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Globo fará crítica a evangélicos, homofóbicos e radicais

Reta final de A Dona do Pedaço vai mostrar a intolerância associada a quem é contra a diversidade sexual por questão religiosa ou ideológica

29 out 2019
09h30
atualizado às 09h31
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Não é raro o bandidão da novela ganhar a redenção nos capítulos finais. Geralmente acontece por exame de consciência ou vitimado por uma tragédia. Em A Dona do Pedaço, os vilões vão se redimir pela fé.

Josiane (Agatha Moreira) e Régis (Reynaldo Gianecchini) se tornarão evangélicos. Ela, atrás das grades; ele, influenciado justamente por sua ex-cúmplice no golpe contra Maria da Paz (Juliana Paes).

O empresário assumirá postura conservadora. Vai se recusar a comparecer ao casamento de Agno (Malvino Salvador) e Leandro (Guilherme Leicam) por não aprovar a união gay, de acordo com sua nova religiosidade. “Régis virou radical”, dirá Lyris (Deborah Evelyn), irmã do ex-bon-vivant.

Régis (Reynaldo Gianecchini) em transformação: de malandro infiel a crente preconceituoso
Régis (Reynaldo Gianecchini) em transformação: de malandro infiel a crente preconceituoso
Foto: Vitor Pollak/TV Globo/Divulgação

O ambíguo e apagado Régis se perdeu no meio da trama. Começou como malandro, flertou com a vilania, assumiu o papel de bandido arrependido e agora virou o grande injustiçado do folhetim.

Sem força dramática, o personagem não convence. Esse possível desfecho como religioso radical acrescenta mais incoerência à personalidade dele.

No caso de Josiane, se tornar crente deverá ser apenas mais uma estratégia para tentar enganar as pessoas a fim de amenizar o julgamento público. O manjado recurso da fé como instrumento de manipulação para conseguir benefício escuso.

Converter os crápulas, em uma espécie de purificação do mal, parece ser uma crítica sarcástica do autor Walcyr Carrasco contra o uso da religião – e da suposta autoridade de quem a professa – para praticar a intolerância.

Para um vilão, usar o apelo emocional da fé é uma artimanha recorrente para conseguir ser perdoado. O noveleiro já viu isso acontecer em várias produções.

Em Salve Jorge (2012-2013), a maquiavélica Wanda (Totia Meirelles) se tornou evangélica na cadeia, após ser presa por um série de crimes hediondos.

O público interpretou a mudança radical como ironia. A autora Gloria Perez foi duramente criticada por protestantes que se sentiram ofendidos.

A crítica ao radicalismo religioso não é recente na teledramaturgia.

Impossível esquecer o pastor Hilário (Jorge Doria) de Tieta (1989-1990). Com estilo histriônico como o dos telepastores, ele chegava na pacata Santana do Agreste com a intenção de conquistar mais ‘ovelhas fiéis’ para seu rebanho de pagadores de dízimo. Um deboche feito pelo autor Aguinaldo Silva.

Alguns anos antes, o telespectador viu o conservadorismo religioso ser contestado por meio do severo pregador cristão Sebastião (Sebastião Vasconcellos) em Selva de Pedra. A segunda versão da novela, produzida em 1986, está sendo reprisada atualmente no canal Viva.

Outra produção da Globo com explícita crítica ao uso indevido da religião foi Decadência, minissérie escrita por Dias Gomes em 1995.

Nela, Edson Celulari viveu Mariel, um rapaz pobre e humilhado pelos patrões que se vinga ao se tornar um pastor neopentecostal milionário e obcecado por poder.

Resta saber se, no final de A Dona do Pedaço, a conversão de Régis e Josiane será confirmada como ponto de virada dos personagens ou somente um artifício para amenizar a merecida punição. Seja qual for a escolha do autor, a polêmica está lançada.

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