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Marcelo Serrado: 'Para um menino tímido e gago, a minha carreira é um milagre. Me cobrei muito'

O ator carioca remodelou o jeito de trabalhar depois de sofrer crises de ansiedade e pânico e, mesmo com a agenda cheia, se dedica a um projeto de cada vez

25 set 2026 - 05h46
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Resumo
Aos 59 anos, Marcelo Serrado transforma suas crises de ansiedade, pânico e excesso de trabalho em projetos artísticos. O ator lança o livro e o documentário "Fora do Roteiro" e estrela o monólogo "Terapia", abordando a busca por equilíbrio emocional. Relembrando o início tímido e a consagração moldada no teatro por mestres como Zé Celso, Serrado mantém uma rotina intensa com cinema e séries, mas agora desacelera para respeitar seus limites mentais e dedicar mais atenção à sua família.

De repente, um homem de 50 e poucos anos, 1m80cm de altura e pai de três filhos voltou a se enxergar como o menino tímido e gago que tocava gaita de óculos escuros. O ator carioca Marcelo Serrado, hoje com 59, sentiu a primeira crise de ansiedade em 2020, no ápice da pandemia. Estava em um quarto de hotel e pensou que fosse morrer.

Quer dizer, não foi tão de repente. As inseguranças da infância e da adolescência, um histórico familiar capaz de servir de alertar, a autocobrança e o excesso de trabalho formaram um combo em suas costas e, principalmente, na cabeça. Em agosto de 2024, veio um violento ataque de pânico, e o artista resolveu, além de procurar ajuda, compartilhar as dores com o público.

Marcelo Serrado na peça 'Terapia', em que vive personagem que enfrenta questões de saúde mental
Marcelo Serrado na peça 'Terapia', em que vive personagem que enfrenta questões de saúde mental
Foto: Aline Mariz/Divulgação / Estadão

Fora do Roteiro (Sextante, 160 págs., R$ 59,90) é o livro escrito em parceria com a editora Rosana Caiado em que Serrado narra os caminhos para um equilíbrio emocional. Junto ao livro, vem o documentário homônimo, dirigido por Edu Felistoque, que estreou na última sexta-feira, 18, no canal de streaming Aquarius.

Para completar o pacote, entre a autoajuda e o humor, Serrado protagoniza há quatro meses o monólogo Terapia, dirigido por Fernando Ceylão, que chega a São Paulo, no Teatro Sabesp Frei Caneca, em março do ano que vem. O texto ficcional, criado a quadro mãos com o autor Guilherme Rocha, traz um personagem que sofre de TOC, TDH e dislexia, relembra o relacionamento com a ex-mulher instável e pena com os filhos problemáticos. Lá, pelas tantas, pega um avião e vai parar em Marte. "Eu acredito que o humor acompanhado da reflexão pode ajudar muita gente a identificar suas questões", afirma o ator.

Em meio a essa agenda, Serrado acabou de filmar Marília, cinebiografia da cantora sertaneja Marília Mendonça (1995-2021), no papel de Wander Oliveira, o empresário da artista, aguarda o lançamento das séries Delegacia de Homicídios (DH), da Disney+, e Veronika com K, do Globoplay. Além disto, em agosto, foi jurado do Festival de Cinema de Gramado e, para o segundo semestre de 2027, planeja uma peça em que vai contracenar com Otávio Muller e Heloísa Périssé, também autora do texto.

Mas você não sofreu um burnout por excesso de trabalho? O ator se apressa em garantir que o ritmo agora é outro e, apesar da lista de atividades, faz uma coisa de cada vez. Para cumprir a agenda de lançamento do livro e do documentário, o artista suspendeu as sessões do monólogo. Para o filme e as séries, ele se dedicou com exclusividade e a semana em Gramado serviu para, além de ver filmes, reencontrar colegas e aproveitar o clima da Serra Gaúcha. "Enquanto filmava Marília, me chamaram para outro longa, mas não dá, lamentei, não consigo mais", assume. "Nas filmagens, tive horas de cansaço, claro, mas nunca parei a produção por não conseguir mais trabalhar."

Marcelo Serrado acaba de lançar o livro 'Fora do Roteiro', sobre como lida com a síndrome do pânico
Marcelo Serrado acaba de lançar o livro 'Fora do Roteiro', sobre como lida com a síndrome do pânico
Foto: Leo Aversa/Divulgação / Estadão

Em 2022, durante a novela Cara e Coragem, Serrado paralisou, e a direção cancelou uma diária que previa outras vinte cenas. No final do ano seguinte, acumulando o espetáculo O Jovem Frankenstein e a novela Beleza Fatal, o ator ficou exausto e, faltando só uma cena para encerrar uma gravação noturna, a equipe foi desmobilizada até o dia seguinte. "Chega uma hora em que você conhece o sucesso e passa almejar o topo, vai testando limites e acredita que sempre pode mais", reconhece. "Para um menino tímido e gago, a minha carreira é um milagre e me cobrei muito."

Diante desta consciência, Serrado ficar mais atento aos seus meninos. A primogênita, Catarina, da relação com a atriz Rafaela Mandelli, tem 21 anos, vive em São Paulo e estuda relações internacionais na Faap e artes cênicas no Célia Helena Centro de Artes e Educação. Casado com a coreógrafa Roberta Fernandes, ele é pais dos gêmeos Felipe e Guilherme, de 13 anos, e, enquanto o primeiro, segundo o pai, é um ator nato, o outro lembra o pequeno Serrado. "Eu me enxergo tanto no Guilherme, mas ele começou a se soltar na arte", conta. "Faz aula de música e adora tocar bateria."

Se foi graças ao teatro que o adolescente Serrado perdeu o medo da vida, ele ainda hoje credita aos palcos a evolução artística. No começo da década de 1990, o jovem ator ganhou popularidade na novela O Dono do Mundo (1991) e na minissérie Anos Rebeldes (1992). "Mas minha representação era ingênua, sem recursos, faltava habilidade, estrada e casca", reconhece. O encontro com dois grandes diretores de teatro surgiu como a faculdade que o novato precisava para adquirir técnica e se tornar um artista.

Sob o comando de Antônio Abujamra (1932-2015), ele contracenou com as atrizes Christiana Guinle e Claudia Lira na peça O Inferno São os Outros, de Jean-Paul Sartre, em 1992, montagem ignorada pelo público. "O fracasso dá caráter, meu filho", avisou Abujamra, na época. Menos de um ano depois, Zé Celso Martinez Corrêa (1937-2023) acenou com um convite para o elenco de Ham-Let, releitura da tragédia de Shakespeare, no Teatro Oficina. "Com o Zé Celso, eu aprendi que o ator tem o direito de errar, errar de novo e acertar", lembra.

Em Ham-Let, a Rainha Gertrudes, mãe do príncipe (papel de Marcelo Drummond), era interpretada por Christiane Torloni, que, em 2012, seria companheira na novela Fina Estampa. Na trama, o ator viveu o mordomo Crô, o personagem de maior sucesso na sua carreira de quatro décadas. "O Crô só existiu por causa das lições do Zé Celso", observa. "Eu me lembrava do Zé dizendo 'fala alto, fala grave, agora força um agudo', e a Christiane, que conhece essa escola, jogava comigo."

Estadão
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