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Dira Paes diz que ainda não está preparada para posar nua

10 mar 2011 - 07h38
(atualizado às 07h38)
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Mariana Trigo

Dira Paes não se subestima, mas tampouco se superestima ao traçar paralelos entre a carreira, a fama atingida na TV e as dezenas de longas ao longo de sua trajetória no cinema. Da mesma forma que coloca os pés no chão ao falar sobre a profissão, sobe bem no alto de seus saltos emperiquetados ao se orgulhar de sua ascendente carreira na TV, com personagens cada vez mais populares.

Neste equilíbrio de trejeitos brejeiros e discurso embasado, esta atriz paraense consegue encontrar graça na fosca viúva Marta, a densa costureira que se tornou namorada de Victor Valentim, o protagonista de Murilo Benício no "remake" Ti-Ti-Ti, de Maria Adelaide Amaral. Depois da sedutora e atrevida adúltera Norminha, de Caminho das Índias e da sequelada doméstica Solineuza, do seriado A Diarista, Dira volta ao ar com uma personagem absolutamente contrária aos seus papéis anteriores, que trouxeram destaque à sua carreira na TV, desde sua estreia no veículo há 21 anos, na novela Araponga, de Dias Gomes. "Nunca senti falta de construir uma carreira na televisão. Mas, depois que comecei a ter o público da TV, comecei a gostar dessa relação", afirma.

Manutenção estética
Grande parte das personagens de Dira exigiram decotes, fendas e um corpo sempre em forma. Para corresponder as expectativas de seus papéis, a atriz nunca descuidou dos cuidados com o corpo por muito tempo, a não ser durante o período em que ficou grávida e após o parto. "Tenho muita disposição física, mas fiquei quase três anos sem malhar verdadeiramente. Agora voltei a ser uma mulher exemplar", brinca.

No entanto, a atriz, que fazia atletismo na infância e na adolescência, voltou a praticar corrida e a fazer exercícios com pesos para manter o tônus muscular. Tanto que chegou a ser convidada a posar nua e estampar a capa da revista Playboy por três vezes, mas recusou todas as propostas. "Na última vez, eu tinha acabado de ter filho. Adoro as fotos da 'Playboy'. Me senti lisonjeada porque a Norminha era toda volumosa e tal, mas precisava estar 100% convencida e eu não estava", observa.

Confira a entrevista na íntegra:

Em Caminho das Índias você viveu a Norminha, uma personagem explosiva e sedutora e, no ano seguinte, voltou ao ar com a Marta, uma viúva apagada e sofrida. Como foi essa mudança radical no início da trama? Como você reagiu à essa alteração de perfil de personagem?

Quando o (diretor) Jorge Fernando me ligou, fiquei muito feliz por ela ser bem diferente da Norminha. Você sai de um trabalho onde você teve uma linha específica com muita vontade de ir para um personagem diferente até para se medir, se sentir e ver sua criatividade em ebulição. Adorei essa mudança. Só estranhei no início por ela ter tantos filhos. Eu só sou mãe do Inácio (risos). Mas conseguimos uma grande harmonia. A Marta tem muito material interior. Para mim, foi ótimo porque trabalhei muito a subjetividade da personagem. Ela é uma mulher que não conseguia se abrir para o amor porque teve um trauma enorme. Há pouco tempo ela acabou descobrindo o amor com o melhor amigo (Victor Valentim, vivido por Murilo Benício). Estou achando esse assunto muito interessante.

Por quê?

Porque quando você se envolve com um grande amigo, se não der certo esse relacionamento, a pessoa perde o amor e o melhor amigo. Estou gostando muito desse momento dela. A Marta também mudou o cabelo. Saiu daquele corte Chanel emborcado para dentro, caretão. Quando as mulheres não podem mudar a vida que estão levando, mudam o corte, a cor do cabelo. Esse texto é dela. E é a pura verdade.

Que caminhos você buscou para essa composição?

Me inspirei na Aracy Balabanian. Lembro dela interpretando a Marta na primeira versão de Ti-Ti-Ti, há 25 anos. Mas ela fazia a personagem de forma muito mais contida. O cabelo era um Chanel ainda muito mais comportado. A Aracy vai da comédia para a tragédia numa linha muito tênue e esse é um perfil legal para essa novela. A gente está fazendo uma comédia às sete da noite com um olhar cotidiano, mas que tem muito drama. Mas assisti muito pouco a primeira versão. A inspiração vem inconscientemente. Fui lembrando vagamente de algumas coisas.

O fato da sua mãe ser costureira trouxe influências para viver uma personagem com essa profissão?

