Autor de 'Gabriela' irá se distanciar de primeira versão da novela
- Geraldo Bessa
Walcyr Carrasco se define como um "workaholic". Sem ligar muito para férias entre um trabalho e outro, assim que coloca o ponto final em uma trama, logo entrega a sinopse de outra. Por conta disso, nos 12 anos de contrato com a TV Globo, prepara-se para assinar seu décimo trabalho na emissora, a readaptação de Gabriela, baseada no livro Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado, que estreia no próximo dia 19 de junho.
"Gosto de produzir. De estar no ar. Fazer novela é cansativo, mas me sinto um privilegiado por fazer o que gosto e do jeito que quero", gaba-se. Leitor apaixonado da obra do escritor baiano, Walcyr tinha acabado de fazer Morde & Assopra quando soube dos planos da TV Globo em celebrar o nome de Jorge Amado no ano em que ele faria 100 anos.
"Li Gabriela várias vezes ao longo da vida. Gosto da postura política e de como o Jorge retrata a sociedade e o sexo em uma Bahia dos anos 20. Vi que era a oportunidade de mostrar esta história para a geração atual", ressalta o autor, que não gosta de se referir ao novo trabalho como "remake". Segundo ele, seu texto não faz nenhuma referência ao folhetim de Walter George Durst, exibido em 1975. "Minha adaptação é baseada apenas no livro", garante o escritor de 60 anos.
Natural da pequena Bernardino de Campo, interior de São Paulo, Walcyr estreou na tevê de forma discreta com a desconhecida Cortina de Vidro, do SBT, em 1989. Alternando trabalhos na extinta TV Manchete e no SBT ao longo da década de 90, ele só conseguiu chamar atenção do público e da crítica com a libertária Xica da Silva, de 1997, um dos últimos sucessos de dramaturgia da Manchete - a emissora saiu do ar em 1999.
"Tenho muito carinho por essa novela. É certo que só fui para a Globo por causa da repercussão deste trabalho", assegura o autor, que, na época, por ainda ser contratado do SBT, assinou a novela sob o pseudônimo de Adamo Angel.
TV Press - A primeira versão de Gabriela (1975) é clássica, foi reprisada algumas vezes e ainda está no inconsciente coletivo do público de novela. Você está pronto para eventuais comparações?
Walcyr Carrasco - É claro que as comparações vão existir. Porém, não concebi este trabalho como um mero remake da trama de 1975. A origem é o livro do Jorge Amado. Nem assisti a versão de 1975. Por isso, acho que é mais interessante tratar a atual Gabriela como uma readaptação do livro Gabriela, Cravo e Canela.
TV Press - Não assistiu a nenhuma cena mesmo?
Walcyr - Não, pois na época estava morando nos Estados Unidos. E também não tentei rever nada agora. Desde que me foi feito o convite para este trabalho, estava claro que era uma homenagem ao centenário de Jorge Amado e que seria uma adaptação do livro. Eu li Gabriela Cravo & Canela pela primeira vez aos 12 anos. Voltei a ler este livro uma série de vezes na minha vida. Sou um grande fã do Jorge. E por ter essa relação afetiva com a obra literária dele, vejo este trabalho como a realização de um sonho.
TV Press - O que mais chama a sua atenção na trama de Gabriela?
Walcyr - O que me comove em Gabriela é o retrato moral, político e sexual de uma época. No caso, o Brasil no início do século 20. É engraçado que, ao adaptar, é impossível não notar que ainda existem muitos resquícios dessa sociedade no Brasil atual. Outra coisa é a liberdade que a trama carrega. Gabriela é uma personagem extremamente rica, porque ela é totalmente livre. Segue seus instintos sem pensar muito no que pode acontecer, ela ama de maneira libertária, sem interesses, é avessa a qualquer convenção social. Isso mexe comigo.
