Jeito cômico e sensual de Malu divertem Camila Morgado
- Mariana Trigo
- Direto do Rio
Camila Morgado está irreconhecível. Distante do ar cult de seus personagens anteriores na tevê, como a densa americana May, de América, e a atriz Cacilda Becker na minissérie Um Só Coração, a atriz se aventura pela primeira vez na comédia numa novela com a jornalista Malu, em Viver a Vida. Na trama de Manoel Carlos, a atriz nascida em Petrópolis, região serrana do Rio, vive uma repórter de economia que não abre mão da sensualidade. Noiva do sarado Marcelão, de Hugo Rezende, e quase amante de Gustavo, de Marcelo Airoldi ¿ que é marido de sua prima Betina, de Letícia Spiller ¿, a atriz assume que nunca se divertiu tanto com uma personagem na tevê. Principalmente pelo figurino de roupas justas e sempre decotadas, que passaram a fazer parte do universo da atriz."O figurino de Malu mexe com o imaginário masculino. Ela é sexy, provocadora", admite.
As cantadas nas ruas aumentaram depois que Malu entrou no ar, mas Camila lida bem com o crescente assédio masculino. "A personagem caiu no gosto popular, mas as investidas são sutis", minimiza. Apesar da reação dos homens, a atriz de 34 anos jura que ainda não recebeu convites para posar nua. Mas adianta que propostas milionárias não a seduzem. "Acho que o dinheiro que tenho já está bom", valoriza.
Em Viver a Vida, sua personagem aceita o assédio do Gustavo, de Marcelo Airoldi. Como as pessoas têm encarado esse jogo de sedução?
No começo, achei que esse relacionamento com o marido da prima fosse ser um perigo. Pensei que as pessoas fossem falar barbaridades porque eticamente não é uma coisa legal de se fazer. Mas o Gustavo e a Malu são personagens muito carismáticos, trabalham com o humor e vivem uma paixão proibida, que é algo que dá muito pano para manga para as pessoas se identificarem. Tanto que o público não tem reagido negativamente. As pessoas os veem com muito carinho, amam os personagens. É impressionante! Ninguém nunca me falou "você está errada". Pelo contrário. O que eu escuto do público é "eles têm de terminar juntos". Eles combinam na loucura deles. A Malu é totalmente desequilibrada, acho que hoje isso está bem claro. Eles têm um desequilíbrio que combina e acho que é por isso que o público torce para eles ficarem juntos. Aonde eu vou as pessoas falam do casal. Sempre com carinho. Isso que é bacana.
Você já passou por alguma situação parecida?
Nunca! E acho que, se passasse, não ficaria com a pessoa. Hoje em dia daria preferência para a confiança da minha prima e a amizade. Não viveria isso. Mas é claro que tenho lidado com muitas brincadeiras. Minha prima sempre me liga e fala "olha, não vai dar em cima do meu namorado, hein?".
O que mais chamou sua atenção nessa personagem?
A personagem foi um convite do Manoel Carlos. Um dia, ele me encontrou e disse "queria muito que você fizesse uma novela minha". Eu respondi que seria um privilégio estar numa trama escrita por ele. Não tenho muita experiência em tevê e adoro o Maneco. Para mim foi uma surpresa. E aí o Jayme Monjardim me ligou e disse que eu estava na novela. É claro que aceitei, nem pensei duas vezes. Me chamou atenção ser chamada por eles de uma hora para outra e o Maneco ter me dito que ela era do "balacobaco".
Como você define a trajetória dessa jornalista na história?
No início eu sabia que ela seria apenas uma jornalista de economia. Depois, que ela iria aprontar. Adorei! O engraçado é que ela foi ganhando humor. O charme dessa personagem é que, a princípio, todo mundo achava que ela era séria por ser uma jornalista de economia. E foi justamente o oposto. Ela tem essa vida profissional que parece ser séria ¿ que exige um ar de credibilidade ¿, só que a vida pessoal não é nada disso. Foi aí que fiquei apaixonada pela personagem. A vida pessoal da Manu está mais para o filme do Almodóvar, Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos. Parece que ela está em uma TPM constante. É intensa, movida por impulso e, a qualquer momento, pode explodir. Isso dá uma comicidade maravilhosa. Deixa a personagem na boca do povo.
