Fazer alerta de cena gay é estupidez, diz produtor
22 mai
2014
- 15h14
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Ainda repercute na imprensa e nas redes sociais a notícia envolvendo um cinema de João Pessoa, na Paraíba, que está sob suspeita de conduta homofóbica. Os funcionários da bilheteria teriam sido instruídos a avisar o público sobre as cenas de sexo gay no filme 'Praia do Futuro', do cineasta Karim Aïnouz.No longa, em cartaz no país desde o dia 15, o ator Wagner Moura interpreta um salva-vidas que se relaciona com um turista alemão. Os dois transam em várias sequências. A denúncia contra o cinema foi feita por um espectador, o professor Iarlley Araújo, que postou no Facebook a foto de seu ingresso carimbado com a palavra 'avisado'.O cinema afirma não ter havido preconceito. Existe a suspeita de que o aviso seria uma maneira de evitar que espectadores se sentindo ofendidos com as cenas íntimas entre dois homens pedissem o ressarcimento do valor do ingresso.O ator e produtor de cinema Marcio Rosário prepara o lançamento do curta-metragem 'Flerte', com roteiro e direção de Hsu Chien. O filme é um drama com cenas de sexo entre dois homens. Rosario acredita que tentar impor censura a um filme de temática homossexual é uma atitude 'estúpida'. Ele defende que gays tenham cada vez mais espaço na TV e no cinema. O produtor concedeu a entrevista a seguir por e-mail.A direção do cinema de João Pessoa teve uma atitude homofóbica ao avisar o público sobre as cenas de sexo gay em 'Praia do Futuro'?MR: Tentei me colocar na cabeça das pessoas que resolveram criar esse 'mecanismo de censura', e não consigo ver de outro modo a não ser homofobia, discriminação e preconceito. Não acredito que eles façam o mesmo quando existe uma cena de sexo entre homem e mulher, ou quando existe uma cena com alto teor de drogas e até mesmo cenas com violência gratuita. Então por que essa atitude? Pura intolerância.O público não tem o direito de saber antes para então decidir se quer ver dois homens transando na tela do cinema?MR: Claro que sim. Se alguém tivesse perguntado na bilheteria sobre o filme e o mesmo atendente tivesse dado a informação seria totalmente válido. Mas pelo que li não foi o público quem perguntou sobre o filme. Foi uma recomendação da gerência do cinema.Wagner Moura, tão famoso pelo viril Capitão Nascimento de 'Tropa de Elite', foi considerado corajoso por interpretar um homossexual em 'Praia do Futuro'. No geral, atores têm receito de viver gays na TV e no cinema?MR: O ator não pode ter esse medo. Um personagem gay tem uma carga dramática muito grande e tudo o que nós atores queremos são personagens polêmicos, instigantes e com densidade de emoções. O Wagner está fantástico nesse filme, se mostrando cada vez mais maduro. O personagem dele tem uma trajetória bacana. O fato de ser gay não é a questão principal.Há quem acredite existir uma ditadura gay que pretende impor a aceitação da homossexualidade por meio da mídia. O que acha disso?MR: Uma grande bobagem. Só vejo essa discussão sobre ditadura gay aqui no Brasil. Mundo afora são lançados anualmente centenas de filmes, entre documentários e ficções, com temáticas LGBT. Essas produções ganham tratamento completamente diferente do que acontece aqui. Acho o Brasil um dos países mais homofóbicos do mundo.Na TV as temáticas gays estão cada vez mais frequentes. Existe um modismo gay?MR: Não é modismo e sim uma reação natural aos tempos modernos. Apresentar a diversidade sexual na teledramaturgia faz com que as pessoas passem a pensar mais, entender e até aceitar todos os grupos sociais. A visibilidade permite que a sociedade discuta abertamente sobre as questões LGBT. O ódio, a intolerância e o preconceito ainda são muito fortes.Por que decidiu produzir um curta-metragem com cenas de sexo gay explícito?MR: Não vejo as cenas como explícitas. As considero fortes e extremamente bem filmadas. Quando li o roteiro, não pensei duas vezes. A espinha dorsal da história poderia reunir um homem e uma mulher. Mas entendi que o diretor (Hsu Chien) gostaria de propor a discussão sobre a relação intensa, e às vezes até violenta, entre homens.Caso um cinema tome a iniciativa de avisar aos espectadores, na bilheteria, que seu filme contém cenas de sexo gay, qual será a sua atitude?MR: Farei uma mobilização, especialmente nas redes sociais. Não podemos deixar que ditem as regras e censurem nosso trabalho. Discriminação, intolerância, preconceito e ódio são coisas que devem ficar no passado. Como o pessoal do filme 'Praia do Futuro' disse, homofobia não é a nossa praia.Um filme como 'Flerte', considerado ousado para o padrão brasileiro, conseguirá ter carreira bem-sucedida nos cinemas e festivais?MR: A receptividade está acima do que esperávamos. Em menos de um mês já recebemos convites para festivais em Los Angeles, Londres e cidades da America Latina. Estamos felizes com a repercussão do filme, antes mesmo da estreia oficial, que será em julho, para convidados.O autor Aguinaldo Silva, que é gay assumido e sempre apresenta personagens homossexuais em suas novelas, disse no Twitter que "gay consome pra caramba, os patrocinadores gostam disso". Não existe mais dificuldade em conseguir verba para um projeto com tema gays?MR: Aguinaldo Silva é um mestre e sabe o que diz. Para o filme 'Flerte' não tivemos patrocinadores, e sim apoiadores locais. Todos aceitaram o projeto sem contestar o conteúdo gay. Gastamos 25 mil reais na produção. A equipe trabalhou sem cachê por acreditar no projeto. Rodamos o filme em apenas dois dias, umas 30 horas de trabalho.A Globo, até então vista como conservadora, liberou o beijo gay entre os personagens Félix e Niko na novela 'Amor à Vida'. Qual seria a próxima conquista para os gays na teledramaturgia?MR: Quanto mais personagens LGBT forem vistos em novelas, seriados e filmes, teremos menos intolerância e preconceito. Essas polêmicas são importantes para construirmos uma sociedade melhor.