Guilherme Karam escolheu viver sua tragédia longe das câmeras
"Ele não fala mais, não se movimenta, só se comunica com os olhos. É difícil aceitar ser visto assim." A explicação de Alfredo Karam, pai do ator Guilherme Karam, resume o drama vivido pelo artista e, ao mesmo tempo, justifica a opção de isolar-se dos amigos e evitar qualquer contato com a imprensa. O grande cômico preferiu enfrentar seu crepúsculo na solidão.
Karam não quis que o público o visse aprisionado no próprio corpo, sem poder gargalhar nem fazer rir. A inércia física contrastava com a lucidez - e o saudosismo dos bons tempos na TV. Certa vez, o ator fora flagrado chorando ao assistir a uma cena da reprise de 'Meu Bem, Meu Mal', novela de 1990 na qual interpretou o popular mordomo Porfírio, aquele do bordão 'Divina Magda'.
Antes, havia mostrado inesgotável versatilidade no 'TV Pirata'. O último trabalho, em 2005, foi 'América'. Desde então nunca mais estivera sob holofotes. A vida íntima ficou ainda mais escudada após o início das complicações da síndrome que o matou aos 58 anos.
Sem alarde, Karam fez como alguns mitos do cinema: recolheu-se para que seus fãs guardassem na memória uma imagem positiva de seu auge artístico. Ninguém o viu doente. Não haverá lembrança de sua decadência involuntária. Apenas recordações do talento, bom humor e daquele jeito bonachão e gaiato.
Em tempos distorcidos, com a superexposição sendo quase regra, a discrição de Guilherme Karam é admirável. Por situações infinitamente menos graves, vários famosos transformaram um problema pessoal em espetáculo midiático. Seja em busca de ajuda ou com indisfarçável intenção de aparecer e, quem sabe, resgatar a carreira da obscuridade.
Vale aqui adaptar uma frase da estilista Coco Chanel: é preciso saber a hora exata de sair de cena; mesmo que essa hora seja muito dolorosa. Guilherme Karam retirou-se da vida com a dignidade que lhe foi possível.