Emissoras escolhem atores inexperientes para papéis de destaque
Mesmo sendo um meio altamente fechado e competitivo, atores estreantes são comuns no universo da teledramaturgia. Entretanto, alguns entram para a televisão com uma responsabilidade maior que a maioria: a de sustentar um papel de destaque. Em geral, isso acontece quando existe a necessidade de encontrar alguém que, mesmo sem experiência, se enquadre em um certo tipo de perfil exigido para o personagem.
Ou quando o artista começa a ter seu trabalho reconhecido por diretores e autores em outras plataformas, como o teatro e o cinema, e por isso é convidado para produções televisivas. Esse é o caso, por exemplo, do ator Igor Rickli. Atualmente no ar em Flor do Caribe, no papel do antagonista da trama, ele já era conhecido por estrelar inúmeros musicais. "As pessoas criticam o fato de a TV repetir sempre o mesmo elenco, assim como criticam a aposta em um novo nome. Estou satisfeito com a escolha do Igor. É legal dar esse frescor ao horário e a faixa das 18h nos permite essa ousadia", acredita Jayme Monjardim, diretor de núcleo de Flor do Caribe.
Como é reservada para tramas mais leves, a faixa das 18h realmente permite que se aposte em rostos desconhecidos do público. Exemplos disso foram os "remakes" das novelas Cabocla, em 2004, e Sinhá Moça, em 2006, sendo as duas tramas de Benedito Ruy Barbosa, adaptadas por suas filhas Edmara e Edilene Barbosa. Na primeira, era necessário encontrar uma atriz que se encaixasse com a descrição física da protagonista, uma busca bem especifica.
Após realizarem testes com atrizes iniciantes, Vanessa Giácomo foi escolhida para o papel principal da cabocla Zuca. "Fui chamada para o teste da novela por causa do meu biotipo. Até tinham algumas atrizes conhecidas, mas havia o interesse em revelar uma nova atriz. E ali veio minha grande chance", relembra, Vanessa Giácomo. Já em Sinhá Moça, foi a vez de Isis Valverde ser lançada.
A atriz não assumiu o posto de protagonista do folhetim, mas foi chamada para interpretar a Ana do Véu, um dos papéis principais da história. "Na verdade, eu fiz um teste para uma participação como modelo em Belíssima e, como estava muito nervosa, não passei. Mas acabei sendo chamada para dar vida a Ana do Véu", conta. Mas a questão do horário não é uma regra. Um dos nomes mais conhecidos da teledramaturgia atual, Reynaldo Gianecchini, estreou como protagonista na televisão em Laços de Família, trama das 21h assinada por Manoel Carlos.
Ele deu a vida a Eduardo, um jovem médico recém-formado que se envolvia em um triângulo amoroso com Helena, de Vera Fischer, e sua filha Camila, interpretada por Carolina Dieckmann. "Geralmente as pessoas começam em uma produção menor como Malhação ou em uma novela que não tem tanta repercussão. Mas aos poucos eu comecei a ter mais domínio sobre a coisa e fui descobrindo os meus recursos", analisa Gianecchini.
Acostumada a dar destaque a artistas já conhecidos, em geral, provenientes das emissoras concorrentes, recentemente a Record teve de recorrer ao uso de talentos desconhecidos. Isso porque precisava de seis jovens para protagonizar a adaptação nacional do fenômeno Rebelde. Depois de uma série de testes, Arthur Aguiar, Mel Fronckowiak e Chay Suede, que até então só tinham feito participações em outras produções, foram escolhidos para encarnar três dos papéis principais.
"Foi um processo complicado e atípico. A gente tinha de encontrar seis pessoas que pudessem atuar, cantar e dançar. Acho que fizemos as escolhas certas, porque, mesmo o com fim da produção, todos eles conseguiram se manter em destaque, seja na Record ou em outras emissoras", acredita Ivan Zettel, diretor da novela "teen". Já o SBT se encontrou em uma situação similar à Record quando decidiu investir em dramaturgia infantil.
Ao adaptar o folhetim Carrossel, a emissora precisou encontrar diversos atores mirins para interpretar os personagens principais da trama. Entre os escolhidos, Jean Paulo Campos foi um dos que mais se destacou. Com apenas duas participações especiais no currículo, nas novelas Corações Feridos e Amor e Revolução, ambas da própria emissora, ele conseguiu o papel do ingênuo Cirilo.
"Apesar de entrarem com pouca experiência, todos estão preparados para seguir em frente na profissão. O Jean, por exemplo, já foi contratado pelo SBT para outros trabalhos", conclui Reynaldo Boury, diretor do folhetim.
Olhar do autor
Apostar em novos talentos é interessante para dar frescor aos elencos das emissoras, mas pode colocar os autores dos folhetins em uma situação de risco. Sem conhecer as possibilidades dos atores estreantes, quem escreve a trama não tem como ter a certeza de que seu personagem será bem interpretado. Em 1998, Walcyr Carrasco correu esse risco. Contratado para escrever uma telenovela para o SBT, Fascinação, que a princípio não seria veiculada no Brasil, apenas vendida para o exterior, ele viu sua protagonista nas mãos da inexperiente Regiane Alves.
A atriz, na época estreante, deu conta do papel melancólico da sofrida Ana Clara. E hoje, na Globo, já acumula em seu currículo quase 20 produções televisivas diferentes. "A gente tem de reconhecer o talento e, desde aquela época, Regiane Alves sempre foi uma boa atriz. Por isso estamos sempre de olho em novos artistas, dando oportunidades a quem está começando", argumenta Walcyr.
Assim como Carrasco, Margareth Boury, autora da adaptação nacional de Rebelde, também acredita que é necessário dar oportunidade para novos talentos na televisão. Por isso, ela confiou que os estreantes Arthur Aguiar, Mel Fronckowiak e Chay Suede fariam um bom trabalho como protagonistas da novela "teen". "Todos tiveram de passar por testes e é claro que foram escolhidos também por suas aparências. O Chay, por exemplo, tem um estilo muito forte. Mas são talentosos e acredito que essa renovação é fundamental para a TV", encerra Margareth.
Instantâneas
- Antes de encarnar o cigano Igor em Explode Coração, Ricardo Macchi só tinha participado da abertura da novela Olho por Olho.
- Atualmente no ar em Sangue Bom, em que faz par romântico com Malu Mader, Felipe Camargo entrou para a televisão na minissérie Anos Dourados, também ao lado da atriz.
- Recentemente, o diretor Luiz Fernando Carvalho gravou a série Suburbia com inúmeros atores estreantes. Tanto a protagonista, Erika Januza, quanto a antagonista, Ana Pérola, tiveram seu primeiro contato com a interpretação através da produção.
- Malhação é conhecida por ser um termômetro de novos talentos e foi o primeiro trabalho na TV de muitos artistas, como Bianca Bin, André Marques e Thais Fersoza.