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Cantora transexual explorada na TV argentina perde tudo e vai morar na rua

História triste de Zulma Lobato mostra como a fama pode levantar e derrubar uma pessoa diante do público insensível

19 ago 2026 - 10h08
(atualizado às 10h08)
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Em 2009, os argentinos se encantaram ao conhecer pela televisão a cantora transexual Zulma Lobato.

Levada a um programa popular, ela relatou o drama de fazer a transição de gênero aos 40 anos, se prostituir para sobreviver e enfrentar diferentes preconceitos.

Denunciou cafetões, policiais corruptos, clientes violentos.

Ganhou fama como artista talentosa e ativista LGBT+, porém, passou a ser alvo de chacota em quadros de humor.

Numa época de pré-cancelamento e menor cobrança por empatia, alguns comediantes se sentiram à vontade para tratar Zulma como ‘bizarra’ e ‘digna de pena’.

Certa vez, chegaram a rir quando ela contou que passava fome.

Explícita transfobia a serviço da audiência.

Auxiliada, a cantora lançou músicas, conseguiu uma casa e conheceu uma vida estável.

Em 2011, ainda em evidência, ela teve um desmaio num programa ao vivo. 

A emissora continuou transmitindo, sem poupá-la da superexposição em momento de extrema fragilidade.

Tudo em torno de sua figura exótica era tratado como show.

Corta para agosto de 2026.

Zulma é fotografada vivendo em situação de rua numa cidade no interior da Argentina.

Está quase careca, suja, desarrumada, envelhecida, desorientada.

Não tem moradia digna nem dinheiro para comer. Passa quase todo o tempo sentada num colchão na calçada.

Na bolsa, apenas algumas peças de roupas e remédios.

A estrela trans que anos antes era bajulada por apresentadores famosos se vê abandonada aos 67 anos.

Uma influenciadora se comoveu com a situação e passou a publicar vídeos sobre Zulma.

Surgiram pessoas dispostas a resgatá-la do inferno mais uma vez.

O Brasil já teve muitas Zulmas: pessoas humildes usadas pela mídia e depois descartadas.

Eram úteis enquanto atraíam público e anunciantes.

Cedo ou tarde, a maioria voltou ao ponto inicial: pobreza, violência e solidão.

Esse é um aspecto perverso da TV, ou melhor, de certos profissionais em algumas emissoras.

E há a parcela de responsabilidade do telespectador, que gosta de consumir a ascensão e queda desses personagens do mundo cão.

O escritor e teórico da mídia Neil Postman acertou ao afirmar que quase tudo vira entretenimento.

Disse ainda que a televisão oferece um bom modo de a humanidade conhecer a si mesma.

Provavelmente, ele se referia ao nosso pior lado.

Zulma Lobato virou atração na TV da Argentina e, depois, conheceu o desprezo da mídia
Zulma Lobato virou atração na TV da Argentina e, depois, conheceu o desprezo da mídia
Foto: Reprodução
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