de atitudes politicamente incorretas", analisa. Na última década, o núcleo cômico feminino das tramas, geralmente povoado pela figura de endinheiradas peruas ou donas de casas insatisfeitas, foi popularizando-se, tendo a periguete como ponto de humor.
No entanto, em Fina Estampa, de 2011, Aguinaldo Silva quis flertar com os opostos de um mesmo tipo. Em roupas mínimas e muitas coreografias sensuais, a jovem Sol, de Carol Macedo, era uma aprendiz de periguete que se descobre como cantora de funk. Em contraponto, a conquistadora Teodora, de Carolina Dieckmann, surge como a mulher que abandona a família para se juntar a um lutador de MMA. "Vida de periguete não é fácil. São sempre relacionadas a figuras fáceis e de intelecto limitado. Escolher bem as atrizes é o primeiro passo para uma boa atuação, que vai além de estar em forma. Não dá para ser qualquer uma", valoriza Aguinaldo.
Em tramas recentes da Record, como Bela, A Feia, de 2009, e Rebelde, as periguetes são representadas pelas personagens Elvira e Vitória, de Bárbara Borges e Pérola Faria. Na pele de Elvira, Bárbara teve sua primeira experiência na comédia e se esbaldou com os provocantes figurinos da personagem. "Tudo nela era extremamente 'over'. As roupas eram fundamentais na hora de entrar na personagem", assume. Para Pérola, a parte mais difícil do trabalho com esse tipo de personagem são as cenas de maior apelo sensual. "Sou muito tímida. Foi complicado encenar que estava dando em cima de alguns meninos do elenco", conta aos risos.
De bem com o espelho
A primeira atitude de Carol Macedo ao saber que interpretaria a espevitada Sol, de Fina Estampa, foi intensificar a malhação. "As roupas eram minúsculas e a tevê já engorda normalmente. Papéis com apelo sensual exigem certos sacrifícios. Ganhei massa muscular e foquei nas aulas de dança", explica Carol. Dar vida a uma periguete muda a rotina das atrizes. A preocupação vai além de decorar textos ou ensaiar as nuances da personagem. O principal é ter um tempo maior de preparação para chegar no corpo ideal para o papel.
Três meses antes de gravar como a Brunessa, da Cheias de Charme, Chandelly Braz foi incentivada pela produção da novela para ficar no estilo mais "gostosona". "Eu estava mais magra. Para ganhar corpo, engordei alguns quilos e passei a malhar três vezes por semana. Estranhei minhas curvas ao assistir às primeiras cenas da novela, mas aos poucos fui me acostumando", conta Chandelly.
Instantâneas
- O termo periguete virou um verbete na última atualização do dicionário Aurélio. Segundo a publicação, a palavra significa: "moça ou mulher que, não tendo namorado, demonstra interesse por qualquer um".
- Sheron Menezes, intérprete da Berenice de Lado a Lado define sua personagem como uma "periguete de época".
- Além de Darlene e Natalie, Deborah Secco deu vida a outras periguetes em novelas. Como a Céu, de A Favorita, de 2008.
- Ao interpretar uma cantora de funk em Fina Estampa, Carol Macedo recebeu convites de gravadoras para seguir uma carreira musical.