"Não minto mais para mim", diz atriz Débora Duarte
Aos 5 anos de idade, em 1955, Débora Duarte estreava na TV Tupi. Quase 40 novelas depois, com personagens marcantes na teledramaturgia nacional, a Amália de Cordel Encantado lança amanhã No Colo de Apolo, livro com as poesias que fez ao longo da vida (na Livraria da Travessa do BarraShopping, às 19h). "Quando abrem o livro, me sinto nua", define Débora.
Quando a poesia entrou em sua vida de atriz?
Comecei a escrever na pré-adolescência por necessidade de me ouvir, por um bilhete que não tive coragem de mandar, uma carência... Hoje os poemas saem como coisas que não quero perder, um pedaço de alma, algum lugar do passado. É muito íntimo, quando alguém abre o livro para ler me sinto nua. É como se um Super-Homem me olhasse com visão de raio-X.
Poderia receitar um dos poemas do livro?
Vou dizer o poema predileto da Zélia Gattai, que fez o lindo prefácio e me incentivou: "Eu quero um amor capaz de relaxar uma estátua nos meus dedos".
No tema do amor, você disse ano passado, num programa de televisão, que estava há oito anos sem beijar na boca. Continua solteira?
Com o tempo, a gente vai ficando mais espaçoso... (risos). Não estar numa relação amorosa me proporcionou outro tipo de caminho, sou obrigada a conviver comigo mesma, até mais do que gostaria. Não minto mais para mim, não invento mais coisas onde não existem. As portas não estão trancadas, mas não estão mais escancaradas. Se calhar...
Você fez de fotonovela a programas de rádio, e é considerada uma das atrizes que mais fez novelas na TV. Existe um personagem que mais tenha marcado sua carreira?
A parte da fotonovela a gente abafa (risos). Na TV, estou desde a década de 50, fiz até novela ao vivo, tenho muita intimidade com o ofício, eu trabalho melhor que vivo. Mas minha profissão é um exercício de abandono. Você dá o corpo, a alma, o tempo, aí um dia acorda e o personagem foi embora sem deixar bilhete.
Em Coração Alado (1980) você interpretou uma personagem que fez história, a Catucha, e protagonizou a primeira cena de masturbação em novela, na década de 80. Como foi a repercussão?
Fizemos apenas no olhar, sem nada explícito, a cena passou pela qualidade artística. A autora (Janete Clair) queria uma cena forte de sexo, e foi uma ideia que o Roberto Talma teve na hora, enquanto montavam a luz. Fez um grande barulho na época.
Aos 61 anos, após mais de 50 de carreira, como sente a passagem do tempo?
Às vezes, vejo o tempo passar, às vezes, não. Fico nesse bailado. Às vezes, sinto cansaço e solidão, mas o tempo também me dá tudo o que preciso para ter bons motivos. Acordo, abro os olhos, junto o esqueleto e só sei viver com essa visão artística e sensível.
Como é sua relação com a Paloma Duarte, filha e também atriz? Ela te deu duas netas, será que seguirão os passos da família?
Digo que quem vende sabonete unido permanece unido (risos). Paloma é de um talento maravilhoso, além de ser a mulher que ela é, então são dois presentes. Tenho muita sorte, e duas netas. A caçula, de 13, quer ser atriz. A de 15 quer ser médica.
Projetos para o futuro?
Vou estrear uma peça no ano que vem, e quero fazer algo que nunca fiz: uma oficina viajando pelo Brasil, formando grupos para ler e discutir poesia, ensinar a dizer os poemas. É uma chance de as pessoas vivenciarem os sonhos, vou fazer a minha parte.
Quais são as razões do sucesso de Cordel Encantado?
Estou muito feliz de participar desse momento, trabalhar numa novela com essa direção de elenco, e esse cuidado na produção. O figurino, o som, a luz, é tudo lindo.