TV Press - É uma história de forte apelo sexual e vai ao ar às 23h. Você acha que seria possível fazer Gabriela em outro horário?
Walcyr - Mutilaria a trama. Se a Globo me pedisse para fazer essa novela em outro horário, acho que não aceitaria. Teria de cortar muita coisa, e não digo apenas as cenas sensuais ou palavrões, o corte seria de conteúdo. Personagens e situações do livro que precisam da liberdade do horário iriam sofrer com a censura da classificação indicativa.
TV Press - O convite para você fazer Gabriela surgiu logo depois do fim de Morde & Assopra (2011). O fato de ser uma novela mais curta foi importante na hora de aceitar?
Walcyr - Sou tão apaixonado pelo que faço que não fico medindo o tempo das tramas. Quero apenas liberdade de criação. E prazer e estrutura para trabalhar. Eu aceitei na hora, poderia ser uma minissérie, uma novela de 200 capítulos, o que fosse. É um Jorge Amado! Não seria burro a ponto de recusar para curtir minhas férias. Passei uma semana descansando em Miami, e voltei já construindo a trama. O (diretor) Mauro Mendonça Filho tinha acabado de fazer O Astro. Uma semana depois que ele finalizou a direção, a gente foi com a equipe para Ilhéus.
TV Press - Qual foi importância de ir até a cidade onde a história é ambientada?
Walcyr - Total. Fiquei apenas cinco dias em Ilhéus. Embora não seja mais a cidade que está no livro, ainda conserva certos aspectos descritos pelo Jorge. Além de escolher locações junto ao Mauro, visitei as grandes fazendas da região para conhecer antigas propriedades de coronéis, falar com os herdeiros. Fui a casarões do centro da cidade, onde pude ter contato com as outrora "sinhazinhas", que hoje são senhoras idosas. E junto com o Mauro Monteiro, responsável pela cenografia, fiquei pensando em como seria a cidade cenográfica.
TV Press - Geralmente, os autores limitam-se a escrever e a equipe de produção cuida da parte técnica. O que o levou a participar das escolhas cenográficas?
Walcyr - O livro é bem específico e a cidade funciona como um personagem. Por isso, me interessei em participar desta parte do processo. O trabalho é todo do Monteiro, mas eu queria negociar com ele os pontos principais dessa cidade que seria recriada no Projac (Centro de Produção da Globo). Por exemplo, no livro, é claro que quem está no Bar Vesúvio, tinha de ver a moça da janela, que é um desfrute para a cidade toda. Então, era essencial passar essa mensagem na cenografia.
TV Press - O elenco de Gabriela tem nomes que já trabalharam com você em outras novelas, como Vanessa Giácomo e Mateus Solano. A última palavra na escalação dos atores é sua?
Walcyr - Escalar atores é um longo processo de negociação entre autor, diretor-geral, diretor de núcleo, produtores de elenco. Participo da escolha dos atores, e é claro que quero trabalhar com quem eu já sei que pode ter um bom desempenho. Mas fechar elenco é resultado de um consenso.
TV Press - Existe algum nome sugerido que você não tenha gostado tanto no início?
Walcyr - Não. Eu confio nas pessoas que estão na direção. O Roberto Talma e o Mauro Mendonça Filho vieram de um trabalho de muito êxito com o remake de O Astro. É a primeira vez que trabalho com os dois de forma direta e achei que algumas sugestões deles eram realmente muito boas. A ideia de escalar a Ivete (Sangalo) e a Juliana (Paes) foi do Talma. O Nacib era um dos personagens mais difíceis para encontrar um ator. Quando eles falaram o nome do Humberto (Martins), pensei: "pronto! Não tem outro!".
TV Press - Por quê?
Walcyr - Ele tem uma certa inocência no olhar, ao mesmo tempo em que é muito másculo. O Nacib do livro e os outros atores que interpretaram esse personagem tem essa mistura exata entre inocência e virilidade. Humberto captou isso. E quem assiste televisão sabe que ele amadureceu muito artisticamente ao longo do tempo. O vi em O Astro e gostei muito.