Você sempre teve um perfil de trabalho mais intelectual do que o estilo de mulher que se destaca apenas pela beleza. Como tem sido viver uma mulher sensual na tevê?
Todo mundo está falando que Malu é muito sensual, mas esse não era meu objetivo. Nem sabia que iria ter esse lado. No começo, a ideia era usar um figurino para inspirar uma atração. Agora, as roupas estão um pouco mais curtas... E descobri que até mesmo a profissão é provocante. O fato de ser uma jornalista de economia causa nos homens um certo fascínio. É uma pessoa muito feminina falando de assuntos masculinos. Isso atrai os homens. Ela está sempre de salto, roupas justas e com as pernas de fora, o que desperta desejo. Acho engraçado porque quando eu fazia outros personagens, as pessoas viravam para mim e falavam "nossa, como você é branquinha!". Agora elas falam "nossa, como você está sensual!". É isso que acho bonito. Tudo varia conforme o personagem. Continuo sendo a mesma pessoa. O que muda é a pegada.
Como você se preparou para fazer a Malu?
Além de ter ido na redação da Globo News, conversei com vários jornalistas, como a Miriam Leitão, a Eliane Cantanhêde. Estava em Nova Iorque e fui na Globo Internacional, falei com muita gente! Aprendi como apurar uma notícia, a ética e a responsabilidade do jornalista, entre outras coisas. Isso me ajudou muito. Não para me tornar uma jornalista de economia, porque não entendo nada de "economês". Mas a me familiarizar com a profissão.
Como você lida com as críticas ao seu trabalho vindas dos jornalistas?
Todo ator é muito vaidoso. Hoje em dia, recebo bem as críticas. Mas uma coisa é certa: sempre vão falar de você, independentemente de ser ator ou não. Já aprendi a deixar isso mais de lado, mas tem certas coisas nas quais presto atenção. Se o público sente identidade com meu personagem, se meu trabalho está sendo bem compreendido. Dependendo do que vem e como vem, eu absorvo. E absorvo bem. Claro que na hora é difícil, mas consigo digerir e trabalhar em cima. E acho que a crítica ajuda muito um ator a crescer. Mas o público é o nosso maior espelho. É ele que vai dizer se funciona ou não.
Muitos atores têm se queixado do atraso na entrega dos capítulos da novela e do ritmo frenético das gravações. Como tem sido?
Estou adorando trabalhar com o Maneco. O texto dele é tão fácil, bem digerido. E chega um momento em que o personagem não exige mais esforço. Você se arruma e, na hora de começar a gravar, ele já vem imediatamente. É uma delícia porque o Maneco trabalha junto com os atores. Se ele vê um improviso e gosta, logo em seguida já coloca na próxima cena. Por isso temos tão pouca frente. É compreensível. O Manoel Carlos está sempre muito atento a tudo o que acontece e põe isso no texto. É uma delícia. No meu caso está muito tranquilo.
Você está se preocupando mais com a beleza por estar fazendo uma personagem sensual?
Sempre fiz exercícios físicos e continuo fazendo. Faço aeróbica e musculação, mas nada muito pesado. Continuo fazendo a mesma coisa que antes. Acho que é a personagem mesmo. Mostro um lado que as pessoas não conheciam. As roupas da Malu são muito justas e sensuais.
Você percorre com familiaridade o teatro, o cinema e a tevê. Como eles têm se encaixado na sua carreira?
Adorei fazer cinema, apesar de ser iniciante e só ter feito dois filmes. É fascinante, espero fazer mais. Na tevê, essa é minha segunda novela. É diferente porque a tevê é mais uma indústria, é tudo muito mais rápido e acho muito mais difícil para o ator. Não há muito tempo para pensar em detalhes. Comecei no teatro. Não sei se é o que prefiro. Acho que está muito cedo para falar isso. Mas sei que o palco é um lugar especial para mim. Quando você está com algum problema, quer se reciclar ou estudar mais, vai para lá que tudo se encontra, tudo se resolve. O teatro é a arte do aqui e agora. É a única arte que você, como ator, se apropria dela totalmente. No cinema, o filme não é seu, na tevê a cena não é sua... no teatro a única coisa que vai fazer a comunicação é o ator. E não precisa de palco, não precisa ter nada, basta uma pessoa. É tudo muito simples. Para mim, é a arte que vem primeiro, que se faz com duas pessoas: uma faz e outra assiste. Sou muito apaixonada pelo teatro porque entendo esse poder, essa simbologia que ele tem.
