'Sem o Brasil, Paper Tiger não estaria no Festival de Cannes', diz o produtor Rodrigo Teixeira
O produtor brasileiro Rodrigo Teixeira marca presença constante no Festival de Cannes. Este ano, a produtora dele, a RT Features, produziu 2 filmes selecionados, "Paper Tiger", do americano James Gray, na disputa pela Palma de Ouro, e "La Perra", da chilena Domingas Sotomayor, com Selton Mello no elenco, que integra a mostra paralela Quinzena dos Cineastas. Em entrevista à RFI em Cannes, o produtor defendeu o papel do Brasil na participação de "Paper Tiger" em Cannes.
Adriana Brandão, enviada especial da RFI a Cannes
A presença brasileira em Cannes nesta 79ª edição do festival é discreta. O país está representado na seleção principalmente com quatro coproduções, apresentados em várias mostras. Apenas um único filme autoral brasileiro, o curta Laser-Gato, de Lucas Acher, foi selecionado na mostra La Cinef.
Há cinco anos, Rodrigo Teixeira também era o único brasileiro na competição oficial pela Palma de Ouro, como produtor de "Armageddon Time", também dirigido pelo americano James Gray. Para o brasileiro, produtor de grandes sucessos como "Ainda Estou Aqui", de Walter Salles, o único paralelo entre os dois momentos "é o trabalho".
Teixeira, que é um dos produtores latino-americanos mais influentes do momento, participa do Festival de Cannes há 15 anos defendendo o cinema independente e autoral. Ele defende que, apesar de discreta, a participação do Brasil este ano é importante pela relevância dos filmes selecionados e garante, "sem o Brasil, 'Paper Tiger', de James Gray, não teria sido rodado e não estaria no Festival de Cannes".
RFI: Qual o paralelo você faz entre esta edição e a de cinco anos atrás, quando você também era o único brasileiro presente na competição oficial pela Palma de Ouro, como produtor de "Armageddon Time", do James Gray?
Rodrigo Teixeira: Eu acho que o único paralelo é o trabalho. O cinema independente hoje depende de uma carreira de festivais. Então, o que a gente tem que fazer é trabalhar para que os nossos filmes possam estar presentes nesses festivais, possam participar desses festivais. Saber onde você vai colocar esses filmes é muito importante.
RFI: E qual é a sua relação com o Festival de Cannes?
RT: Eu tenho 15 anos de relação com esse festival. O primeiro filme que eu fiz que entrou nesse festival foi "O Abismo Prateado", do Karim Aïnouz, em 2011, na Quinzena dos Cineastas. Desde então, 12 filmes meus circularam por esse festival. É uma pena que o cinema brasileiro tenha uma presença discreta este ano, haja vista que no último ano a gente teve "O Agente Secreto", que foi um estouro aqui no festival. Mas eu não vejo uma presença tão discreta assim, porque acho que há dois produtores importantes com filmes aqui que lideram esses processos.
Tem a minha empresa, a RT Features, em parceria com outras pessoas, com "Paper Tiger", e a Tatiana Leite com o filme "Elefantes na Névoa", na mostra Un Certain Regard. Você tem dois profissionais que constantemente estão frequentando o Festival de Cannes. Por mais que seja discreta, ela é importante, porque ambos os filmes têm relevância no Festival de Cannes. Se não tivesse o Brasil dentro de "Paper Tiger", eu posso te garantir, o filme não seria realizado e não estaria no Festival de Cannes. Isso é uma prova de que o Brasil está, sim, presente. Qualquer coisa que "Paper Tiger" alcançar nesse festival, o Brasil tem uma responsabilidade muito grande.
RFI: Você também está aqui representando o cinema autoral e independente americano, em um ano de ausência das grandes produções dos estúdios de Hollywood. É uma dupla responsabilidade?
