Globo cria ladra autorizada por santa católica e pastor evangélico que salva bandido
‘Três Graças’ se vira nos 30 para agradar aos dois maiores grupos religiosos do Brasil
Diante do altar ao lado da cama, Gerluce (Sophie Charlotte) pede um sinal de que Santa Rita permite que ela roube a valiosa estátua Três Graças de Arminda (Grazi Massafera) e Ferette (Murilo Benício) para financiar a compra de remédios de verdade aos doentes enganados com falsa medicação distribuída pelos vilões.
De repente, um sopro de vento apaga as velas, que reacendem logo depois. Pronto: a heroína se sente autorizada a transgredir para salvar a própria mãe, Lígia (Dira Paes), e os demais enfermos.
Com espírito de Robin Hood, a cuidadora de idosos não enxerga o ato como roubo, e sim “expropriação”, ou seja, a retirada de um bem por uma causa de interesse social.
Após levar a obra de arte da mansão de Arminda e vendê-la, Gerluce enfrentará a investigação do namorado policial, Paulinho (Rômulo Estrela), e o julgamento dos telespectadores.
Afinal, ladrão que rouba ladrão merece 100 anos de perdão? No caso, uma ‘ladra do bem’ que passa a perna na ‘ladra do mal’.
Chama a atenção que os autores Aguinaldo Silva, Virgílio Silva e Zé Dassilva usem a fé da personagem e o temor por punição divina para suavizar o crime que ela irá cometer. É um jeito de manipular o maniqueísmo do público.
Assim, cresce a chance de Gerluce ganhar a absolvição e a torcida dos católicos, grupo que representa 56,7% da população segundo o Censo de 2022 do IBGE.
Salve, aleluia
Em outra trama na comunidade da Chacrinha, o pastor Albérico (Enrique Diaz) anuncia à filha, Kellen (Luiza Rosa), que Jorginho Ninja (Juliano Cazarré) vai sair do presídio e quer o perdão da filha, Joelly (Alana Cabral).
O criminoso do passado agora é um novo homem: tornou-se crente graças às pregações dos cultos carcerários.
Ele representa o renascimento após a pessoa aceitar a Jesus e ser batizado nas águas. Este conceito teológico faz parte de todas as igrejas do evangelicalismo, incluindo protestantes clássicos, pentecostais, neopentecostais e independentes.
Em novelas anteriores, Aguinaldo Silva apresentou uma crítica debochada dos crentes radicais, como em ‘Duas Caras’, de 2007, onde Edivânia (Susana Ribeiro) chegava ao ponto de fiscalizar e expor a vida sexual dos moradores da favela da Portelinha.
Desta vez, em ‘Três Graças’, o dramaturgo evitará provavelmente a caricatura do fanatismo doutrinário. A Globo faz esforços explícitos para atrair os evangélicos (26,9% dos brasileiros) para garantir audiência relevante em tempos de fuga de público para o streaming e outros concorrentes.
Vinde a mim, telespectadores
Em ‘Três Graças’, católicos e evangélicos convivem sem conflitos ideológicos. Ao equilibrar simbolismos dos dois segmentos religiosos, a novela tenta ocupar um terreno sensível: o das narrativas espirituais usadas como bússola moral para justificar decisões humanas.
Nesse tabuleiro, cada personagem se torna um ponto de contato estratégico com a crença do público, como se a religiosidade fosse um atalho emocional para legitimar escolhas e sustentar viradas dramáticas.
Ao colocar no centro da trama uma ladra movida pela boa intenção e um bandido regenerado pela palavra de Deus, a Globo sinaliza que quer contar histórias capazes de tocar, simultaneamente, dois símbolos poderosos na sala de milhões de brasileiros: o crucifixo na parede e a Bíblia aberta.