Recentemente, você atuou na peça Doce Deleite, com Reynaldo Gianecchini, mas deixou a peça por conta da novela. Você tem vontade de fazer mais teatro?
Sou uma pessoa que se preocupa com a estabilidade da carreira, como permanecer bem, sendo reconhecida como uma atriz de talento. Me preocupo em desenhar uma carreira bacana. Acabando a novela quero muito voltar ao teatro, para nunca parar de trabalhar e estudar.
Em sua estreia no cinema você fez muito sucesso interpretando Olga Benário no longa Olga. Que peso esse papel teve na sua carreira?
Olga foi o trabalho mais difícil da minha carreira. Era o meu primeiro filme, não tinha muita experiência e era um personagem muito difícil e que existiu. Exigiu uma responsabilidade maior. Era muito trabalho e eu estava com muito medo de falhar. Fiquei muito satisfeita com o resultado do meu trabalho. Acho que consegui passar verdade para a história. O importante é que tentei. O período mais difícil nas filmagens do longa foi do parto à retirada da Anita (filha da personagem). Todas as cenas foram na mesma semana. Depois que passou, pude dormir tranquila. Pela primeira vez em muito tempo eu consegui descansar. Foi a fase mais difícil da minha carreira. Fiquei muito cansada e precisei de um bom tempo para me recuperar. Mas já estou pronta para outra!
Viver a Vida ¿ Globo ¿ De segunda a sábado, às 21h.
Caminho cruzado
Camila Morgado decidiu que seguiria a carreira de atriz ainda na adolescência. Mas, aos 17 anos, o teatro não era exatamente uma meta profissional. "Eu não tinha ambição de ser atriz. Só continuei porque era o lugar onde me sentia melhor", jura. Para se aprofundar na arte de interpretar, Camila se matriculou num curso cuja professora era Monah Delacy, mãe da também atriz Christiane Torloni. Por conta de sua carreira teatral, já que emendava uma peça na outra, ela acabou na tevê. O convite veio do diretor Jayme Monjardim, seu padrinho no veículo. "Ele me chamou para fazer um teste e fui parar em A Casa das Sete Mulheres", lembra.
Por ironia do destino, para viver a Malu, a atriz teve de abrir mão dos palcos. Ela estava em cartaz com a peça Doce Deleite, ao lado de Reynaldo Gianecchini, quando recebeu o convite para integrar o elenco da novela das oito. "Tive a sorte da Marília Pêra me ligar e convidar para fazer essa peça, com uma personagem voltada para a comédia. Nem pensei duas vezes antes de aceitar", conta. No entanto, depois que Viver a Vida terminar, Camila não sabe se voltará a atuar na mesma montagem. "O Giane vai estar na próxima novela das oito e provavelmente vai deixar o espetáculo", argumenta.
Laços de família
Quando decidiu seguir a carreira de atriz, Camila resolveu que adotaria o sobrenome da mãe. A atriz foi registrada apenas com o sobrenome do pai, por isso, seu nome de batismo ficou Camila Ribeiro da Silva. "Isso era muito comum antigamente. Mas peguei o sobrenome da minha mãe e usei como nome artístico", explica. Uma outra curiosidade da vida de Camila é que a atriz não é uma ruiva legítima. Loura de nascença, ela mudou o visual quando foi para a Croácia com a peça Nowhere Man, dirigida por Gerald Thomas.
Trajetória Televisiva
# A Casa das Sete Mulheres (Globo, 2003) - Manuela de Paula Ferreira.
# Um Só Coração (Globo, 2004) - Cacilda Becker.
# América (Globo, 2005) - May.
# JK (Globo, 2006) - Ana Rosenberg.
#Faça sua História (Globo, 2008) - Maníaca da Tesoura.
#Dicas de um Sedutor (Globo, 2008) - Cristina.
# Casos & Acasos (Globo, 2008) - Juliana.
# Viver a Vida (Globo, 2009) - Malu.