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Novela errou ao confundir o público, diz terapeuta sexual

Ana Canosa analisa o polêmico uso de coaching em ‘O Outro Lado do Paraíso’.

9 fev 2018
14h58
atualizado em 10/2/2018 às 15h12
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Após intenso sofrimento, Laura (Bella Piero) finalmente recorda o abuso sexual sofrido na infância. Decidida a superar o trauma, ela vai enfrentar o abusador: seu padrasto, o delegado Vinícius (Flávio Tolezani).

O atendimento à jovem foi feito pela advogada Adriana (Julia Dalavia), com o uso do coaching (metodologia para melhorar o desempenho a fim de atingir metas) e da hipnose (técnica para acessar o inconsciente da pessoa), e não por um profissional de Psicologia especializado em sexualidade.

O abusador, Vinícius (Flávio Tolezani), e a vítima, Laura (Bella Piero): trama relevante abafada por conflito comercial.
O abusador, Vinícius (Flávio Tolezani), e a vítima, Laura (Bella Piero): trama relevante abafada por conflito comercial.
Foto: Raquel Cunha/TV Globo

O autor de ‘O Outro Lado do Paraíso’, Walcyr Carrasco, suscitou polêmica ao inserir o entusiasmo pessoal pelo coaching (ele fez o curso de formação) em uma ação de merchandising paga pelo Instituto Brasileiro de Coaching (IBC), onde o novelista estudou.

Uma trama representativa da dor emocional de milhões de telespectadores acabou ofuscada pela controvérsia a respeito dos limites de atuação de um coach.

Outra questão mostrou-se igualmente delicada: transformar a discussão deste tema social em propaganda explícita, com benefício a quem pagou (o IBC) e a quem recebeu (a Globo e o autor) não fere a ética?

O blog conversou com a psicóloga especialista em terapia sexual e educação sexual Ana Canosa, diretora de publicações da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana (SBRASH).

“Não sou contra o coaching, longe disso, já encaminhei pacientes para processos com coaches e continuarei encaminhando”, afirma a entrevistada.

Afinal, um coach pode atender um paciente com trauma baseado em abuso sexual?

Depende, qual é o objetivo do atendimento? Desenvolver habilidades para alcançar metas ou se enredar no drama emocional do cliente? Embora os próprios coaches estejam se manifestando para deixar explícito que o atendimento não deve ter proposta ‘curativa’, nem trabalhar com questões emocionais complexas, esse limite de atuação pode não ser tão claro assim, por isso é necessário dobrarem-se os cuidados. Se um paciente meu chega com uma queixa de dependência química, eu posso atendê-lo por ser psicóloga? Sim, posso. Mas não o faço. Encaminho para meus colegas com especialização no assunto, com experiência, porque sei da complexidade, das comorbidades (associação de duas ou mais doenças no mesmo paciente) e das ferramentas necessárias a esse tipo de trabalho, as quais eu não tenho domínio. Então, se uma pessoa chega para um coach e diz: “eu não consigo fazer sexo com meu parceiro porque tenho uma disfunção sexual, além de aversão a toques físicos e emocionais”, o profissional deveria encaminhá-la diretamente a um terapeuta sexual. Não é preciso ser gênio para entender isso.

A novela foi acusada por algumas entidades de psicólogos de praticar um desserviço à população por confundir ao invés de esclarecer. Qual sua opinião?

Confunde, óbvio que sim. Confunde não só as vítimas de abuso, como as pessoas que estão passando por outros conflitos. Confunde o coach que acha que pode abraçar o mundo emocional do outro. Para piorar, a personagem Adriana é formada em direito, é coach e ainda por cima faz hipnose. Como o público entenderá isso? Saberão diferenciar profissionais que têm mais de uma formação e se especializaram em ferramentas específicas, como hipnose, PNL (Programação neurolinguística) e coaching? Então, se o tema do abuso sexual vai ser apresentado como uma realidade emocional dolorosa, um sofrimento psíquico de grande magnitude que provoca as mais complexas queixas sexuais, a novela poderia fazer um trabalho completo, orientando o público a buscar profissionais que estejam realmente preparados para acolher e ajudar.

A hipnose é regularmente utilizada no tratamento de um trauma sexual?

Trata-se de uma ferramenta antiga e conhecida. Muitos profissionais utilizam a hipnose para acessar memórias carregadas de afeto, principalmente traumas psíquicos. Mas a prática também deve ser feita em um contexto maior, de cuidados, de amparo. Há pessoas ganhando muito dinheiro vendendo curso online de hipnose. Tenho muito receio disso.

A Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana (SBRASH) e a Comissão Nacional Especializada de Sexologia da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASCO) divulgaram em conjunto uma nota de esclarecimento.

No texto, manifestaram-se contrárias à maneira como o tratamento do abuso sexual tem sido retratado em ‘O Outro Lado do Paraíso’: “As vítimas de abuso sexual precisam de tratamento interdisciplinar com equipe interdisciplinar, que envolve psicólogo, médico psiquiatra, terapeuta sexual, fisioterapeuta, entre outros. Assim, é contraindicado que o caso apresentado na novela passe a ideia de possível ajuda de uma advogada e coach que aplicaria a hipnose. De fato, não existe nenhuma evidência científica de que um problema de saúde tão complexo possa receber assistência por este profissional. Passar essa noção aos telespectadores contribuirá para prolongar o sofrimento das mulheres vítimas de abuso sexual. A vítima de uma violência sexual (seja ela mulher ou homem) deverá compartilhar sua dor e sofrimento com um prof issional de saúde que irá referenciá-la para o tratamento adequado”.

A nota é assinada por Raquel Simone Varaschin, presidente da SBRASH, e Lucia Alves da Silva Lara, presidente da Comissão de Sexologia da FEBRASGO.

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