Atores mais velhos dispensam aposentadoria e ganham espaço na TV
De alguma maneira, as novelas refletem aspectos da sociedade. Como o aumento da expectativa de vida, que saltou no Brasil de 67 anos, em 1991, para 72,5, em 2007. Sob essa ótica, não é estranho o crescimento de personagens interpretados por atores que, em outras profissões, já estariam aposentados.
Desde casais maduros e apaixonados a avôs simpáticos ou patriarcas que não têm sua opinião respeitada pela família, muitos são os exemplos de papéis para esses profissionais nas tramas atuais. E seus intérpretes não só aproveitam essas oportunidades, como também deixam claro que não têm qualquer vontade de parar.
"Não vejo necessidade de ficar em casa. O trabalho não está pesando e ainda estou dentro das minhas faculdades mentais", atesta Ary Fontoura, 76 anos, o ricaço Jacques de Caras e Bocas, que estréia dia 13, na Globo.
Ary emenda sua terceira novela. Mas como seu personagem sai da trama na primeira semana, poderá descansar durante um bom tempo. "Se voltar, é só do meio para o final", adianta o ator, que não parou mais do que poucas semanas entre os trabalhos em Sete Pecados e A Favorita.
Como ele, Mauro Mendonça também não teve descanso depois da última novela das nove da Globo. O ator completa 78 em abril e encarnava o austero empresário Gonçalo na trama de João Emanuel Carneiro. E já pode ser visto no ar em "Paraíso como o sensível Antero.
"Às vezes, você repete muitas cenas, fica em pé, grava 20 tomadas e quase não tem tempo para sentar e tomar um café. Mas eu adoro. É quase uma relação sadomasoquista", exagera.
Contar com atores experientes é um desejo premeditado da maioria dos autores. Primeiro, porque profissionais que já acumulam anos de trabalho na TV é uma espécie de segurança para escalações em personagens "curingas".
E também pelo fato de a maioria dessas pessoas ter começado a carreira nos anos em que a televisão começou a ser implantada no Brasil. "Os veteranos sabem usar a postura e o olhar. Muitos vieram do rádio ou do teatro. Têm bagagem, ao contrário de grande parte do elenco jovem de hoje, que não sabe sequer usar a voz", critica Ricardo Linhares, que escreveu com Gilberto Braga a novela Paraíso Tropical, em 2007.
Na época, o núcleo do edifício Copamar chamou a atenção com atores como Hugo Carvana, Daisy Lúcidi e Yoná Magalhães.
Mesmo assim, alguns idealizadores das histórias não associam o crescimento de papéis para sessentões e setentões aos avanços na medicina e na cosmética.
Gisele Joras, que estreou como autora na Record ano passado, com Amor e Intrigas, e trabalha em cima da adaptação brasileira de Betty, a Feia para a Record, é uma delas. Para Gisele, sempre houve esse espaço. "Shakespeare não precisou de nenhum estímulo para criar seu Rei Lear", justifica.
Independentemente de enxergarem ou não abertura para trabalho, não é fácil para alguns atores se manterem no ar. Elias Gleizer, 75, que vive o doce Cadore em Caminho das Índias, gosta de dizer que não tem do que reclamar.
Mas reconhece que não existe tanto espaço assim para privilégios na terceira idade. Principalmente por insegurança. "Não dá para recusar papel porque está cansado. Você vai sempre até o último limite. Se começar a pedir muito, vai se tornar chato e, naturalmente, ninguém volta a chamar", analisa.
Talvez por isso o ator faça questão de ir para o trabalho com seu próprio carro, ao volante. "Dirijo mais ou menos bem. É para o meu próprio conforto", garante.
Galãs maduros
Passam os anos e os galãs continuam quase os mesmos. E, para alguns autores, isso é normal. Há quem diga que "ator não idade". "A medicina e a cosmética hoje permitem que existam galãs maduros. Tony Ramos, por exemplo, continua assim aos 60, uma idade em que, até poucos anos atrás, faria apenas papéis de avô", opina Ricardo Linhares.
Mesmo quem nunca teve espaço para ser galã pode ganhar essa função com a valorização do que chamam de "melhor idade". Ary Fontoura e Nicete Bruno, por exemplo, interpretaram o casal Romeu e Juju em Sete Pecados e fizeram de seus personagens um dos principais atrativos da trama de Walcyr Carrasco.
E o autor jura que não planejou isso. "Escrevo sem pensar no resultado. Deixo os números com os departamentos comerciais. Eu uso o que acho que gostaria de ver no ar", garante.
Renata Sorrah ainda não ganhou ares de mocinha depois que a maturidade chegou. Mas aos 62 anos reconhece que cada vez as oportunidades de se mostrar sensual e em papéis com conflitos amorosos tendem a crescer. "Isso é geral, não tem como reduzir à TV.
A gente anda na rua e vê que as pessoas aprenderam a se cuidar e envelhecem melhor", explica. No ar com a reprise de Senhora do Destino ¿ como a ex-prostituta e vilã Nazaré ¿, a atriz está cotada para interpretar uma das protagonistas do seriado "Cinquentinhas", que Aguinaldo Silva deve estrear na Globo no próximo semestre.
"Já me falaram sobre isso, mas não posso adiantar informações. Oficialmente, nada foi discutido, não sei se vou mesmo fazer", desconversa.
Instantâneas
# Eva Todor é a atriz com mais idade do elenco de Caminho das Índias. Ela completa 87 anos em setembro, quando a novela ainda estará no ar.
# Inicialmente, Helena Xavier estava escalada para continuar interpretando a simpática Simone em Promessas de Amor. Mas a Record decidiu dar férias à atriz, que ainda não sabe quando volta ao ar.
# Mauro Mendonça faz questão de dizer que já tem 55 anos de carreira. Mais que o dobro que vários atores que contracenam com ele.
# Ary Fontoura já fez 47 novelas nos 43 anos em que é contratado da Globo. "E espero fazer muito mais ainda", torce.