'Shrek, o Musical' traz transformações e desafios intensos ao teatro; veja detalhes da adaptação
Peça protagonizada por Tiago Abravanel terá Fiona dividida entre duas atrizes, cenas de voo e trocas de figurino em tempo recorde
Lançado em 2001, o filme de animação computadorizada Shrek subverteu a fantasia ao destruir o conceito do politicamente correto da cultura pop, especialmente das produções infantis da Disney.
A história do ogro feio e um tanto repulsivo, capaz de fazer velas com a cera que tira do ouvido, tornou-se um fenômeno graças a tiradas humorísticas nas quais, até então, nenhum produtor de Hollywood se atrevia a investir um tostão.
Pois a DreamWorks 'pagou para ver' a reação do público diante de cenas como Cinderela saindo no tapa com Branca de Neve.
Tiago Abravanel, o Shrek no teatro
"Eu sempre quis interpretar o Shrek, principalmente por causa de seu sarcasmo, do mau humor, e por, mesmo assim, ser extremamente humano", afirma o ator Tiago Abravanel, que vive o ogro verde em Shrek - O Musical, que estreia no Teatro Renault, em São Paulo, na próxima quarta-feira, 15.
Assinado pelo Instituto Artium, em coprodução com o Atelier de Cultura, o espetáculo reúne um elenco com 30 artistas para contar a história do ogro que vê a solidão ameaçada quando seu pântano é invadido por criaturas de contos de fada exiladas para lá por Lorde Farquaad, líder maligno interessado em se tornar rei, o que só acontecerá caso consiga se casar com a Princesa Fiona.
A história de 'Shrek, o Musical'
Ela vive aprisionada há 30 anos em uma torre, protegida por um dragão, e Lorde Farquaad promete retirar os seres mágicos do pântano se Shrek lhe trouxer Fiona. Na disputa, o ogro, sempre acompanhado por um Burro animado e tagarela, se apaixona pela princesa.
"Shrek é o mais humano dos personagens do musical, mesmo sendo esquisito, feio, monstruoso, nojento. Sua carapaça impressiona, mas é um cara sensível", conta Abravanel, que sente um carinho especial pelo personagem pela aproximação com sua história. "No início da minha carreira, as pessoas também me olhavam superficialmente, me vendo apenas como o neto do Silvio Santos ou o sósia do Tim Maia. Só depois descobriram quem realmente sou."
As duas atrizes que dão vida a Fiona
Identificar-se com as características de seu personagem também marca outros artistas do musical - como Fabi Bang e Myra Ruiz, que se alternam na interpretação de Fiona. Alçadas ao sucesso depois de protagonizarem três exitosas temporadas (2016, 2023 e 2025) de Wicked em São Paulo, elas vão dividir a personagem até junho, porque no mês seguinte retomam os papéis de bruxas no Rio de Janeiro, onde Wicked vai cumprir temporada.
"É muito prazeroso viver Fiona porque interpretei várias protagonistas muito pesadas e agora é uma comédia", conta Myra. "Fiona busca o amor quase como uma tonta, depois de passar anos presa em uma torre, o que lhe deixou sem traquejo social. Mas ela é forte, decidida, não se apequena diante desse desespero."
Segundo a atriz, a aproximação acontece pela fragilidade. "Eu me sinto como ela em momentos da minha vida", conta.
"O público me vê glamourosa no palco, mas sou uma pessoa extremamente estranha. Tenho ansiedade social, falo coisa errada, eu me embolo. São características que eu trouxe para Fiona. Tenho um entendimento sobre o que ela pensa, sobre querer muito o amor depois de passar 30 anos em uma torre."
Cansada de viver princesas frágeis e indefesas, Fabi Bang também encontrou em Fiona a mesma obstinação. "Ela é uma fortaleza feminina. Eu a vejo como uma metáfora pronta, perfeita, de uma mulher que muitas vezes precisa ser forte para se impor, acessar um lugar de força para simplesmente ser ouvida."
Como já encontrou em outros momentos da carreira o paralelo entre a mulher perfeita e a imperfeita, Fabi usa o humor para lidar com os estereótipos.
"Fiona traz elementos muito favoráveis para a comicidade, justamente pelo fato de ter uma carcaça de princesa, mas com atitudes inconvenientes. Ela tem uma roupa linda, um cabelo penteado, uma coroa, mas come um esquilo assado na brasa, como se fosse um churrasquinho de esquina", diz. "Como são mundos distintos, a ironia é a maior provocação para acessar o humor da personagem."