RT: O cinema de grandes estúdios americanos vinha frequentando o Festival de Cannes para apresentações especiais. Ele não está nas competições nem nas mostras paralelas. São premières. Eu acho que muitos deles têm um pouco de medo de vir para serem detonados pela crítica e ter uma relevância mercadológica menor no momento seguinte. E agora, falando da competição, você tem dois filmes com uma relevância muito importante. Isso é uma prova contínua de que o Thierry Frémaux [diretor-geral] e os selecionadores desse festival apoiam o cinema independente americano. E o cinema independente americano não é independente porque não tem um estúdio. Ele é independente porque tem liberdade de expressão. E esse cinema de liberdade de expressão está aqui. Ele é o filme do Ira Sachs, "The Man I Love", e é o "Paper Tiger", do James Gray. São dois diretores que respeitam a liberdade de expressão. Eles poderiam estar fazendo filmes de estúdio, poderiam não estar mais frequentando os festivais. Mas são generosos o suficiente para continuar a vir aqui apresentar filmes para serem julgados e, eventualmente, escrutinados. Eles estão aqui dando a cara para bater, apresentando filme. Você tem aí 10% dessa seleção americana, mas são filmes que têm coprodução francesa, brasileira, italiana. É como o cinema tem sido feito recentemente. O cinema americano hoje também depende dessas parcerias internacionais.
Eu acho superimportante fazer parte de um filme americano também. Porque eu, como produtor latino-americano, estou viabilizando um filme deles também. Aqui, eu também represento uma bandeira que não é a minha e que eu não tenho nenhum problema de representar, mas faço isso com muito orgulho sendo latino-americano.
RFI: O "Paper Tiger", se não me engano, é a sua terceira colaboração com James Gray, que já foi selecionado várias vezes, mas nunca venceu a Palma de Ouro. O filme está tendo uma excelente recepção. Qual é o seu palpite?
RT: É difícil, porque meu coração é totalmente de torcedor nessa hora. É óbvio que eu adoraria que James Gray levasse o prêmio principal, mas é difícil prever. Você tem autores muito importantes, Pawel Pawlikowski, Hamaguchi, Rodrigo Sorogoyen, Cristian Mungiu, Zvyagintsev, o James, o Ira [Sachs], o [Pedro] Almodóvar. Eu estou esquecendo provavelmente muitos outros nomes, mas você tem muitos grandes autores e eu acho que esse júri é capaz de escolher o que eles entendem ser o melhor deste ano. Se eles entenderem que "Paper Tiger" é o melhor, eu vou ficar muito feliz e vai cumprir um sonho que eu tenho, que é um dia ter um filme laureado aqui com o principal prêmio.
RFI: "La Perra", de Dominga Sotomayor, é produzido pelo Brasil, a diretora é chilena, a roteirista uruguaia, é rodado em espanhol, mas tem brasileiro no elenco. Essa internacionalização é a tendência do cinema latino-americano e, pelo que você está dizendo, do cinema do continente americano?
RT: É uma excelente pergunta. Você esqueceu só de mencionar uma nacionalidade: o filme é adaptado de um livro colombiano, "A Cachorra", de Pilar Quintana. Então, esse é um filme extremamente latino-americano. É o meu projeto mais latino-americano, porque nós temos Chile, Uruguai, Brasil e Colômbia no mesmo filme. Essa colaboração fez com que o filme ficasse com a beleza que ele tem. Eu acho que ele talvez seja um dos trabalhos mais bonitos que já fiz. Eu tenho um orgulho muito profundo desse filme. Eu o considero um irmão de "Murina", que é um filme croata que eu fiz e que ganhou o prêmio Caméra d'Or aqui. São dois dos filmes de que eu mais me orgulho.
Agora estou fazendo um filme americano no Brasil ("Zero K", do diretor Michael Almereyda) e a minha condição para fazer esse filme foi essa. Vocês querem fazer comigo? É no Brasil.
RFI: Esse é o seu novo projeto, novo desejo, de levar todas essas produções para o Brasil para que o país passe a ser um local de filmagem para produções internacionais?
RT: Meu desejo é que o Brasil esteja inserido em quase tudo o que eu faço. Onde eu puder inserir o Brasil, vou inserir. É o meu país. Eu tenho muito orgulho de ser brasileiro. É o lugar onde eu nasci, é o lugar onde meu coração reside. Eu sou feliz vivendo lá. Tenho filhos brasileiros. Onde eu puder levar o Brasil, vou levar. Isso é o que eu posso dar em troca ao meu país. É levar o Brasil para onde for possível.
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