Atriz de 'Insensato' diz que 'Celebridade' mudou sua carreira
- Márcio Maio
Os papéis românticos, pelo visto, ficaram para trás na carreira de Deborah Evelyn. Na pele da amarga Eunice de Insensato Coração, a atriz experimenta uma fase mais madura e um papel repleto de conflitos familiares. E transparece em seu discurso o quanto valoriza essa posição. "Já fui muito usada como mocinha. A maturidade ocasionou uma virada bem interessante nesse ponto de vista", atestou. Na novela de Gilberto Braga e Ricardo Linhares, a personagem Eunice tem atitudes que a deixam numa linha tênue entre a neurose e a vilania. Uma característica que, segundo Deborah, desperta o interesse do público. E ela garante que, nas ruas, não chega a levar bronca. Talvez pelas diferenças óbvias entre criadora e criatura. Enquanto a alpinista social da ficção está sempre ranzinza e se sentindo "dona da verdade", sua intérprete esbanja delicadeza na voz e nos gestos. "As pessoas até brincam que eu estou chata, mas falam isso rindo. Eu me divirto e fico tranquila porque esse é o reflexo do nosso trabalho. Se comentam, é porque está funcionando", explicou.
Como têm sido as reações do público em relação a Insensato Coração?
As pessoas adoram a Eunice. De uma maneira inversa, obviamente, porque ela é completamente maluca. Acham engraçadas as cenas e também a forma como ela é reacionária e trata mal os outros. É um gostar crítico e acho muito interessante o fato do público conseguir ter essa visão. Sem dúvida, o que mais tocou até agora foi a Eunice ter destratado a própria mãe e ameaçar não levá-la para o Rio por conta do dinheiro do apartamento do Pedro.
A Eunice foi apresentada como uma espécie de vilã, mas a morte prematura da irmã, de certa forma, vitimizou um pouco a personagem. Você acha que isso pode fazer com que algumas pessoas torçam por ela?
Tem muita história ainda com a Eunice em Insensato Coração. Ela vai surpreender bastante. E é claro que pode ser que o público dê uma colher-de-chá em função do que ela passou com a morte da irmã. É aquilo: estamos falando de uma novela das oito, com tramas mais realistas. Então, existem não só dois lados, mas três, quatro, dez... Problemas pessoais não justificam a vilania. Mas é inegável que, embora ela pudesse agir de diversas maneiras, tem suas razões para ser assim. Vejo a Eunice como um papel bem criado e meu trabalho é entrar nesse universo, acreditar nessas razões e poder fazer dessa maneira. Nas ruas, muitos debatem comigo sobre o Pedro ter matado ou não a noiva.
A Eunice é a terceira neurótica que você interpreta recentemente. Sentiu algum receio de comparações com sua atuação em Celebridade e Páginas da Vida?
Comparar com personagens do passado é normal. Mais ainda com o último, no caso, a Judith, de Caras & Bocas. Mas era uma vilã das 19 horas, quase caricata. Nas ruas, às vezes, escuto algo como "você está muito chata", mas falam rindo. E você pegou personagens que sim, eram neuróticas, mas com neuroses diferentes. Eu adoro esse tipo de papel. Dá pano para a manga, tem história. E não precisa ser politicamente correto. Já fiz muitas mocinhas na minha vida e foi bom também, mas trava mais a atriz. Gosto de ler um capítulo e achar uma loucura no meio das minhas cenas.
Celebridade marcou uma fase mais madura em sua carreira, com conflitos de uma mulher experiente. Como reagiu a essa mudança?
Acho que fui muito bem aproveitada em mocinhas por muito tempo. Teve até uma época em que isso se repetiu bastante em meu currículo. Então, essa primeira personagem mais distante disso, em Celebridade, foi genial. Como sempre aparentei menos idade, usavam minha imagem em personagens mais novas. E chega uma hora em que os conflitos de mocinha não cabem mais no peso que você mesma tem. Estou com 45 anos. Por mais que eu possa passar por trinta e poucos no vídeo, de jeito nenhum poderia fazer uma personagem como a Marina, papel da Paola Oliveira em Insensato Coração, por exemplo. Até tenho essa carinha de anjinha, mas a vivência aparece em mim.
Mas a Judith, de Caras & Bocas, era bem mais nova que você...
Era, mas não me preocupou nem um pouco. Ali era outro tipo de novela, então cabia. Trabalhávamos outra linguagem. Se seguisse outra linha, talvez me incomodasse. Mas como era quase um cartum, não houve problemas.
Você acha que Celebridade trouxe mais respeito à sua carreira?
Pode ser. É engraçado você comentar isso porque até sinto, sim. Só que fui criando uma história dentro da Globo que começou mesmo em 1985. Sou contratada desde então e só parei quando minha filha nasceu. Carreira é isso, é solidez. E dentro desse caminho contínuo, há saltos maiores. Celebridade foi um deles, sem dúvida. Mas também acho que não poderia fazer a Beatriz cinco anos antes. Nem em função da idade, mas de maturidade mesmo.
Insensato Coração é seu 11ª trabalho com Dennis Carvalho, com quem você é casada. O fato de viver com um diretor, na sua opinião, prejudica de alguma forma a sua carreira na emissora?
