Imprensa abusa de estereótipos ao lidar com Marcela Temer
Elogiar sua beleza e elegância pode soar machista e reducionista. Ignorar essas características seria hipocrisia. Não dar espaço a ela no noticiário equivaleria a um boicote. Destacá-la gera a ideia de oportunismo e excesso de glamourização do jornalismo. Afinal, como lidar com Marcela Temer?
A primeira-dama do país ganhou a última capa do ano da revista 'Veja'. A manchete: 'Marcela Temer - A aposta do governo'. O subtítulo é intrigante: 'Com uma agenda de aparições públicas, a jovem e bela primeira-dama vira a grande cartada do Palácio do Planalto para tirar a popularidade do atoleiro'.
Parece que querem - governo e boa parte da imprensa - transformar a advogada de 33 anos na versão brasileira de Michelle Obama ou Jackie Kennedy, ambas primeiras-damas mais populares do que os respectivos maridos presidentes e elevadas a ícone de seu tempo, inclusive com influência política na gestão da Casa Branca.
As duas souberam usar a mídia para construir a imagem pessoal desejada e propagar as causas pelas quais se engajaram. Descolaram-se dos maridos para se tornarem donas do próprio poder, dentro dos limites de independência que a função protocolar permitia.
Já Marcela demonstra menos interesse por holofotes, autopromoção e política. Com aparições calculadas e discursos prontos, sem espaço para improvisos, ela é uma incógnita.
Por isso a imprensa ainda a retrata de maneira estereotipada, a exemplo da matéria que a rotulou como 'bela, recatada e do lar' e, agora, como salvadora da pele do marido. As armas para tal façanha política seriam a juventude, o carisma, o jeito maternal?
Mas o que ela pensa? Em que acredita? Segue quais ideologias?
Quando a primeira-dama surge diante das câmeras, a primeira informação apurada e divulgada é a grife de sua roupa e quanto custou.
Ao tratá-la como um simples cabide ou uma peça de marketing a serviço de Temer, a mídia não apenas a desrespeita como promove um desserviço ao empoderamento feminino - expressão visada, mas ainda necessária pela relevância do que representa.
A melhor contribuição que Marcela Temer pode dar ao Brasil, às mulheres e ao próprio marido é descer do pedestal onde insistem mantê-la. A mídia e a política adoram forjar heroínas perfeitas, mas elas só existem na ficção.