TV Press - Gabriela estreia na semana que vem. O que você achou das cenas que já assistiu?
Walcyr - Me surpreendi muito. Por ser a primeira vez que trabalho com o Mauro, não sabia como meu texto iria ficar com o olhar dele. Gosto da visão teatral dele em cena. Pela experiência que tem nos palcos, não faz o ator apenas dizer falas e ter reações, ele faz o intérprete criar. Por ser um texto baseado em literatura, é fácil os atores irem por um caminho - um tom - mais artificial. Mas adorei tudo que vi. Espero que o público também goste.
Sem tantos pudores
Voltar a escrever tramas de temáticas mais ousadas era um desejo antigo de Walcyr Carrasco. Desde que entrou para a TV Globo, em 2000, ele se dedicou a escrever ingênuas histórias de amor no horário das 18h, como Chocolate Com Pimenta, de 2007 - atualmente, sendo reprisada no Vale a Pena Ver de Novo -, ou comédias contemporâneas na faixa das 19h, como Sete Pecados e Caras & Bocas.
Para o autor, com a estreia de Gabriela, ele vai poder dar vazão a sequências mais despudoradas, assim como as que assinava em Xica da Silva, da TV Manchete. Gabriela é um ícone de sensualidade. O texto do Jorge Amado exige liberdade para abordar o assunto de forma coerente. A história de Xica também foi retratada com a sedução que a história pedia", explica.
Exibida às 22h30, a história da escrava que virou rainha durante o século 17, revelou o talento e o corpo de atrizes como Taís Araújo - na época uma estreante - e Carla Regina, nas inúmeras cenas de banho da trama.
Na readaptação de Gabriela, Walcyr promete caprichar nas sequências da protagonista, interpretada por Juliana Paes, e no núcleo do Bataclan, famoso bordel da cidade, capitaneado por Maria Machadão, de Ivete Sangalo. "É onde todos os homens de Ilhéus parecem ser felizes. Mas no bordel posso ir além do sexo. É onde mora parte da política e da hipocrisia da alta sociedade também", ressalta.
Pitada de baianidade
Com um elenco de aproximadamente 60 atores, Walcyr Carrasco aposta no nome da cantora Ivete Sangalo como o destaque de Gabriela. "Ivete é uma grande atriz, mas nem ela e nem o público sabe disso. Vai ser uma revelação", opina.
O autor pôde ver o desempenho da cantora durante uma cena onde Ivete divide as câmaras com o experiente Antônio Fagundes, intérprete do principal vilão da trama, o Coronel Ramiro Bastos. "Sabia que ela iria gravar com o Fagundes e fiquei curioso. Foi muito bom! O diretor explicava a intenção da cena e ela fazia na hora", elogia.
Trajetória Televisiva
Cortina de Vidro (SBT, 1989) - Autor
Rosa dos Rumos (Manchete, 1990) - Autor
Filhos do Sol (Manchete, 1991) - Autor
O Guarani (Manchete, 1991) - Autor
Retrato de Mulher (Globo, 1993) - Autor
Xica da Silva (Manchete 1996) - Autor
Fascinação (SBT, 1998) - Autor
O Cravo e a Rosa (Globo, 2000) - Autor
A Padroeira (Globo, 2001) - Autor
Esperança (Globo, 2002) - Co-autor
Sítio do Picapau Amarelo (Globo, 2002) - Autor
Chocolate Com Pimenta (Globo, 2003) - Autor
Alma Gêmea (Globo, 2005) - Autor
O Profeta (Globo, 2006) - Supervisor de texto
Sete Pecados (Globo, 2007) - Autor
Caras & Bocas (Globo, 2009) - Autor
Morde & Assopra (Globo, 2010) - Autor
Gabriela (Globo, 2012) - Autor