'Shrek não é ninguém sem o Burro'
A principal fonte de risadas de Shrek - O Musical, porém, é o Burro e suas tiradas afiadas. "Eu me baseei no estilo do Eddie Murphy, que dá voz ao personagem no filme original", conta a atriz Evelyn Castro.
"Eu trouxe a chatice do Burro que, ao mesmo tempo, é apaixonante. E também um estilo de humor do grupo Monty Python, inteligente, feroz." Seu desafio foi aceitar um papel habitualmente vivido por homens. "Como não foi possível mudar o gênero, preciso cantar muitas vezes com a voz mais grave."
Para Abravanel, Shrek não é ninguém sem o Burro. "Um brilha em função do outro. É como o Gordo e o Magro, Ingrid Guimarães e a Heloisa Perissé", compara.
Desafios técnicos e inclusão de personagens brasileiros
Evelyn também participa de uma cena de voo em que chega a literalmente andar pelas paredes. "Isso torna o espetáculo muito difícil tecnicamente, porque resolvi incluir outro voo além da manipulação de bonecos", afirma o diretor Gustavo Barchilon.
Na adaptação do texto, ele fez diversas alterações aprovadas pela DreamWorks, desde modificar o prólogo até incluir conhecidos personagens brasileiros como Cuca e Emília, além de brincar com clássicos do teatro musical como Mary Poppins, O Fantasma da Ópera, O Rei Leão, Gypsy, A Chorus Line, Chicago, Priscilla, a Rainha do Deserto e Dreamgirls.
"O musical se inspira no primeiro filme do Shrek, que me ajudou a tirar dúvidas sobre os personagens. Mas eu também trouxe elementos dos outros filmes, como a Fada Madrinha que veio do segundo longa", explica ele, que manteve apenas uma canção cantada em inglês, I'm a Believer [versão do hit do The Monkees regravada pelo Smash Mouth para a trilha sonora do filme no começo dos anos 2000].
E, ao contar com duas atrizes para o papel de Fiona, o diretor precisou criar duas montagens. "Apesar de alternantes, Myra e Fabi são as donas do papel, com tons de comédia distintos. E uma faz algo que a outra não faz e vice-versa."
Figurinos e maquiagem chamam atenção
O mesmo desafio é enfrentado por Tiago Abravanel. "O espetáculo muda literalmente a cada sessão. A construção de cada Fiona é muito diferente e consequentemente a resposta do meu Shrek acaba sendo diferente", diz ele, obrigado a ser o primeiro ator a chegar no teatro para se submeter à maquiagem e à colocação da máscara do ogro, criada especialmente em Londres pelo designer brasileiro Bruno Vinagre.
Preparada com uma mistura de látex e silicone, a prótese foi moldada a partir do rosto do ator e é aplicada com uma cola especial. "Ela é leve e permite o uso de dois microfones, caso um falhe durante a apresentação", conta Vinagre, que trouxe cerca de 200 próteses da Inglaterra porque cada uma só pode ser usada durante um dia. Com isso, a caracterização no ator leva cerca de três horas, envolvendo maquiagem, próteses e figurino.
Já a transformação de Fiona humana em ogra (sim, ela muda de perfil à noite) precisa acontecer em tempo recorde: 1min10s. "Eu e Fabi saímos de cena e ficamos paradas, com os braços abertos, enquanto sete pessoas promovem a troca rápida", conta Myra, cujo figurino, criado pela veterana figurinista Ligia Rocha, traz adereços de flores e folhas.
Os números, como acontece em grandes produções, são superlativos: mais de 940 itens de figurino (totalizando 145 looks completos), 57 chapéus, 280 pares de sapatos em cena, 150 perucas, 15 trocas de cenários ao longo do espetáculo, 25 números musicais e um dragão de cerca de 9 metros.
Da China veio um contêiner com os adereços de seda colocados no teto e na lateral do palco para simular a extensão da floresta. "Apesar da grandiosidade, Shrek conta uma história sobre quebrar moldes, unindo carinho e humor ácido em um espetáculo que conversa com todas as gerações", diz Barchilon.
'Shrek, O Musical' (Serviço)
Estreia: 15 de abril, quarta-feira, às 20h.
Em cartaz: Até 7 de junho de 2026.
Horários das sessões
- Quartas, quintas e sextas | 20h.
- Sábados 15h e 19h30.
- Domingos 14h e 18h30.
Local: Teatro Renault - Av. Brigadeiro Luis Antonio, 411 - Bela Vista.
Preço dos Ingressos: De R$ 50 a R$ 450.
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