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Em 1989, novela da Globo previu Brasil atual: “Vagabundagem”

Cena de “Que Rei Sou Eu?” com crítica social faz sucesso nas redes sociais e mostra que a teledramaturgia pode ser profética

13 mai 2021 11h25
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O temido Mestre Ravengar (Antônio Abujamra) toma lição de geografia de Pichot (Tato Gabu Mendes), um mendigo sendo preparado para se passar por herdeiro do trono de Avilan em 1786. Ao avistar a América do Sul em um globo, o rapaz se mostra curioso. “Que País enorme é esse aqui?”

O bruxo Ravengar em atuação impecável de Antônio Abujamra (1932-2015): o Brasil mudou pouco em 32 anos
O bruxo Ravengar em atuação impecável de Antônio Abujamra (1932-2015): o Brasil mudou pouco em 32 anos
Foto: Reprodução

“Esse é um País que está sendo colonizado pelos portugueses”, explica o sábio. Em seguida, ele se entusiasma. “Esse País, no futuro, será um exemplo para o mundo”, diz. “Exemplo do quê, mestre?”, quer saber o aprendiz.

“De corrupção e vagabundagem”, responde Ravengar, enfático. Ouve-se ao fundo uma bateria de escola de samba. “Um País muito rico que será entregue aos estrangeiros, de mãos beijadas, aos poucos.”

Com seu poder de prever o futuro, o bruxo continua a falar do Brasil. “Lá por 1930, esse País começará a ser explorado por seus próprios governantes. E não ficará assim, irá muito além. No ano 2000, esse País estará como Avilan... quebrado.”

Essa sequência faz parte de ‘Que Rei Sou Eu?’, comédia escrita por Cassiano Gabus Mendes em 1989, ano da dramática disputa eleitoral entre Collor e Lula pela Presidência. A trama com forte crítica social fez sucesso na faixa das 19h da Globo. O fictício reino de Avilan era uma analogia ao Brasil do passado, do presente (na época) e do futuro.

Ao citar 1930, Ravengar se refere ao golpe de Estado que depôs o presidente Washington Luís, impediu a posse do presidente eleito Júlio Prestes e deu fim à República Velha. Líder daquele movimento, Getúlio Vargas assumiu o poder e ficou 15 anos na Presidência. Depois da fase ‘ditador’, se elegeu por voto direto em 1950.

O impostor Pichot foi colocado no trono de Avilan para que os poderosos continuassem a surrupiar o reino: um retrato crítico da política brasileira na teledramaturgia
O impostor Pichot foi colocado no trono de Avilan para que os poderosos continuassem a surrupiar o reino: um retrato crítico da política brasileira na teledramaturgia
Foto: Reprodução

Quando fala da derrocada do Brasil no ano 2000 — 11 anos à frente de quando o folhetim foi escrito —, o místico acertou em cheio. Aquele período impôs extremas dificuldades ao País em razão do “efeito samba”, como foi apelidada a desvalorização do real (e a consequente disparada da inflação) implementada pelo Banco Central no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso.

‘Que Rei Sou Eu?’ foi uma sátira impagável do Brasil em suas mais diversas fases, desde a pilhagem das riquezas pelos descobridores europeus até o ‘jeitinho’ de levar vantagem em tudo vigente ainda hoje. Do corporativismo da elite econômica e política aos movimentos sociais que ambicionam a tomada de poder. Uma novela vanguardista e, ao mesmo tempo, atemporal.

A cena de deboche em relação ao Brasil colonizado com futuro sombrio tem aparecido em redes sociais. Saudosistas, os mais velhos se deliciam com o escárnio e o vaticínio certeiro de ‘Que Rei Sou Eu?’, enquanto os mais jovens tomam conhecimento de uma das melhores novelas produzidas pela Globo e entendem melhor como o País chegou na desalentadora situação do momento.

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