Cantora transexual explorada na TV argentina perde tudo e vai morar na rua
História triste de Zulma Lobato mostra como a fama pode levantar e derrubar uma pessoa diante do público insensível
Em 2009, os argentinos se encantaram ao conhecer pela televisão a cantora transexual Zulma Lobato.
Levada a um programa popular, ela relatou o drama de fazer a transição de gênero aos 40 anos, se prostituir para sobreviver e enfrentar diferentes preconceitos.
Denunciou cafetões, policiais corruptos, clientes violentos.
Ganhou fama como artista talentosa e ativista LGBT+, porém, passou a ser alvo de chacota em quadros de humor.
Numa época de pré-cancelamento e menor cobrança por empatia, alguns comediantes se sentiram à vontade para tratar Zulma como ‘bizarra’ e ‘digna de pena’.
Certa vez, chegaram a rir quando ela contou que passava fome.
Explícita transfobia a serviço da audiência.
Auxiliada, a cantora lançou músicas, conseguiu uma casa e conheceu uma vida estável.
Em 2011, ainda em evidência, ela teve um desmaio num programa ao vivo.
A emissora continuou transmitindo, sem poupá-la da superexposição em momento de extrema fragilidade.
Tudo em torno de sua figura exótica era tratado como show.
Corta para agosto de 2026.
Zulma é fotografada vivendo em situação de rua numa cidade no interior da Argentina.
Está quase careca, suja, desarrumada, envelhecida, desorientada.
Não tem moradia digna nem dinheiro para comer. Passa quase todo o tempo sentada num colchão na calçada.
Na bolsa, apenas algumas peças de roupas e remédios.
A estrela trans que anos antes era bajulada por apresentadores famosos se vê abandonada aos 67 anos.
Uma influenciadora se comoveu com a situação e passou a publicar vídeos sobre Zulma.
Surgiram pessoas dispostas a resgatá-la do inferno mais uma vez.
O Brasil já teve muitas Zulmas: pessoas humildes usadas pela mídia e depois descartadas.
Eram úteis enquanto atraíam público e anunciantes.
Cedo ou tarde, a maioria voltou ao ponto inicial: pobreza, violência e solidão.
Esse é um aspecto perverso da TV, ou melhor, de certos profissionais em algumas emissoras.
E há a parcela de responsabilidade do telespectador, que gosta de consumir a ascensão e queda desses personagens do mundo cão.
O escritor e teórico da mídia Neil Postman acertou ao afirmar que quase tudo vira entretenimento.
Disse ainda que a televisão oferece um bom modo de a humanidade conhecer a si mesma.
Provavelmente, ele se referia ao nosso pior lado.
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