Acho que afeta, sim. Mas não consigo dizer exatamente de que forma. Talvez de várias, tanto para o bem quanto para o mal. Eu estava há quatro anos sem trabalhar com o Dennis. Fiz Desejo Proibido e Caras & Bocas, que foi meu primeiro personagem do Walcyr Carrasco e adorei! Existem ótimos diretores e autores com quem gosto de trabalhar. A vida é assim. Mas casamento é muito maior do que trabalho, pelo menos para mim. Não tenho interesse em sacrificar minha vida pessoal em função disso.
Você já se sentiu forçada a ter de provar alguma coisa por conta de ser casada com o Dennis?
Forçada não, acho que isso rola mais dentro de nós. Nunca enfrentei nenhuma situação preconceituosa concreta. E vou confessar que não sou segura, ao contrário, sou bem insegura. Mas minha carreira foi se construindo a partir de passos dados. Comecei na TV com o Walter Avancini em Moinhos de Vento, em 1983, me formei na USP, trabalhei bastante. Acho que, exceto com o Guel Arraes, já trabalhei com todos os diretores daqui. Tento fazer com que essa relação com o Dennis não me afete. Mas não fico levantando bandeira, prefiro fazer o meu trabalho com honestidade.
Insensato Coração - Globo - Segunda a sábado, às 21h.
Laços de família
A carioca Deborah sempre sonhou se tornar atriz. Talvez por influência de sua família, muito ligada às artes. A começar pela bisavó, que era cantora de ópera, e pela própria tia, a atriz Renata Sorrah, irmã de sua mãe. Além de sobrinha, Deborah ainda é afilhada de Renata e se lembra de vê-la, da coxia mesmo, atuando em espetáculos de sucesso como Há Vagas para Moças de Fino Trato, ao lado de Glória Menezes e Yoná Magalhães. "De alguma forma, eu já sabia que era ali que eu ia querer estar quando crescesse", recordou. Mas Deborah não abriu mão de sua formação. Tanto que hoje se orgulha por ter não só a graduação em Artes Dramáticas pela USP, mas também em Ciências Sociais, que concluiu na mesma universidade. "Qualquer estudo é estofo para um ator. Não fui fazer uma segunda faculdade pensando em plano 'B', só no 'A' mesmo", garantiu.
A estreia na TV aconteceu cedo, mas por acaso. Walter Avancini assistiu a uma parte da seleção de Deborah para a Escola de Artes Dramáticas da USP e decidiu convidá-la para integrar o elenco da minissérie Moinhos de Vento, em 1983. "Lembro que dava um beijo na boca do Raul Cortez. Eu era tão menina, parecia um sonho atuar ao lado de pessoas experientes e consagradas", valorizou. Mas a primeira novela só veio depois da formatura. Um compromisso que a atriz firmou consigo. "Sou 'cdf' e não queria atrasar a faculdade. Sentia necessidade de me formar", lembrou ela, que em 1985 se mudou para o Rio, para gravar A Gata Comeu. E, desde então, só se afastou da TV para ser mãe. "Eu curto o que faço. Acho que essa é a maior motivação para não pensar em parar", avaliou.
Fora de casa
Trabalhar com o marido está longe de ser um incômodo para Deborah. Mas a atriz parece saber aproveitar bem as oportunidades de se encaixar em equipes de outros diretores da emissora. Tanto que Deborah não esconde o interesse em voltar a trabalhar com Walcyr Carrasco e Jorge Fernando, que apostaram na atriz como a grande vilã Judith de Caras & Bocas. O reencontro com Walcyr até poderia ter sido em Morde & Assopra, não fosse a rapidez com que o autor voltou ao ar. "O Gilberto reserva a gente com uns dois anos de antecedência e o Walcyr acabou estreando quase junto de Insensato Coração. Mas quero muito repetir o que fizemos. Houve uma troca boa entre o autor e os atores ali", elogiou.
Trajetória Televisiva
# Moinhos de Vento (Globo, 1983) - Tereza.
# Meu Destino É Pecar (Globo, 1984) - Arlete/Netinha.
# A Gata Comeu (Globo, 1985) - Lenita.
# Hipertensão (Globo, 1986) - Raquel.
# Selva de Pedra (Globo, 1986) - Flávia.
# Mandala (Globo, 1987) - Vera.
# Bebê a Bordo (Globo, 1988) - Fânia.
# Vida Nova (Globo, 1988) - Ruth.
# Desejo (Globo, 1990) - Alcmena.
# Mico Preto (Globo, 1990) - Marisa.
# Anos Rebeldes (Globo, 1992) Sandra.
# Fera Ferida (Globo, 1993) - Zigfrida.
# Pátria Minha (Globo, 1994) - Bárbara.
# Explode Coração (Globo, 1995) - Yone.
# Labirinto (Globo, 1998) - Cibele.
# A Muralha (Globo, 2000) - Basília.
# Um Anjo Caiu do Céu (Globo, 2001) - Virgínia.
# Desejos de Mulher (Globo, 2002) - Fernanda.
# O Beijo do Vampiro (Globo, 2002) - Laura.
# Celebridade (Globo, 2003) - Beatriz.
# Começar de Novo (Globo, 2004) - Dora.
# JK (Globo, 2006) - Salomé.
# Páginas da Vida (Globo, 2006) - Anna Maria.
# Desejo Proibido (Globo, 2007) - Madalena.
# "Caras e Bocas" (Globo, 2009) - Judith.
# "Insensato Coração" (Globo, 2011) - Eunice.