Eu adorei isso. Estava lendo um livro sobre um cangaceiro e uma costureira, de uma autora brasileira que vivia nos Estados Unidos. Ela fala que uma costureira não tem dúvidas, só certezas. Quando ela vai cortar um tecido, não pode ter dúvidas. Minha mãe tem esse perfil da precisão, da coerência. Fiz paralelos entre essa profissão e a personalidade dela, a certeza, a paciência. Eu já costurei, já fiz um vestido e muitas bolsinhas de viagem (risos). O barulho da máquina de costura é muito próximo da minha memória, muito familiar.

Na TV você passou a ser familiar para o público após viver a doméstica Solineuza em A Diarista. Chegou a ficar preocupada em poder ficar marcada pela personagem por tê-la interpretado por tanto tempo, três anos e meio?

Fiquei. Porque ela é aquela personagem tão gostosa de fazer que você quer comer com farinha (risos). Era muito legal de fazer, as pessoas adoravam. Demorou muito para ela sair de mim. Mas não podia imaginar atuar em A Diarista por 10 anos para quem quer tanto viver outros personagens na televisão. Mesmo assim, foi um período maravilhoso para mim como atriz. O (diretor) José Alvarenga teve um papel fundamental nisso. Ele deu o ritmo da comédia e a moldou com uma sagacidade e um olhar preciso sobre a piada sem praticamente precisar de ensaio. Ele ensaia e grava de forma muito espontânea. O que teve de melhor para mim em A Diarista foi o ritmo e a segurança de me expor, a comédia da entrega, sem o medo do ridículo.

Logo depois da explosão da Solineuza, veio a consagração com a Norminha, em Caminho das Índias. Como foi experimentar o sucesso após tantos anos de carreira com pouco reconhecimento do público?
As pessoas ainda falam muito da Norminha e da Solineuza. Depois das duas, a minha relação com o público passou a ser de intimidade. Agora também me sinto íntima deles. Eles passaram a apostar em mim, querem saber qual meu próximo personagem. O que aconteceu com a Norminha e que está acontecendo com a Marta é que o público se estende, tem um leque imenso, vai das crianças aos velhinhos. Isso se mantém. Tenho um público infantil que me acompanha em três personagens.

Por que, antes disso, você era tão bissexta na TV?

Porque fazia muito cinema. E o cinema brasileiro não tinha tanta amplitude de público quanto tem hoje. Meu trabalho se restringiu aos cinéfilos que curtiam cinema brasileiro. Fiz algumas coisas na Globo. Sempre fui atrás dos bons personagens. Achava que a minha relação com a emissora tinha de ser de mão dupla. Eles tinham de me querer da mesma forma que eu tinha de querer eles. Eu nunca vinha na Globo. Mesmo quando sabia que teria alguma novela nova. Acreditava que eles iriam lembrar de mim por alguém que visse meu trabalho no cinema. Foi o que sempre aconteceu. Foi assim com todos os meus trabalhos.

Mas, quando você filmava direto, não sentia falta de construir uma carreira na tevê?

Sinceramente? Não. Agora que tenho uma vivência na TV é diferente. O desejo do público molda muito você. A grande diferença é que a audiência de um dia de novela tem muito mais espectadores que todos os meus filmes juntos. Mas eu sempre vivi muito bem nesse núcleo do cinema. E com bons papéis. O que tenho vontade é de descobrir novos personagens dentro de mim. Ficar inventado para não me repetir e sempre notarem um frescor em mim. Agora, como estou fazendo seis anos de televisão sem intervalos, fico o tempo todo querendo esse frescor e o que me traz isso, de certa forma, é o cinema. Nele, tenho oportunidade de ir para outros universos. Com ele, viajo muito e me alimento de coisas muito diferentes de mim.

Foram mais de 30 filmes na sua carreira. Como você avalia essa trajetória farta no cinema nacional?

Trabalho desde os 15 anos fazendo cinema. Isso dá uma média de dois filmes por ano. Sempre encarei a profissão como uma carreira mesmo. Me sinto parte de um todo, de uma engrenagem. Não faço de mim um objeto inatingível. Desmistificar o glamour é ótimo para a interpretação. Olho dessa forma para a minha carreira e fico feliz com a diversidade que alcancei dentro da minha própria brasilidade. O que poderia ser um estigma, virou um retrato de uma brasilidade ampla que me leva para fazer um filme no Sul, no Pará, em Brasília. Interpreto uma feia, uma bonitinha, uma sedutora, uma assexuada...

Dira Paes diz que está se acostumando com a TV
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Foto: Jorge Rodrigues Jorge/Carta Z Notícias / TV Press
Fonte: TV Press
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