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O Brasil racista e machista consagrou uma negra feminista

Vitória de Thelma Assis foi o final perfeito de uma temporada memorável do Big Brother Brasil

28 abr 2020
09h59
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No ano em que a Viradouro ganhou o Carnaval carioca com um enredo sobre escravas que trabalhavam para comprar sua alforria, em uma ode ao poder feminino, o público do Big Brother Brasil promoveu a vitória de uma descendente indireta daquelas mulheres guerreiras. Campeã na vida ao superar a pobreza e o racismo para se formar médica, Thelma Assis é também agora uma vencedora do maior reality show do mais popular veículo de comunicação do País. Mais valioso do que o prêmio de R$ 1,5 milhão foi a superação dentro do jogo, onde ela era verbalmente definida por alguns adversários como uma participante fraca e irrelevante.

No caminho até a vitória, Thelma superou o ataque dos chernoboys, amizades falsas e momentos de solidão
No caminho até a vitória, Thelma superou o ataque dos chernoboys, amizades falsas e momentos de solidão
Foto: Divulgação

No dia em que a imprensa noticiou a humilhação sofrida por um idoso negro acusado injustamente de furtar um celular em um hospital, enquanto sua mulher padecia em um leito (ela morreu horas depois de testemunhar as agressões ao marido), Thelma cala a boca de racistas, machistas, misóginos, sexistas e elitistas. Não foi uma vitória individual: venceram os negros e pardos que formam a maioria da população brasileira, e triunfaram também os brancos e  miscigenados que defendem a igualdade entre as pessoas e o combate a qualquer tipo de segregação.

Disse o respeitado geógrafo e ícone negro Milton Santos (1926-2001), da USP: "A força da alienação vem dessa fragilidade dos indivíduos, quando apenas conseguem identificar o que os separa e não o que os une". A conciliadora Thelma agregou com seu discurso em prol do respeito ao outro, independentemente de quem ele seja e de sua origem. No início do reality show, a jovem adotada com apenas três dias de vida parecia vulnerável e deslocada. Aos poucos cresceu e apareceu na competição sem recorrer a nenhuma estratégia tóxica para desprezar ou debilitar os antagonistas. Chamada de 'planta', ela floresceu.

Há quem sustente que Thelma se tornou campeã graças ao politicamente correto. Improvável. Ninguém precisa fingir empatia e correção comportamental ao votar na privacidade de sua casa. Vota-se com o coração, com o espírito, com o fígado. Ela ganhou porque despertou sentimentos positivos nos telespectadores ao defender o que acredita e o que deseja para si e para o mundo, em especial às mulheres oprimidas. O formato do Big Brother trabalha basicamente com isso: a identificação emocional entre quem está dentro e fora da casa. Quis o destino que Thelma vencesse o BBB20 em 27 de abril, o Dia da Liberdade na África do Sul, data de celebração do fim do mais sórdido regime racista de todos os tempos, o apartheid. A vida sorri nas coincidências.

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